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Antena da Raça

O profeta, o sonho, a fome e o delírio

Por Vitor Velloso

Durante o Olhar de Cinema 2020

Glauber foi, é, profético. Transou os tempos e os espaços do regionalismo brasileiro. Era frente do Abertura pois acreditava na síntese dialética entre o socialismo e o capitalismo. Acreditava no materialismo como fato. Firme quanto às necessidades de reformas de base, sociais, políticas, sem os partidarismos vulgares. 

“Antena da Raça” de Paloma Rocha e Luís Abramo é um documento de interseção entre as vertentes promulgadas e profetizadas por Glauber Rocha em suas obras e no Abertura, com as resoluções contemporâneas. Gerando um atravessamento imediato, de diretriz consciente dos nortes que estão sendo tomados neste país. Aqui, há necessidade de fazer uma breve concessão de didatismo, pois há recursos utilizados no documentário que acabam tornando parte da experiência um impulso que se desprende da película. A fotografia rasgada e a encenação breve com a leitura de Eztetyka do Sonho, representam movimentos inusitados e que acabam fragilizando parte do ritmo. 

Porém, a obra é vertiginosa como o caos político e histórico que findou o país tropical, com o capitalismo dependente e do subdesenvolvimento violento e virulento. As falas do profeta desbarbado, com vergonhas expostas, são reverberadas à contemporaneidade brasileira, por consequência a utopia que Glauber citou, defendeu, reconhecendo-a enquanto tal, tornou-se a maior arma da festividade tupiniquim. O devaneio paradisíaco e paralítico de uma burguesia que se vê compelida à aliar-se ao dito progressismo, por manutenção de poder e status em sociedade. Suas propriedades, privadas, jamais devem ser desveladas, interrompidas de seu amplo crescimento. O outro lado, por consequência, reage de maneira agressiva com a defesa do moralismo e da gangrena tacanha dogmática cristã. 

O documentário possui trunfos explícitos ao relacionar parte da encenação dos filmes de Glauber com a pataquada bolsonarista, se o teatro era a tônica do âmbito político, agora torna-se o circo mitológico. A inversão materialista. O delírio violento do imperialismo. A violência brutal enquanto manifestação máxima das importações anteriores, de bases cristãs e o misticismo solar, aliadas ao poder do capital, transformaram as bases estruturais brasileiras no campo de concentração de minorias e dos povos originários. É a institucionalização da transa demoníaca entre o Colonialismo, o Cristianismo e o Capitalismo. Tríade da inversão dos “valores” dogmáticos da sacristia. 

O filme de Paloma Rocha e Luís Abramo é uma homenagem ao profeta e à televisão brasileira e sua “Abertura”, é o monumento dialético da misancene (como Glauber chamava) brasileira. O séc.XX e o início do séc.XXI em transa constante, atravessados pela compreensão das razões do nosso subdesenvolvimento. É o terceyro mundo em consonância de ações políticas dependentes e frágeis. A descentralização das pautas e a ruptura constitucional, dilema insólito, das frentes latino-americanas. “O povo é o mito da burguesa” consagra a desvirtualização dos verdadeiros problemas do subdesenvolvimento. Não há procura por resoluções sociais, sim uma tentativa de manutenção do poder. Tal como a burguesia, mostra suas garras para abocanhar a parcela da situação. Peçonhentos, medíocres, sintonizam suas antenas para captar a última novidade norte-americana. 

Importa-se a ideologia, as armas e o capital, pois almeja a aprovação paterna dos imperialistas virulentos. É o Freud, denunciado por Glauber, em flerte imediato com a relação dependente e medíocre entre o Brasil e a Trumpland. Mas está claro que as concessões feitas pelo ufanismo de quinta, com o neoliberalismo, retomam o demagogo infeliz de Díaz em representação de camisa preta com arma e bíblia na mesma posição. É o batismo na multiculturalização brasileira, transformado em neoliberalismo casando com Neopentecostalismo, tomando o Planalto e o Rio de Janeiro. Entre cinema, cultos e um punhado de dólares, o “Mito brasileiro” concede o desejo fatalista dos reacionários. Uma espécie de apocalipse eugenista, onde apenas a semelhança da que o pariu, resta. 

“Antena da Raça” nos relembra a necessidade de retomarmos contundentemente às obras de Glauber e como a miséria intelectual da esquerda e da direita, transformaram o Brasil nesse pandemônio de medíocres, imbecis e assassinos. É apenas a continuidade da representação fálica da burguesia no poder. Não à toa, a própria resistência se tornou uma espécie enfadonha de alta burguesia que “reconhece” às margens da sociedade, quando essas bordas históricas nos dão a verdadeira lição. Mano Brown não estava errado, Glauber também não. Mudanças sociais devem estar acima de partidarismos. E isso, “Antena da Raça” faz com consciência.

Trailer

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