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Super Urso – Um resgate na cidade grande

Subestimação infantil

Por Victor Faverin

A animação chinesa “Super Urso – Um resgate na cidade grande” (2020), dirigida por Wang Qi e distribuída no Brasil pela A2, pode ser definida pela conjunção “se”. Se crianças de três anos soubessem usar computação gráfica, teriam feito um trabalho muito melhor, visto que possuem bastante imaginação e já têm idade suficiente para saber o que as atrai – não submeta o seu filho ou filha a essa experiência se apenas o colorido da tela não for o bastante para entretê-lo. Se o filme fosse um curta-metragem, teria sido igualmente desnecessário, mas menos estafante e, talvez, até mais palatável. Os 75 minutos do desenho custam – e muito – a passar. Esse é, aliás, o pior indício para uma obra, seja qual for: o cansaço que ela causa no espectador. Se estivéssemos em uma sala de cinema, teríamos crianças irritadas e pais adormecidos – ou em coma.

Para chegar às conclusões acima descritas, eu, um homem de 32 anos, tentei voltar muito no tempo e analisar a animação com o olhar infantil, aquele mesmo ansioso por descobertas e que ainda ri das piadas de peido do Adam Sandler como se fossem pérolas da comédia. De que forma “Super Urso – Um resgate na cidade grande” seria encarado por mim e pelos meus pequenos amigos? Sou do tempo em que “Em busca do Vale Encantado” (1988) era o suprassumo da epopeia animalesca. Aquele desenho, que acompanhava a jornada do dinossauro Littlefoot e seus amigos em busca da terra prometida e tinha como pano de fundo a perda da mãe (mesma temática de Super Urso), fazia jus ao título e encantava. Mas não podemos nos restringir à velha e inútil discussão – ressaltada pela internet – de que “a minha infância foi melhor do que a sua”, ainda que obras do calibre de Castelo Ratimbum e O mundo de Beakman tenham sido definitivas na formação dos nascidos na década de 80 e início de 90.

Tal embate, no entanto, se torna impossível de vencer se formos levar em consideração a sorte que tiveram os que vieram ao mundo nos anos 2000 e cresceram assistindo o fortalecimento do império Disney/ Pixar e a mais que merecida consolidação do Studio Ghibli. Obras como “Toy Story” (1995 – 2019), “Up – Altas aventuras” (2009), “A viagem de Chihiro” (2001) e “Divertidamente” (2015), apenas para citar alguns, não nos deixam mentir sobre a qualidade inegável de desenhos que seduzem pessoas de todas as idades.

Mas como, afinal, uma criança de três anos poderia se divertir e o que ela aprenderia com “Super Urso – Um resgate na cidade grande”? O humor dito físico, aqui, é pouco e mal utilizado, mas algumas quedas e sopapos podem levar os pequenos ao riso. A lição de respeito aos animais e à fauna é válida. O problema é que um grande número de filmes já fez isso e de maneira absurdamente mais eficiente. Sabemos que educar um filho é caro e, por isso, é preciso ser minimamente seletivo ao escolher programas que vão distrai-los. Por isso, além da diversão puramente escapista, uma animação precisa trazer uma lição e, para absorvê-la, é necessário estar, no mínimo, acordado.

Vamos, então, analisar o desenho em questão, finalmente. O urso pai e o urso filho mantém uma relação de amor e amizade na selva. A sombra da perda da mãe é sentida pelo filho, que ainda acredita em seu retorno. Caçadores invadem o ambiente e sequestram o filhote. O pai, então, parte em busca de sua cria, fazendo uma breve, confusa e sem graça visita em uma cidade grande. Os distribuidores viram nessa incursão motivo suficiente para criar o epíteto do título, ainda que claramente não faça sentido. Assim, com a ajuda de um cachorro meio ciborgue, meio cão de circo – cujo aparecimento no primeiro ato e longa ausência no terceiro jamais são explicados – o pai vai em busca dos raptores (não espere nada perto de uma procura emocionante e divertida como em “Procurando Nemo” (2003)). Os vilões são, como você que ainda está aqui lendo já deve imaginar, caricatos e compostos pela dupla do mal humorado (o magro) e o bonachão (o gordo), além de dezenas de outros capangas com basicamente o mesmo rosto, todos comandados por um pretenso antagonista de cabelo branco e preto – alô Cruella DeVil, copiaram o seu look.

Porém, o ponto alto de tudo o que não faz rir e cansa em “Super Urso – Um resgate na cidade grande” está em uma cena, uma bendita, insensata, incoerente e disparatada cena que envolve um arremesso, tal como no futebol americano, em cima de um trem. Quem tiver a coragem de assistir, saberá do que estou falando.

Trailer

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