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Spencer

Monstros de um passado real

Por Vitor Velloso

Spencer

Pablo Larraín teve um início de carreira efervescente, conseguiu atrair alguma atenção com “Post Mortem” (2010) e “No” (2012), perdeu algum brilho com “O Clube” (2015) e desde então mergulhou nas biografias, dramas e toda sorte de promoção para figurar no Oscar. “Spencer” é a síntese da grandiosidade inócua que marca “Ema” (2019) e do arrastado desenvolvimento particular de uma figura icônica para a grande mídia, debruçando-se em ostensivos figurinos na procura de uma profundidade nas relações de seus personagens, como em “Jackie” (2016). O problema é que a fórmula sustentada pelo diretor chileno encontra sua exaustão nos primeiros minutos, desde o pretenso rigor plástico, marcado pela centralização das ações na encenação, até a insistente representação de Diana como uma figura deslocada da realeza.

Por exemplo, a dinâmica que inicia a projeção é capaz de criar alguma tensão entre o inevitável atraso da protagonista para seu compromisso, a preocupação de todos os funcionários com a ordem, a chegada da família e o passado de Diana. Nesse sentido, os primeiros dez minutos cumprem a importante função de organizar os pontos dramáticos, sustentando seus eixos até os últimos minutos. O problema é que quanto mais avançamos em “Spencer”, mais essa trama real ganha forma e o desinteresse pela construção dos problemas enfrentados pela personagem, transformam a fórmula de Larraín em um completo esgotamento de sucessivas tentativas de provocar alguma reação na contextualização de seus belos cenários e das belas roupas. Sem dúvida, há méritos nessa caracterização, mas a opacidade de suas escolhas são incapazes de sustentar esse drama que não possui uma forma definida.

O projeto parece perdido com as dimensões de suas temáticas, tanto no caráter egóico da elevação das personalidades, quanto na imposição de uma interpretação atravessada da própria realeza. Tal retrato que aprofunda a crise psicótica, constante, demonstra que o interesse de Larraín não é desmistificar certas histórias, mas sim de construir universos pomposos em torno das breves informações que possuímos. Em síntese, o ciclo de tristezas e desesperos vividos no centro da narrativa, não é nada além de uma base para sustentar as investidas formais do diretor, como quem procura ser laureado por uma estética tão saturada de diálogos entre o drama e o terror. Não por acaso, alguns estão definindo a obra como um terror artístico, onde os fantasmas do passado vão se materializando no confinamento, nas relações desgastadas pelo peso histórico. Na verdade, a construção de “Spencer” passa longe de querer chocar o espectador com um horror, imediato ou psicológico. Pelo contrário, é uma trama fincada em grilhões padronizados, que acredita no fluxo de suas imagens e fragiliza qualquer aproximação com a personagem, transformando a experiência em um ambiente estéril de gritos nunca cumpridos. Porém, se a proposição fosse capaz de consolidar parte de suas ambições, a encenação conseguiria justificar o rigor para além de uma reprodução histórica com as particularidades da atuação de Kristen Stewart. Por fim, é mais uma biografia de Hollywood, que desperdiça o talento de Kristen, longe de estar brilhante aqui, Sally Hawkins, aparecendo pouquíssimo e roubando as cenas, e Timothy Spall, com seus eternos enigmas com expressões amplamente polarizadas.

Provavelmente irá figurar em algumas indicações do Oscar, figurino e atriz são os mais cotados, mas a fotografia de Claire Mathon pode acabar conseguindo algum espaço, mesmo que esteja longe da qualidade de outros trabalhos apresentados (Retratos de Uma “Jovem em Chamas”, de 2019, e “Pequena mamãe”, de 2021). Claire cumpre o que o diretor propõe, uma didática tão desarticulada quanto a projeção de ego das personalidades. A infantilidade de algumas decisões são realmente vergonhosas, especialmente no segmento final, onde as pérolas precisam ser rompidas para que uma superação aconteça, toda essa sequência é desastrosa.

Por fim, “Spencer” é mais um deslize de Larraín, que vem sendo cada vez mais engolido pelos padrões da indústria e deixando o brilho de outrora no passado.

1 Nota do Crítico 5 1

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