Petite Maman

A fantasia para compreender a realidade

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2021

Exibido na mostra competitiva da edição online do Festival de Berlim deste ano, o quinto filme de Céline Sciamma (de “Tomboy”, “Retrato de uma Jovem em Chamas”) comprova que o cinema não precisa de muito para imergir o espectador em uma história. “Petite Maman”, que se narra pelo intimismo existencialista, traz a perspectiva da livre imaginação fértil de uma criança para desvendar medos, perdas, identidades, abandonos e fugas de um iminente sofrimento traumático. Ao gerar a fábula mental, a protagonista mirim consegue se libertar da realidade (como um descanso) para compreender o que acontece e aceitar as consequências do porvir. Em seus filmes, a câmera é a própria mise-en-scène que nos conduz pelos meandros de portas abertas. Neste, não poderia ser diferente. Capta-se o instante do real com presente ressignificado de uma memória, visto que a cada segundo que passa, o agora já virou passado.

“Petite Maman” quer acima de tudo a verdade. De não proteger a personagem contra o tema da morte. O início do longa-metragem, Nelly, com oito anos de idade, dá adeus a seus “amigos” idosos, relações construídas por constantes visitas ao hospital para visitar sua avó. Sabemos que seu ente querido faleceu. E que precisa ajudar seus pais a limpar a casa de infância de sua mãe. E Nelly explora os arredores onde sua mãe costumava brincar. Uma das maestrias deste filme é a permissão dada de vivenciar subjetivamente o luto. Poder experimentar pela fantasia e/ou uma projeção da realidade e/ou uma escolha de se olhar o que se quer ver, como uma nova amiga construindo uma casa na árvore em um bosque.

Se nas primeiras cenas, a música quer forçar uma inclusão emocional, ao decorrer de “Petite Maman” então nos damos conta que tudo é possível, visto que estamos no caminho do dentro, especialmente quando sua realizadora, com domínio preciso da direção, conecta a história por dicas, pistas, detalhes e pelo naturalismo das formas, reações e expressões, que criam uma realista visão em ambiência de descompensação horária, como um Jet Lag de ser, mais explícita talvez por nossa percepção de que as ações que assistimos soam mais instruções do roteiro, como se estivessem em um processo de encenação editada. O longa-metragem quer isso mesmo: dissociar qualquer traço de complexidade adulterada da simplicidade orgânica de propósito final. Somos convidados a viajar na ingenuidade amadora e imatura da mente de uma menina que está completamente confusa em desvendar o mundo. Mas sua decisão é ainda mais paradoxal. Desliga-se para respirar. Em libertas brincadeiras infantis.

“Petite Maman”, que pode ser considerado como um exemplar de filme de quarentena, traduz uma metalinguagem da própria criação. Nelly sente tédio. E seus pais precisam se adequar, contando histórias e gerando novos jogos para “matar” o tempo, por exemplo, as de terror, que causam pelas sombras e reflexos, e medinhos de “monstros”. Este também é um filme “prato cheio” aos psicanalistas de plantão. Sua estrutura de estudo de caso, muito pela fotografia de luz outonal de Claire Mathon, analisa predileções de Nelly: como escolher brincadeiras que se jogam sozinhas. Cada vez, após a chuva na floresta, o espectador é mais estimulado a mergulhar em psicológicas metafísicas e a simetria similar de ambientes, que ora conectam para confrontar a crise. A neurociência chama isso de substituição protetora até encontrar a catarse que a tirará do mundo de sonhos projetados. Será um portal a um universo paralelo? Será algo além da imaginação? A mesma realidade invertida? Um teletransporte volta ao tempo “De Volta para o Futuro” para reviver momentos felizes?

Quando Céline não “mastiga” ao público a mensagem da trama, mitigando por completo um fácil e palatável molde mais norteamericano de se fazer filmes, “Petite Maman” entra para o time de obras tipicamente francesas, o que alguns chamam de “cerebrais” e/ou “mais cabeça”. Essa subjetividade do entendimento está inteiramente com quem assiste. Assim, quanto mais o “cérebro” trabalha, mais chegamos a seu objetivo real: a de que a filha precisa salvar a mãe de sua tristeza. A de se sentir culpada. Todo esse embarque, a la “Onde Vivem os Monstros”, de Spike Jonze, deseja afastar a melancolia do luto, fazendo-se presente ainda que pela projeção ensaiada do futuro. Então, quem inventou a tristeza?

Uma das maravilhas da sétima arte é a de saber que esse universo está conectado. Ainda que sem querer (ou não, talvez), “Petite Maman” nos remete imediatamente ao segundo filme “A Primeira Morte de Joana”, de Cristiane Oliveira, pela semelhança temática e por lidar com a primeira morte, física ou de internalização identitária. Tudo porque nós morremos um pouco a cada dia. “Petite Maman” também lembra “A Floresta dos Lamentos”, da japonesa Naomi Kawase, em que para se curar do luta é preciso estar no lugar do luto. Sim, há mais vãs filosofias ressonantes e de decidida perspectiva feminina  no filme de Céline Sciamma que se pode traduzir, imprimindo o melhor da diretora que foca na “fluidez de gênero e identidade sexual entre meninas e mulheres” nessa transição para a fase adulta.

Trailer

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