A Primeira Morte de Joana

Seguindo o fluxo do vento

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Gramado 2021

Há quem diga que só conhecemos a maestria de um cineasta em sua segunda obra, visto que a primeira pode ter sido apenas sorte de principiante. É o caso de “A Primeira Morte de Joana”, integrante da mostra competitiva do Festival de Cinema de Gramado 2021, que não só corrobora a proficiência de sua realizadora gaúcha Cristiane Oliveira (de “Mulher do Pai“), como potencializa seu habilidoso olhar artesanal para construir uma trama de ambiência fabular, sensorial e coloquialmente natural, cuja ficção se funde no realismo existencialista, que por sua vez encontra a poesia imagética e a sutileza das ações-reações-expressões. Cristiane cria aqui um conto intimista pela experiência da sinestesia. O que assistimos é o próprio fluxo da vida em movimento pela perspectiva de uma pré-adolescente com treze anos, que capta infinitas possibilidades de temas universais, mas que a maioria delas se configura como “proibida” e inacessível.

“A Primeira Morte de Joana” é uma jornada em processo de conhecimento. De descobrir o mundo. De receber, processar, questionar, regurgitar, aceitar, se impor e viver as informações, desejos, estímulos e julgamentos. Joana, a protagonista, interpretada pela atriz Letícia Kacperski, traz o conceito máximo da psicanálise: a de que morremos um pouco todo dia. A cada instante, uma parte de nós deixa de existir, talvez pela perda da inocência (impulsos por sentimentos primários), pelo condicionamento atrelado à maturidade, pela incapacidade de se lutar pelo o que realmente queremos. Esse limite tênue entre “covardia” e “coragem” é apenas uma linha. Passar significa uma transgressão aos valores da tradicional família brasileira (a comunidade interiorana onde vive), esta, que existe por aparências e que impede “as coisas boas” por medo de também a ultrapassar, optando por construir prisões, achando que são liberdades. Regras, tradições, imposições.

O roteiro da diretora, com a atriz Silvia Lourenço, fornece um imersivo tom atmosférico, que, vez ou outra, incorpora a epifania metafórica da transformação da personagem principal. A história parte da morte de sua tia-avó, uma artista artesã, de setenta anos, que por rumores era uma “santa”, que “se manteve elegante até o fim”. Nunca teve um namorado. Nunca beijou. Nunca “usou maquiagem”. Uma “líder da comunidade”. Serão segredos guardados para preservar a reputação da falecida? Que puritanismo é essa que vem do Sul do Brasil, “terra” influenciada pela liberdade da cultura alemã? Essas contradições viram investigações pelos olhos e curiosidades de Joana, junto de sua melhor amiga. “A Primeira Morte de Joana” pode ser uma tentativa corajosa de suicídio pela ideia que só matando você é que se consegue chegar aos cataventos, “monstros que dançam hipnotizados”. A narrativa nos conduz por um tempo único, de contemplar o vento, emoções e sensações, elementos narrativos, que se potencializam com o desenho de som que amalgama os sons e ruídos pelo presente afetivo. Uma das maestrias de Cristiane é mitigar todo e qualquer gatilho comum, impedindo que clichês de efeito, forçados, facilitadores e dramáticos possam aparecer. O filme mantem a cadência, muito pela montagem de Tula Anagnostopoulos, que teve a consultoria de Cao Guimarães. Um ritmo de tempo real acontecendo, especialmente pela presença espectral da música: como um coro gregoriano-celestial mental que unifica subconsciente com consciente, uma comoção neutra, sem maniqueísmos, respostas e obrigações. Que une culpa à libertação. Julgamento final com a permissão da vida eterna. Outra preocupação lapidada é com os diálogos, traduzidos com autenticidade. Uma fluidez cotidiana, espirituosa, descontraída, banal, ordinária, casual e que amalgama atuação a personagens, que às vezes se expandem fora das telas. Isso muito pela fotografia de de Bruno Polidoro, solar de percepção atemporal.

“A Primeira Morte de Joana” é também um filme que quer respeitar as escolhas de vida da falecida e que nos mostra que é “impossível parar o tempo”. Quando Joana começa a investigar, então percebe as “Anarquistas, graças a Deus” (livro de estreia de Zélia Gattai), os detalhes, as rubricas, as notas de rodapé, postais escondidos. E dessa forma estimula o querer de uma vida “diferente”, contra o perigo iminente do “monstro verde pra todo lado”. Ela sente a “dor do crescimento”. Sugere, mas toma a iniciativa. É uma transmutação “constante” no lugar “onde o vento faz a curva”. Um ambiente hostil, machista (“Veio para escola de biquini, então está pedindo”, provoca o menino) e que cria culpa pela religião, sincretista, quase egoísta (visto que cada um só quer ouvir o que quer – como a “umbanda do cara da farinha”). “Resolver as coisas com soco é coisa de guri (menino), você precisa ser uma menina educada”, recrimina a escola a obrigando a “crescer”. Joana começa a sentir raiva de sua impotência, das limitações e dos outros que ameaçam queimá-la como bruxa na fogueira. Mas encontra  força para “reagir” no refúgio “pouso” (expressão para “dormir lá”) de outro meio-núcleo, entre o mapa de Berlim (“Que grande!”), conversas cúmplices e aprendizados de “descer postes”.

Parece que Joana existe o filme todo em uma atmosfera de sonho acordado. De entender que “não é fácil dividir a vida com outra pessoa”. “A Primeira Morte de Joana” é um filme de cotidiano feminino. Os toques, a masturbação, os olhares, tudo soa mais natural. O resultado pode sinalizar um possível simplismo pela opção da não ilusão técnica, mas não. De forma alguma. Pelo contrário. Poucos longas-metragens conseguem traduzir complexidades pela simplicidade do olhar. Este é um deles. Um filme que evoca o real propósito da imagem unido com o resultado objetivado do roteiro.  Sim, “A Primeira Morte de Joana” é uma obra-de-arte.

Trailer

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