Somleng Reatrey

Espaços engolidos

Por Vitor Velloso

Durante o Festival de Locarno 2021

“Somleng reatrey” de Chanrado SOK e Kongkea VANN trabalha a percepção da psicologia geográfica de maneira sintética como poucas obras poderiam fazer em tão pouco tempo. O espectador é introduzido ao universo de Vibol e Kea, que vendem comida todas as noites em Phnom Penh. Não existe um conflito único a ser resolvido, mas sim a dificuldade de sobreviver em um lugar que se vê engolido por diferentes tipos de corrupção. Desde a boate com nome em inglês ao rapaz que não quer pagar o valor correto pelo prato de comida. São os diferentes espaços de uma mesma cidade que não convergem, mas repelem de forma análoga. O futuro é incerto pela incapacidade de agir diante desse crescimento urbano repleto de capital estrangeiro, os irmãos vêem parte de seus conhecidos se renderem à facilidade do mundo ocidental. É a morte regionalista frente ao imperialismo disfarçado de “globalização”.

A mais-valia ideológica é acachapante aqui, o desejo de prosperidade leva ao vislumbre fora da própria história, buscando em novos territórios possibilidades de ganhar dinheiro sem garantia. É unindo-se ao barco que parte, onde reside um “futuro”. Nesse sentido, é como o diagnóstico de Mizoguchi em “Rua da Vergonha”, um país que se vê em um grau de dependência sem possibilidade de retorno. “Somleng reatrey” consegue articular os problemas econômicos, políticos e sociais com poucos diálogos, mas acreditando no poder de suas imagens e sínteses dialéticas em uma montagem que consegue transitar de maneira fluida pela cidade. É eficiente como um discurso expositivo, sem assimilar o didatismo como padronagem formal. Reconhece a totalidade de sua narrativa sem fugir do debate enraizado na própria história de Camboja e constrói uma prosa onde a decadência programática da população frente ao projeto de verticalização é uma lástima. Enquanto um joga no celular, outra vem da boate.

Pela descrição da Pardi di Domani, uma possível vitória parece distante, porém não seria nenhum absurdo destacar a obra na programação.

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