Setenta

Retrato do Brasil Moderno

Por Vitor Velloso

A partir de movimentos políticos contraditórios e antidemocráticos, como o contemporâneo, discutir sobre “Setenta” torna-se uma necessidade constante da nossa proposta cinematográfica brasileira, buscando aproximar nossa história recente do século XX com a vigência autoritária e demagoga de 2020. Assim o filme de Emilia Silveira, ganha contornos diferentes de sua data de produção, 2013.

Partindo de um vasto acervo de material histórico e de entrevistas, o filme costura momentos vividos pelas vítimas da ditadura com suas respectivas versões do acontecimento. A esta altura da “breve história da democracia brasileira” está claro que negligenciar o movimento cívico-militar de tomada de poder, não pode ser considerado uma “Revolução”, mas sim um golpe que tem seu agravamento em 68 com o AI-5. Defender a volta do mesmo é imoral, antiético e criminoso.

Os links com o momento atual são diversos. A partir da articulação extremista que busca uma tentativa de dissolução do STF e uma prévia de anulação da Câmara dos Deputados, vivemos uma segunda onda de tentativas de derrubar a democracia. Da mesma maneira que em 64, os sinais dessa evasão política e de uma horda “descerebrada” que canta em inglês e procura se armar para “se defender dos governantes”, assim como foi com Mussolini, vemos as estruturas de poder do Brasil se fragmentarem em grupos radicais que importam uma estética de manifestação supremacista, com tochas, máscaras e frases violentas, que procuram acentuar a tensão política vivida no Brasil. Para além das dezenas de crimes cometidos nas manifestações com dizeres anti democráticos, temos às falsas notícias circulando à esmo em rede nacional, agora potencializadas pela internet.

A guerra contra as mídias ganha um novo caráter, a televisão já possui uma dimensão absolutamente diferente da década de 60-70 e o espaço para a discussão torna-se mais acessível. Ou não? O que é essa acessibilidade? A partir dessa visão, dessa discussão, “Setenta” ganha um escopo interessante para o debate político-estético, já que tomamos de empréstimo imagens históricas, um amplo acervo que abarca a necessidade do documentário, graças os esforços da produção. Além disso, uma unidade que compreende este material como parte fundamental do longa, não usando o mesmo conforme uma necessidade subjetiva, mas sim de estrutura direta ao debate.

Porém, esse manuseio do acervo acaba sendo brevemente disléxico ao tentar incorporar essa contemporaneidade das imagens, mas nos permite vislumbrar que o acesso digital às mesmas, é capaz de transformar uma simples manipulação fotográfica em algo realmente inédito no âmbito da produção cinematográfica. Não necessariamente pelo uso feito aqui, mas de um arcabouço que congrega toda uma possibilidade (a)temporal que não se torna arcaica em uso, mas na maneira de fazê-lo.

Está certo que há uma tentativa de ouvir essas vozes, vítimas da ditadura brasileira, em uma filmagem concreta, com as imagens históricas que parecem surgir de um espectro diferente. E essa é uma das principais questões de “Setenta”, uma falta de dialética direta entre esses dois materiais do filme. O diálogo ausente, de forma ambivalente, desarticula gravemente o discurso proposto, pois parece não se encontrar nas próprias camadas que são criadas pela obra.

As atitudes de Emilia Silveira são bastante conscientes de associação política, mas parece haver a falha na comunicação direta com relação à essas transições que são feitas. E mesmo que essa forma construa uma ligação com um possível material televisivo, uma falta de contextualização prejudica a circulação do mesmo. Não por um entendimento próprio, individual, mas por um didatismo inexistente que também não abarca um grande público, desencaixando a obra de suas possibilidades.

“Setenta” não é um desenho catastrófico de discurso político, muito menos estético, mas parece ter surgido de uma confusão temporal estética de época, sofrendo um rebote momentâneo que não se recupera nem nos sete anos que nos separa de sua produção à data desta crítica. Mas não deve ser deslegitimado enquanto manifesto histórico-cinematográfico que denuncia os horrores da ditadura militar brasileira, durante a década de 70 e o terrorismo contra o povo e a nação que a mesma disseminou. E serve primordialmente para nos lembrar que os diálogos contemporâneos com o passado farsante brasileiro, explicita a natimorta democracia brasileira. Longe de ideologias, a necessidade da sociedade brasileira segue sendo contornada pelo subdesenvolvimento.

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