Seberg contra Todos

Urgências do Passado

Por Jorge Cruz

Seberg contra Todos”, exibido fora da competição do Festival de Veneza 2019, tem o poder de atrair espectadores com diversos tipos de interesses, porém não consegue entregar um material de destaque para nenhum deles. Para os fãs da nouvelle vague, atraídos pelos primeiros segundos do trailer, é melhor tirar correndo o cavalo da chuva torrencial de boas propostas desperdiçadas pelo roteiro de Joe Shrapnel e Anna Waterhous, inspirado na biografia da atriz Jean Seberg. O diretor Benedict Andrews não consegue aproveitar suas experiências pretéritas, de teatro filmado, com as adaptações dos grandes clássicos de Tennessee Williams, “Um Bonde Chamado Desejo” e “Gata em Teto de Zinco Quente”. Servindo a um texto que se pauta na indecisão narrativa e representativa, seu trabalho consegue não se destacar negativamente.

A primeira sequência do filme, mostrando uma mulher pegando fogo, é a referência para o primeiro grande trabalho da protagonista no cinema, “Joana D’arc“, versão da famosa história, que Otto Preminger lançou em 1957. Seu auge seria três anos depois, quando ela seria a eterna Patricia de “Acossado“, de Jean-Luc Godard. Não é a primeira vez, contudo, que a dupla Shrapnel e Waterhous entrega um roteiro superficial sobre uma figura tão interessante. Em 2016, “Raça“, cinebiografia do atleta Jesse Owens, foi recebido com as mesmas ressalvas pela crítica, passando despercebida de igual maneira.

Aliás, os últimos meses foram marcados por obras de pouca reverberação na carreira de Kirsten Stewart. Depois de “As Panteras” e “Ameaça Profunda“, é difícil acreditar que “Seberg contra Todos” terá boa receptividade. Seu trabalho como Jean é o suficiente para que ela domine as ações. A questão é que o longa-metragem se assume como thriller político de vez apenas no terço final, acreditando ter criado uma ambientação favorável durante o percurso. O resultado é um empilhado de sequências descartáveis, com desenvolvimento de subtramas envolvendo os agentes do FBI responsáveis pelo monitoramento da protagonista, que vive um romance com o ativista Hakim Jamal (Anthony Mackie), primo de Malcolm X, quando passa uma temporada nos Estados Unidos. Um dos desperdícios é a contribuição da diretora de fotografia Rachel Morrison, indicada ao Oscar em 2018 por “Mudbound: Lágrimas sobre o Mississippi” (sempre lembrando ter sido a primeira na história a conseguir isso) e que também deveria ter sido no ano seguinte por “Pantera Negra“. Seu trabalho é excepcional, como sempre, mas não é valorizado pela própria produção, desinteressada em usar elementos e potencialidades dos filmes de época a seu favor.

Há uma tentativa louvável de adaptar a narrativa aos novos tempos, colocando uma perspectiva não apenas política, mas de raça e gênero na produção. Jean Seberg parece se identificar com os preceitos da Segunda Onda Feminista e o roteiro coloca sua visão sobre interseccionalidade de forma genuína. Todavia, em vários momentos não há discurso por parte da biografada, que há todo o momento têm questionadas suas intenções ao se unir ao movimento negro e às lutas pelos direitos sociais nos Estados Unidos da década de 1960. Em uma flagrante licença poética, fica a impressão de que os realizadores não quiseram “colocar palavras na boca” da personagem principal por não ter como saber seus verdadeiros posicionamentos – vale dizer que Seberg faleceu em 1979, aos 40 anos, por overdose de entorpecentes. Porém, faz isso com todas as outras pessoas que transitam pela história, deixando esse viés tão intrigante da produção incompleto.

Todas as vezes em que esses questionamentos retornam, “Seberg contra Todos” ganha força, principalmente quando Jamal mostra as diferenças de alcance de posicionamento de um dos mais notórios ativistas em oposição a uma estrela de cinema. No grande momento de força do longa-metragem, o racismo escancarado da representante da companhia aérea ao ver um negro se encaminhando para a primeira classe do avião, um caso típico de institucionalização, que mostra o quanto histórias como as propostas na obra seguem urgentes. É lamentável que sequências tão promissoras percam espaço para interações da ala ficcional da obra, tornando uma biografia tradicional no sentido de ser contada através de flahses. O que dizer de Linette, personagem de Margaret Qualley, que parece sempre a ponto de subir pelas paredes com seus olhares para o marido?

Até porque no desenvolvimento muitas dessas subtramas, tão desinteressantes por serem “mais do mesmo” são abandonadas, resgatadas apenas na parte final para fazer jus à opção pelo thriller. Ou seja, a vítima da Inquisição mostrada no plano inicial da obra não se materializa, a despeito dos excessivos questionamentos sobre as intenções da protagonista. “Seberg contra Todos” ainda promove um flashback exclusivamente para o epílogo, em uma cena que beira o surrealismo da maratona de David Lynch interrompida para a preparação dessa crítica. Um diálogo que transita entre o expositivo e os famigerados finais explicados que os youtubers lançam para manter o povão dentro da bolha do consumo superficial de cinema. Um filme que não sabe o potencial de drama biográfica, de fato, relevante, que tinha nas mãos e que chega ao fim certo de que não foi claro em sua proposta.

Trailer

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