As Panteras

Empoderamento Pop

Por Felipe Novoa

”As Panteras” é um revival dos dois filmes homônimos do começo dos anos 2000, que, por si só, já era uma releitura da série televisiva que foi ao ar na década de 70. Só isso já é uma promessa de um entretenimento popular e voltado tanto para quem já conhece quanto quem não conhece as obras anteriores.

O plot segue uma linha previsível de dispositivo perigoso que nas mãos erradas pode ser usado para o mal e apenas as Panteras podem salvar o mundo desse desastre em potencial. No caso é um tipo de gerador portátil de energia que pode ser usado como mini emissor de pulso eletromagnético que causa derrames. O filme anda num passo vigoroso mas que não chega a te deixar perdido mesmo com o estilo entrecortado de um videoclipe; isso ajuda a comunicar esse ar jovial e moderninho que o filme adota. As Panteras são jovens, belas, super capacitadas e mortais, e a direção quer que você saiba disso.

A diretora, atriz, produtora e redatora Elizabeth Banks faz malabarismo com todas essas obrigações e surpreendentemente não deixa nada cair apesar de não vermos grandes surpresas, truques ou reviravoltas. A história é consegue ser simples o suficiente pra qualquer um entender sem se entediar e divertida nos momentos apropriados mesmo com pequenas falhas no roteiro que deixam o espectador um pouco decepcionado.

O espaço da mulher nos filmes de ação é mínimo e normalmente associado a princesas em apuros ou objetos sexuais. “As Panteras” consegue mostrar que um filme com foco no protagonismo feminino pode ser tão interessante quanto qualquer outra superprodução com brucutus explodindo o oriente médio, leste europeu, China ou qualquer outro lugar que o Stallone considere inimigo dos EUA. É notável ver que dentre as três protagonistas temos duas mulheres não brancas e a outra é abertamente homossexual (inclusive em uma piadinha no filme), isso mostra que minorias podem ganhar espaço de protagonismo em produções milionárias que ninguém vai morrer, talvez haja alguma comoção em fóruns online mais conservadores que reclamam quando não tem sua cota diária de homens héteros brancos nas telas mas esses reclamões são irrelevantes. Vivemos numa nova era de abertura de espaços antes lacrados como o clube do Bolinha e ver essa democratização é refrescante.

A piada do Ben Affleck como Batman é ótima.

Algo que preciso tirar do meu peito é minha aversão pelo crescente abuso da Sony como produtora para inserir seus produtos nos filmes. Desde o primeiro 007 com Daniel Craig até o “Millennium: A Garota na Teia de Aranha” esse tipo de intromissão nem um pouco sutil tem atrapalhado o fluxo dos filmes constantemente. Pessoalmente não vejo algum aparelho da Sony nas ruas a anos e ver praticamente todos os eletrônicos nos filmes da mesma marca acaba atravessando o limite da realidade, mesmo se falando de um filme onde uma programadora americana se transforma numa espiã internacional com a moça de Crepúsculo. Se as Panteras usam apenas equipamento top de linha por qual motivo elas usariam smartphones da Sony? Product placement é um erro quando mal feito, e tirar o foco da audiência do conteúdo para tentar te vender um produto que ninguém quer é um erro maior ainda.

Quanto ao elenco ainda não sei se Kristen Stewart é pouco apta para a sua profissão ou tem o azar de pegar diversos diálogos desconfortáveis demais de serem assistidos mas o fato é que em pouquíssimas cenas ela consegue se exprimir de forma natural, problema esse que suas contracenantes Naomi Scott e Ella Balinska não sofrem. Stewart tenta ser um alívio cômico por conta de suas esquisitices enquanto Scott tenta o mesmo mas por suas reações  O restante do elenco se sai bem mas sofrem das mesmas mazelas de diálogos por vezes estranhos ou despropositados. O rapaz Noah Centineo consegue ser um personagem B simpático, sua inserção no plot é forçada como par romântico de Balinska mas isso é apenas um detalhe tosco que não tem grandes importância. É evidente que depois de alguns hits para a Netflix e ele é a aposta para a nova geração de jovens atores simpáticos e altos vindo preencher o vazio que o Andrew Garfield deixou.

Comparando com dois filmes anteriores temos aqui em ”As Panteras” uma narrativa mais pé no chão, o que acaba se tornando uma falha. Os filmes de 2000 e 2003 eram famosos por mostrar o filme divertido que Missão Impossível poderia ser se ele jogasse toda a seriedade pro alto e abraçasse a paródia impossivelmente enérgica dos filmes de espião que realmente é, infelizmente a versão de 2019 é muito realista para ser como os filmes originais e muito engraçadinha para ser um Missão Impossível feminino.

 

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