Ameaça Profunda

Olhar para Frente

Por Jorge Cruz

Ameaça Profunda” deverá ser uma das obras mais prejudicadas pela compra da 20th Century Fox pela Walt Disney Company. Filmado no ano de 2017, o filme dirigido por William Eubank teve seu lançamento adiado e acabou chegando aos cinemas com a ingrata missão de abrir o calendário de 2020 sem que tivesse chance de participar da temporada de premiações, o foco da cinefilia até meados de fevereiro. A produção, orçada em oitenta milhões de dólares, não somente merecia uma campanha de estreia mais digna, como é um dos melhores filmes de ação dos últimos meses.

O longa-metragem conta a história de um grupo de pesquisadores que, no ano de 2050, precisam montar uma missão de auto-salvamento assim que seu laboratório subaquático sofre abalo estrutural por conta de um terremoto. Em um primeiro momento, quando a trama se apresenta, fica a sensação de que essa trajetória de resgate quase impossível (a partir de uma construção ficcional que envolve alta tecnologia) envolverá sacrifícios carregados de sentimentalismos, tal como “Armageddon” (1988) e outros exemplares do gênero. Todavia, o filme rompe com toda essa pasmaceira hollywoodiana, ao criar um arco narrativo que abdica dos expedientes desgastados de obras dessa natureza.

Esqueça dramas familiares, lágrimas de crocodilo e flashbacks óbvios como muletas narrativas. “Ameaça Profunda” tem tanta certeza de sua força que nos insere na claustrofobia de imediato e segue assim sem concessões. A cena inicial nos apresenta Norah (Kristen Stewart). Ela começa a escovar os dentes e vê uma assustadora aranha dentro da pia. Assim que ela ajuda o animal a escalar, atingindo este uma superfície que servirá de paralelo narrativo de todo o filme, ela escuta as explosões que nos jogam direto na crise. O início solitário da protagonista será rompido com a adição de um grupo de sobreviventes. Eles deverão se organizar de maneira que o objetivo de chegar mais perto de um local seguro seja alcançado sem que as provisões de oxigênio os deixem na mão.

O roteiro da dupla Brian Duffield e Adam Cozad (de poucos trabalhos prévios) deixa o espectador sem nenhuma informação a não ser aquelas percebidas pelas personagens. Essa cumplicidade criada ganha alguns (poucos) elementos sentimentais, com informações sobre o passado, sem que isso tome muito tempo. Uma incursão mais naturalista, fornecendo ao público apenas o suficiente para que a personalidade de determinada pessoa fique mais clara.

O visual de “Ameaça Profunda” é outro aspecto positivo. O design de produção consegue criar a atmosfera de horror precisa. As roupas das personagens as deixam próximas de astronautas. Todavia, o ambiente subaquático é ainda mais assustador, uma vez que a água turva limita nossa visão e o torna mais imprevisível. Sem querer comparar com o clássico “O Segredo do Abismo” (1989) ou até mesmo com a franquia “Alien“. Porém, o longa-metragem é um dos que chega mais perto do envolvimento narrativo aliado a uma contemplatividade visual digna das criações de James Cameron. Não há exagero estético, nem um terror mal engendrado, expedientes comuns às obras correlatas. Além disso, a tentativa de criar um debate acerca da condição do monstro-antagonista é bem mais eficiente do que a metáfora familiar sentimentaloide que tomou conta de Hollywood nos últimos anos.

Nesse ponto, o longa-metragem dialoga frontalmente com uma obra que chega aos cinemas brasileiros no mesmo dia, Kursk: A Última Missão“. Naquela crítica apontamos justamente essa opção por uma tentativa de emocionar a partir de uma ligação parental. De forma oposta, “Ameaça Profunda” rompe com essa insistente forma de amarrar a trama e, brincando com um dos argumentos do texto anterior, parece – de fato – estar bem mais perto de 2050 do que o filme produzidor por Luc Besson. Ou seja, aquele filme francês é bem mais norte-americano do que este aqui, totalmente produzido nos Estados Unidos.

A maneira reativa como o vilão do filme se apresenta torna ainda mais interessante o que está se contando no longa-metragem. Dentro da invasão de espaço involuntária daqueles pesquisadores, o entendimento de reapropriamento por parte dos monstros é plenamente justificável e a cena inicial nos mostrará que Norah tem consciência disso. No terceiro ato, quando a protagonista se vê novamente sozinha, não há como se lembrar das palavras do Capitão interpretado por Vincent Cassel, que fala para ela somente olhar para frente. É isso que o filme faz a todo instante, deixando que o espectador busque suas referências dentro da própria obra. Há espaço para um bem encaixado monólogo reflexivo de Kirsten Stewart, quando o filme se encaminha para o fim. Uma maneira de deixar o público respirar junto com a protagonista antes do clímax que – se não é arrebatador – conclui em grande estilo essa excelente obra.

Quem se acostumou aos artifícios narrativos, às tramas que omitem informações do espectador para criar uma falsa surpresa e aos gatilhos emocionais, torcerá o nariz para “Ameaça Profunda“. Talvez de maneira inconsciente queira se manter na zona de conforto da ação esquecível e genérica. Já aqueles que apostarão em algo fora do circuito as premiações e darão uma chance à obra encontrarão uma excepcional história sobre como a Natureza, no final das contas, toma de volta o que os humanos acreditam ter sob controle. Moralmente ainda verão um exemplo de persistência, mesmo diante de decisões que gerem sacrifícios irremediáveis.

 

 

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