Ressaca

A banalização da cultura

Por Vitor Velloso

Durante o Festival do Rio 2019

A crise política nacional atinge cada setor da economia e acaba contaminando ideologicamente diversas camadas sociais, além de buscar sufocar ao máximo aqueles que se opõe ao Estado com suas manifestações artísticas. O infame medo que os governantes possuem dos artistas vem da capacidade de articulação de um grupo em prol de mensagens diretas ao povo de maneira anti burocrática.

Com esse cenário se instalando ao longo dos anos, hoje é possível ver o massacre cultural na Ancine, a Secretaria de Cultura é movida para o Ministério do Turismo (em clara proposição de venda da cultura nacional) e anteriormente, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi asfixiado, salários suspensos, corte de metade das verbas etc. “Ressaca” de Vincent Rimbaux e Patrizia Landi, busca filmar a vida das pessoas que compõem o Theatro, que dedicaram suas vidas ao mesmo e são obrigadas a buscarem meios de sobrevivência em meio a crise.

Os diretores se empenham em contar as histórias individuais e coletivas de cada um, seccionando parte do tempo da montagem para os depoimentos, a atitude é reveladora das próprias intenções da obra, que não quer falar da crise da cultura como um problema midiático ou ideológico, mas humano acima de tudo, pois o rebote financeiro na vida dos trabalhadores ali presentes é violentíssimo. Ainda que haja material que mostre as manifestações, as lutas pela sobrevivência do Theatro, o foco de “Ressaca” é manter essa pluralidade no projeto, abranger uma gama de assuntos e trabalhar eles a partir dos fatos e das imagens. Assim, vemos a preparação para algumas apresentações, a dedicação vigorosa de todos para que a manutenção da Instituição seja constante e mostrando que diferentemente do que um núcleo possa vir argumentar, não há vagabundos ali.

Algumas belas imagens são contempladas na sessão de “Ressaca”, alguns momentos que ficarão com os espectadores ao longo dos dias após a exibição podem ser vistos no trailer do longa. E essa esteticidade toda, vem de uma fotografia que é hábil em concretizar uma linguagem que consolida uma teatralidade na obra, em um diálogo com a temática sendo abordada. Mas não força a inserção destes momentos para atrair o público com uma plasticidade canhestra, pois consegue costurar bem seus recortes específicos, saltando de uma construção política nas ruas, com discursos, confrontos e resistência com esses planos líricos.

A escolha do preto e branco para “Ressaca” traz uma dualidade que dialoga diretamente com a bipolarização que a política nacional vive. E o jogo de cinzas evoca uma questão histórica quase que em denúncia aquilo que vulgariza um patrimônio cultural. E para além de uma dramatização intensa, consegue captar, por vezes, contrastes bastante ricos de determinados planos.

Como grande parte dos documentários que estavam na competição no Festival do Rio, a força política e a importância para o momento do país, realçam a necessidade de obras como essas no mercado, mas acima de tudo, com inclusão popular. De que adianta exibir vários filmes que reflete sobre uma problemática social como “Fé e Fúria”, uma ocupação de espaço branco como “Favela é Moda”, um enfrentamento racial direto como “M8”, se a maior parte do público ao qual a obra é “direcionada” não consegue assistir ao projeto, pois o ingresso é quinze reais e as sessões estão espalhadas entre Zona Sul e Centro. A dita “resistência” cultural que é proclamada a cada nova exibição, possui cor e lugar. E aquilo que “Ressaca” expõe, serve para o Festival, que emprega centenas de pessoas, mas não consegue a inclusão necessária. O Theatro Municipal sofre do mesmo problema inclusive.

Infelizmente “Ressaca” será assistido por um número menor de pessoas que deveria e ainda que seja lançado no circuito, ficará no eixo rico da cidade, sendo altamente debatido por Leblon e Ipanema, ao gosto de um vinho de três dígitos, enquanto se aprecia a voz de Chico Buarque. O Theatro Municipal é uma reivindicação da classe artística e do povo, aguardemos que o segundo possa ter acesso a obra, para tomar conhecimento de toda a luta que é feita em prol dele e por quem ali persiste, não apenas “resiste”, pois a banalização da palavra afetou o significado da mesma, só se é possível cumprir com isto, quando se perde. 

 

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