Pyewacket – Entidade maligna

O preço da concessão

Por Vitor Velloso

Filmes de terror costumam incorporar os clichês e as soluções fáceis à dramaturgia, por procurar um gatilho rápido que possa otimizar a construção atmosférica da obra, pois uma das características do gênero, em padrão comercial, é a reação veloz às questões do roteiro.

“Pyewacket – Entidade Maligna” não é diferente, assume uma diretriz narrativa bastante simples e não perde tempo na construção da problemática inicial. Assumindo rapidamente qual a porta de entrada do conflito inicial, a partir do figurino e da direção de arte, poupando longas explicações metafísicas. Porém, tenta se destacar com uma progressão lenta a partir da metade do projeto, que além de não concretizar nenhuma arquitetação da história proposta, faz o longa perder ritmo. Além disso, essa postura imediatista, acaba atropelando o desenvolvimento dos personagens, portanto quando o gênero se instaura, dificilmente o espectador sentirá alguma tensão a partir daquelas personagens.

A montagem aparentemente entende tal problema, já que apela constantemente para uma proposição imagética daquela ameaça, pois a resolução dramática é resolvida em máscaras interpretativas pouco convincentes. Nicole Muñoz, que interpreta Leah, não consegue retirar sua personagem da unilateralidade, assim como Laurie Holden (Mrs. Reyes). Mas o texto em si é pouco expansivo em suas possibilidades, pois reduz cada uma à atitudes evasivas, reativas e, por vezes, díspares.

O diretor Adam MacDonald, não firma uma posição na questão central entre as protagonistas, nem problematiza a mesma, já que ambas possuem atitudes esdrúxulas e não há um firmamento dialético por parte da direção. Assim, fica ainda mais claro quando o cineasta busca saídas estéticas que centralize a atenção sobre ele. Em uma plano específico, acelera a câmera para que esta passe por um ônibus e alcance rapidamente Leah. São recursos que não acrescentam em nada dramaticamente e atmosfericamente o enredo.

Porém, o diretor consegue ser pragmático em alguns momentos, economizando esforço em diálogos ao simplesmente expor um objeto ou outro para que parte da construção seja feita de maneira lógica. Como mostrar os broches da protagonista , Leah, na mochila, logo de início para que o espectador capte sua ligação com o ocultismo etc.Mas seu fascínio em não ser expositivo leva à uma rima pouco convincente durante o segundo ato, onde diversos elementos não são mostrados ou mesmo explicados e que geram aparente tensão na personagem.

A tentativa de realizar uma tensão menos direta com o título do filme “Pyewacket – Entidade Maligna” o demônio a ser invocado, acaba atrasando bruscamente a progressão do horror, gerando expectativa no público, mas quando este é “agraciado” com a presença da ameaça, sente-se frustrado pela caracterização banal e corriqueira que é projetada.

Inclinando-se à ciclo de enclausuramento da narrativa, buscando uma claustrofobia dramática, o excesso de repetições em um mesmo cenário torna o exercício de gênero mais cansativo que aparenta, dividindo em dois pólos antagônicos o ritmo da trama, pré e pós-ritual. Curiosamente o segundo é o menos interessante, já que a motivação é tão infantil quanto o resultado. E a solução ser de uma falta de imaginação tremenda, com um elemento que apresentado na primeira meia hora e aparenta ser mais um escape que factualmente uma entranha da história.

Contudo, ao alcançar seu terceiro ato, agiliza o suficiente para tirar o espectador do sono e reacende uma esperança de visceralidade de sua construção, mas torna a cair em armadilhas e do gênero e possui um desfecho de arco tão solto, para não dizer preguiçoso, que acaba comprometendo a experiência como um todo, adentrando, novamente, um longa de terror no limbo de mediocridade e indiferença.

“Pyewacket – Entidade Maligna” não é uma bomba atômica, pois consegue conciliar bem esse pragmatismo rítmico em determinadas situações, mas acaba sendo dissonante na própria conjuntura que planeja, se projetando ora para referências do “slow burn”, como “Hereditário” e a “A Bruxa”, ora para um apelo comercial pouco versátil, desenhando-se um projeto mais prosaico que inventivo, formalmente e industrialmente, que não sabe por onde pisar em veias comerciais. 

 

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