Por Fabricio Duque

 

Todo burburinho elogioso sobre o filme “A Bruxa”, do praticamente estreante na direção de um longa-metragem (e sempre optando pelo “dark side of the moon” em “Untitled Nosferatu Remake”) atesta a mais pura verdade. Precisamos esclarecer que não é um filme de terror, apenas conserva sutilezas do gênero horror, visto que a narrativa (à moda de Bela Tarr – e seu “O Cavalo de Turim”) não procura os gatilhos comuns característicos e inerentes dos sustos fáceis, óbvios e palatáveis. Pelo contrário, cria uma atmosfera psicológica com estrutura cinematográfica de Michael Haneke (mesclando “Caché” com “A Fita Branca”). O roteiro é representativo por construir a metáfora do amadurecimento de uma jovem (que “acorda” os demônios, tanto próprios, quanto de seus próximos) pela fábula realista de sombrios contos de fadas (“folktale”), mas que mais buscam “abrigo” no universo da “Chapeuzinho Vermelho” dos Irmãos Grimm. Aqui, bruxas e monstros animalescos simbolizam a transmutação da pureza e da inocência (divina, limitada, aceitada e pautada por medos enraizados – impossível não referenciarmos a “A Vila”, de M. Night Shyamalan) a do nascimento do pecado e do conflito entre desejo de instinto sexual e culpa católica. A família, expulsa da comunidade em que vivem, é apresentada à máxima de que “a maldade está nos olhos de quem vê” por causa da filha (a atriz Anya Taylor Joy) “despertar” a tentação proibida (a “mordida da maçã no Paraíso”) pela beleza e corpo perfeito. “A Bruxa”, que venceu o prêmio de Melhor Direção no Festival de Sundance, personifica intensidades, quereres e fugas em animais (tipos demoníacos como um bode) que conversam com eles (como um amigo imaginário), em loucuras co-dependentes, em radicalidades dos ensinamentos religiosos. Talvez seja exatamente por isso que o filme incomode. Não se dá respostas definitivas. E ainda é falado em inglês arcaico. Então vamos por parte. A sinopse nos conta sobre uma família que veio da Nova Inglaterra, na década de 1630. O casal William (Ralph Ineson) e Katherine (Kate Dickie) leva uma vida cristã com suas cinco crianças em uma comunidade extremamente religiosa, até serem expulsos do local por sua fé diferente daquela permitida pelas autoridades. O pai, a própria figura física de Jesus Cristo. A mãe, uma Maria “possuída” com filhos que somem e aparecem também “possuídos”. Será necessário o exorcismo? Ou apenas o ateísmo individualista que se instaura? A família passa a morar num local isolado, à beira do bosque-floresta, sofrendo com a escassez de comida. Um dia, o bebê recém-nascido desaparece. Teria sido devorado por um lobo? Sequestrado por uma bruxa? Enquanto buscam respostas à pergunta, cada membro da família enfrenta seus medos mais secretos, mais medrosos, mais escondidos e mais condenáveis. É um filme que desenvolve complexas camadas psiquiátricas (clinicamente patológicas) pela sutileza-simplicidade da narrativa clássica, com trilha sonora com elementos a la Lars von Trier (e seu “Anti-Cristo”), e que por mais que referencie cinematografias, condensa-se em um estilo único, seguro, amarrado, que prende a atenção do espectador pelo conteúdo filosofia-história do que pelos artifícios de manipulação. Concluindo, um filme altamente recomendado que foi chegando de fininho e agora conquistou completamente o público. Tudo pelo boca-a-boca e pela intrínseca maestria-qualidade da própria obra.

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