Piedade

Qual o valor real de um homem?

Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Rio 2019

“Piedade Senhor por essa gente careta e covarde” é um trecho de uma das músicas do poeta maldito e carioca Cazuza e pode, ou melhor, deve servir de início deste texto a fim de direcionar o espectador à ambientação proposta e requerida do novo filme “Piedade” do pernambucano Claudio Assis, autor que, com Hilton Lacerda, seu parceiro roteirista, busca potencializar cheiros e sensações, entre saudades desestruturadas e sensações de mofo etéreo.

O público precisa ser cúmplice e compactuar com seus contos manifestos de reações temperamentais, impulsivas, radicais, passionais e  propositalmente ingênuas. Mas ao impor elementos viscerais de “mundo cão”. “Piedade” constrói uma utopia didática e pululada de arquétipos amadores-inocentes, quase de intensidade infantil, tornando suas personagens caricaturas condicionadas pelo martelo incessante do senso comum. Mesma luta, mesma questão. A velha e filosófica briga da simplicidade da existência contra a vida real que descortina esperanças e sonhos.

Só que “Piedade” enxerga outro desdobramento narrativo: o de se desenvolver por soltos instantes à moda de uma novela que insere a própria questão sócio-existencialista como uma vazia viagem de barco à deriva em um mar sem porto, visto que não conseguimos encontrar verdades em seus argumentos pululados de gratuidades. É a ingenuidade da apelação. De se achar que se inventa a roda explorando temas mais sexuais ao escalar atores globais, bonitos e em voga, para desconstruir seus papéis, de heteros natos em seres fluidos, não binários, instintivos, primitivos, luxuriados e na ação do querer de “dar o cu” (sim , uma das características essenciais do cinema de Claudio Assis é a presença do linguajar chulo e popularmente não adestrado pela “aristocracia”).

O longa-metragem busca imergir o espectador no submundo mais obscurecido e na “merda” de uma família que vive na “merda” de uma vida de “merda”. Sim, é propositadamente fisiológico (com um que atmosférico do escritor Charles Bukowski), que arregaça as entranhas ao desnudar segredos e não deixar pedra sobre pedra com o intuito de encontrara verdade sentimento-emocional mais pura que um ser humano pode mergulhar.

“Piedade” já se inicia na ação, estilizando naturalmente a mise-en-scène dos bastidores orgânicos de um cinema pornô e seu cheiro impregnado de sexo (há quem referencie o filme filipino “O Massagista” (2005), de Brillante Mendoza, com toques pontuais de Pedro Almodóvar). É também mais uma crítica sobre o caos de se viver no Recife e ter seu mar impróprio para banho por causa dos ataques de tubarões. Um medo ininterrupto que impede o nadar e o surfar. “Sexo é cheiroso”, diz-se.

É também um filme de atores, que, livres, improvisam suas cenas com suas vivências e expertises (por exemplo, o banho de Fernanda Montenegro). O que recebemos aqui é uma obra de instantes cotidianos de uma alegoria social (“espécies em mutação”) e seus arquétipos ingênuos, quase infantilizados, de uma sociedade sem cura e sem futuro. Uma metáfora que se descortina por um estudo de caso pessoal e intimista de uma família versus uma empresa Petrolífera (“a velha lei da oferta e da demanda”). Um discurso utópico que busca tentar mudar o mundo pela força do agir. Estranha-se que o roteiro seja de Hilton Lacerda (que nos encantou e arrebatou com “Tatuagem”) e soe também inocentemente perdido. Sem rumo e direção. Há quem diga que “a forma de mexer o brigadeiro faz toda a diferença”. Sim, exatamente isso. Talvez “Piedade” tenha errado a dosagem quando objetivou abordar o menos com um mais exagerado demais.

Tudo é encenado, preso aos diálogos, assim, cada fala parece que ainda se encontra no ensaio pela percepção explícita de um engessado anti-naturalismo didático (forçando a espontaneidade pela ideia barroca de traduzir literalmente a vida como ela é), entre ressarcimento, realocação, terras por direito e/ou a “saudade que avisa que está na hora de mudar de vida”.

Confronta-se revolucionários temperamentais com pragmáticos adormecidos. Um underground que apela mais uma vez no roteiro: irmão “roubado” na maternidade e separado da família de sangue. Sim, caro leitor-espectador, este é um filme que não “aterrisa”, digamos até que seja um filme “brainstorming”, que procura inserir nos detalhes subterfúgios-interferências, como o cartaz no cinema de “A Filha do Padre” (1975), de Tony Vieira, um faroeste nacional em que um padre vira o herói da resistência de uma cidade frente à um bandido inescrupuloso.

“Piedade” perde-se em sua própria utopia. Gratuita, vazia, cru, direta demais e apelativa quando seus personagens gays só estão ali para alimentar fetiches, curiosidades e desejos projetados do público gay. No final da sessão alguém disse que este era o filme da cena de sexo de Cauã Reymond (ator em desconstrução a la Marlon Brando) e Matheus Nachtergaele. E/ou é o filme da Fernanda Montenegro, querendo a todo custo recriar o inferno na terra de “nascidos na grosseria” e “entender” o “frango” do “valor real de um homem” (“Promiscuidade ou por medo?” pergunta-se embalado com a música de Jorge Du Peixe, da Nação Zumbi). O longa-metragem sugere simbolizar “cangaceiros do mar” por sonhos intensos e projetados (de um futuro que ainda existe no passado) de uma “Piedade que parece inofensiva”. Sim, um filme que não tem “piedade de nós”.

 

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