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Paris, 13º Distrito

Paris nos pertence?

Por Pedro Mesquita

Festival de Cannes 2021

Paris, 13º Distrito

Muito presente na história das artes é o mito da cidade de Paris como um ambiente hostil. Pode-se ir bastante longe para demonstrá-lo: Eugène de Rastignac, um dos mais conhecidos personagens da literatura francesa, dirige-se à própria cidade, ao final de O Pai Goriot (Honoré de Balzac, 1835), dizendo-lhe as seguintes palavras: “agora é entre nós dois!”. A frase ilustra muito bem o fato de que viver em Paris é, sobretudo, uma luta — travada entre o homem e a própria cidade, como expressa Rastignac — pela sobrevivência.

Quase 200 anos depois, encontramos um sentimento parecido em “Paris, 13º Distrito”. A cidade continua hostil, embora ela o seja de maneiras diferentes — os tempos, afinal, são outros —, e os dramas do homem continuam os mesmos: a busca por melhores condições de vida e a busca pelo amor.

As primeiras imagens do filme chamam a atenção do espectador justamente pelo seu aspecto ao mesmo tempo familiar e estranho. Iniciamos com tomadas aéreas da cidade de Paris, filmadas em preto-e-branco — o que imediatamente nos leva de volta sobretudo aos filmes da nouvelle vague que se ambientam na capital francesa, como “Acossado” (Jean-Luc Godard, 1960), “Os Incompreendidos” (François Truffaut, 1959) ou “Paris nos Pertence” (Jacques Rivette, 1961). No entanto, a Paris de Jacques Audiard é bastante diferente daquela filmada há mais ou menos 60 anos: ele filma as ruas vazias, os indivíduos isolados em seus apartamentos. Inexiste aquela agitação dos boulevards parisienses que Godard capturou, aquela sensação de que um encontro fortuito nas ruas pode mudar o rumo da narrativa a qualquer momento. Não à toa um dos modos de socialização predominantes no filme é o uso de aplicativos de relacionamento, como o que uma das personagens utiliza para encontrar parceiros sexuais.

O trabalho das personagens também é filmado com pouquíssima exaltação: Emilie (Lucie Zhang) é uma jovem que recorre ao telemarketing como fonte de renda (e que realiza o seu trabalho sem o menor ânimo); Camille (Makita Samba), seu colega de apartamento, é um professor de literatura que se vê forçado a trocar de profissão — tornando-se corretor imobiliário — devido às más condições de trabalho para os profissionais de sua área; Nora (Noémie Merlant) é uma corretora imobiliária (de quem Camille se torna colega de trabalho) que retorna à profissão depois de desistir do curso de direito. Se alguns dos filmes citados acima abstraíam ou minimizavam as questões financeiras das vidas das personagens, o realismo social de “Paris, 13º Distrito” as leva quase ao primeiro plano do filme.

Frente às frustrações profissionais que permeiam a narrativa, as personagens encontrarão (ou tentarão encontrar) no amor a redenção das suas existências. Inicialmente, o filme se atém à relação entre Emilie e Camille, dois colegas de apartamento que eventualmente se tornam parceiros sexuais. No entanto, à medida que o relacionamento se desgasta e Camille resolve se mudar, a narrativa do filme se abre à entrada de mais personagens: Camille passa a sair com Nora e, com isso, vemos um pouco da história de Nora; paralelamente, assistimos à crescente amizade de Nora com Louise — ou “Amber Sweet”, seu pseudônimo —, com quem ela também acabará construindo uma relação. O maior acerto de “Paris, 13º Distrito” é como esse constante rearranjo de casais é feito de maneira orgânica: por mais que certos acontecimentos do filme (quais personagens acabarão juntos, etc) consigam ser antevistos pelo espectador, a maneira como o filme os realiza é suficientemente dotada de surpresas — ponto para a mise en scène de Jacques Audiard — de modo que a previsibilidade das coisas nunca é um problema. 

Além disso, o filme realiza essa gradativa ampliação do seu universo com habilidade: não interessa aqui, afinal, contar a história de um ou outro indivíduo, mas de todo um grupo de pessoas habitantes da mesma região. Com isso, o filme assume uma certa superficialidade na descrição das suas relações — por vezes, por exemplo, alguma personagem confessa estar apaixonada por outra sem que o filme efetivamente nos mostre a tal paixão, o que de certa forma depõe contra a sua proposta realista —, mas isso se releva, em alguma medida, em favor do dinamismo com que Audiard conduz a história.

“Paris, 13º Distrito” talvez seja assumidamente derivativo demais — tanto a nível formal quanto dramatúrgico — para figurar entre as grandes obras de arte sobre a vida na capital francesa. No entanto, ele ainda alcança algo que muitos filmes de hoje não são capazes de fazer: a sua mise en scène nos transporta para um mundo vivo. Ao longo dos seus 106 minutos, operam-se profundas transformações nas vidas das personagens, mas o final não é aquele happy end que coloca um ponto final na história. Quando Emilie sai do seu apartamento para reencontrar Camille, ela não faz senão recomeçar o ciclo de incertezas que rege a sua vida e a de todas as outras personagens. A busca por amor e a busca por melhores condições de vida estão longe de acabar, pois os homens continuam os mesmos e Paris continua a mesma.

3 Nota do Crítico 5 1

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