Os Vencedores do 46º Festival Sesc Melhores Filmes

Cerimônia de premiação aconteceu online nesta quarta (19)

Por Fabricio Duque

O 46º Festival Sesc Melhores Filmes, o mais antigo do Brasil, foi exibido online pelo youtube do CineSesc nesta quarta-feira, 19 de agosto. A data, por sua vez, também comemora o Dia do Ator. Nada mais simbólico. A premiação, com votação do público (os cinéfilos) e da crítica (que incluiu o site Vertentes do Cinema), apenas corroborou os já esperados indicados. “Bacurau“, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, foi o grande vencedor da noite, com oito Troféus, criado pelo artista plástico Emanuel Araújo. Seguido de “A Vida Invisível“, de Karim Aïnouz.

A cerimônia dos filmes mais votados do último ano (2019), no melhor estio Oscar, teve até um “tapete vermelho” com prévios comentários da jornalista Flávia Guerra; o jornalista e crítica de cinema Thiago Stivaletti; e a realizadora Viviane Ferreira, segunda mulher negra brasileira a dirigir um filme de longa metragem, “Um Dia Com Jerusa” (a primeira foi Adélia Sampaio com “Amor Maldito”).

A apresentação da noite ficou à cargo da atriz carioca Karine Teles (que já venceu como Melhor Atriz por “Riscado”). “Estamos sempre com o Sesc, que está sendo um braço amigo”, diz e convida Danilo Santos de Miranda, Diretor Regional do Sesc São Paulo. “Desde 1974. Um festival para celebrar o cinema. Orgulho desta sala. Um papel fomentador do audiovisual brasileiro. Trazer o mundo numa sala. Um festival de resistência. Difundir e divulgar o cinema nacional, com peso e importância. Sempre em defesa da Cinemateca Brasileira – a maior cinemateca da América Latina. O CineSesc é um encontro, troca de impressão e de afeto. Aglomeração é nosso negócio! Agora é se reinventar”, disse o professor.

O filme escolhido para o encerramento (exibido durante a madrugada), na primeira exibição em streaming, única e exclusiva, às 21h, foi MEU NOME É BAGDÁ, de Caru Alves de Souza. O filme foi agraciado pelo júri na mostra Generation, dedicada a obras que retratam a juventude, do Festival Internacional de Cinema de Berlim. No final o Sr. Hak You Kim, Consul Geral da República da Coreia em São Paulo, agradeceu pelo prêmio a PARASITA. Quase 750 pessoas assistiram ao vivo a premiação.

Os filmes podem ser assistidos no site plataforma: sescsp.org.br/cinemaemcasa

OS PREMIADOS 46º FESTIVAL SESC MELHORES FILMES

 

MELHOR DOCUMENTÁRIO BRASILEIRO – PRÊMIO DO PÚBLICO

BIXA TRAVESTI, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman

Cláudia Priscilla. “Recebo o prêmio como um estímulo contra as medidas truculentas.”

Kiko Goifman: “Vamos seguir”.

Exibido no Festival de Cinema de Berlim 2018, “Bixa Travesty” é discurso articulado, humanizado, físico, orgânico, poético e direto, pela construção da performance. Ainda que seja um filme autossuficiente pela carga enérgica e rasgada do que é dito, a misè-en-scene ajuda a potencializar a experiência sensorial que sentimos ao adentrar neste universo artístico, empoderado, plural e não binário. É uma luta constante de normalizar a visão limitada dos outros, como a da própria mãe que ainda a chama de ele. Linn explica que ela é uma bicha por estar satisfeita com o corpo e travesti por montar o imaginário feminino. Ela é uma pessoa. Gênero feminino. Sua vida não foi fácil. Passou por sessões de quimioterapia por causa de um câncer no pênis; assistiu a amiga comer pizza do lixo; dividiu comida por três reais. Tudo exacerbou sua necessidade de urgência. De ser logo. De não mais se importar com a opinião do outro. Sim, a pressão é grande. E não há descanso, nunca, de se desligar do que se é. Até porque está explícito (“não parecem homens e não se vestem como homens”). LEIA A CRÍTICA COMPLETA AQUI! 

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Bixa Travesty

MELHOR DOCUMENTÁRIO BRASILEIRO – PRÊMIO DA CRÍTICA

ESTOU GUARDANDO PARA QUANDO O CARNAVAL CHEGAR, de Marcelo Gomes

Lembramos que o realizador do filme participou do seminário Na Real_Virtual e nos presenteou com uma aula sobre seu olhar e sua forma de fazer cinema. “Um filme emocionante e duro ao mesmo tempo”.

Um documentário que vai à cidade natal do cineasta, Toritama, no agreste de Pernambuco e descobre que as mudanças que o tempo e contemporaneidade impuseram sobre ela, aconteceram de maneira mais intensa que o esperado. Atualmente o local é conhecido como a “Capital do Jeans” e possui um sistema de produção em um modelo bastante único, mas comum no mercado de trabalho atual e em uma escala assombrosa. Muitos trabalham diretamente na produção destes jeans e são os próprios patrões, sem carteira assinada, logo, autônomos. Marcelo se deixa levar pela realização do filme e permite uma reflexão complexa das consequências deste modelo de negócio, seus ônus e bônus, mas sem nunca interferir diretamente no andamento do que está filmando, com exceção do fim, por um motivo específico que irei abordar mais à frente. Ele permite que os habitantes de Toritama se expressem e transmita de fato suas angústias e suas felicidades através da liberdade do realizador, que é capaz de registrar momentos pouco prováveis de cada um. Interessante ver como a parceria com Cao em 2014, rendeu um olhar bastante peculiar acerca da forma documental, que difere do cineasta mineiro, mas absorve determinados conceitos. LEIA A CRÍTICA COMPLETA AQUI

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Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar

MELHOR ATOR – PRÊMIO DA CRÍTICA

MARCO NANINI, por GRETA

Marco Nanini: “Enquanto o Governo está realizando um verdadeiro desmonte, o CineSesc vem com força. Obrigado!”

Talvez os cinéfilos brasileiros mais ferrenhos estranhem a correlação feita no título da presente crítica com o famoso seriado “Grey’s Anatomy” de Shonda Rhimes e o novo longa cearense “Greta” de Armando Praça, com Marco Nanini no elenco – o qual teve sua aclamada estreia internacional no Festival de Berlim no início deste ano, e que ora encerra a competição principal de longas íbero-americanos do 29º Cine Ceará com certo merecido favoritismo da casa… Todavia, para além do cenário de fundo nos bastidores de um hospital que ambos possuem em comum, existe um histórico coincidente do binômio representatividade e representação que não pode ser negligenciado. Enquanto a série pop de Shonda foi se preocupando ao longo de 16 anos em lidar com questões de gênero e de raça, o filme de Armando demorou 10 anos para ser concretizado e pôde acompanhar e assumir fortemente para si as mudanças e necessidades LGBTQIA+ como ponto nevrálgico de sua representação. E não só, pois existe outra questão afirmativa muito pouco abordada no cinema brasileiro que o longa “Greta” dá um passo à frente: o envelhecimento com dignidade e com respeito ao desejo e potência da idade. LEIA A CRÍTICA COMPLETA AQUI

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Greta

MELHOR ATRIZ – PRÊMIO DA CRÍTICA

GRACE PASSÔ, por TEMPORADA

Grace Passô: “Um engajamento profundo de uma equipe enorme”.

Assistir a um filme do típico mineiro André Novais Oliveira (de “Quintal”, “Ela Volta na Quinta”) é mergulhar em universo de tempo suspenso, acompanhado do material bruto do ser humano, que é “jogar conversa fora”. Seu mais recente trabalho, “Temporada”, integrante da mostra competitiva do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro deste ano, é um respiro. Uma contemplação da própria vida. Uma extensão da espontaneidade pelos encontros bate-papos com “tempo do café”. Chega a ser uma obra de ficção-científica, altamente realista, pela impossibilidade de se perceber a real encenação do ato presente, tudo emoldurado por uma singeleza de libertar a própria existência. “Temporada” constrói um equilíbrio entre a ficção distanciada e a realidade ilusória, até porque o que vemos não é documentário, ainda que isso desperte uma inconsciente percepção. É um filme de épocas, de estágios atuais, de aprendizagens, de aceitar novos recomeços. É uma metáfora fabular de linear uma trajetória: do nada ao tudo. Da sensação perdida à esperança do futuro. Que mesmo sem saber dirigir um carro e ou com o medo de escorpiões e altura, a coragem ganha forma e impulso a fim de indicar um norte, uma paisagem panorâmica, uma observação longínqua do alto sobre espaços e vidas próximas que se encontram na base. No chão. Fortalecidas em suas escolhas, silêncios e resiliências. LEIA A CRÍTICA COMPLETA AQUI

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MELHOR ATRIZ – PRÊMIO DO PÚBLICO

FERNANDA MONTENEGRO, por A VIDA INVISÍVEL

“A Vida Invisível”, baseado na obra ficcional literária “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” da recifense Martha Batalha, e exibido na competição da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2019, sai vitorioso com o prêmio Melhor Filme do Grande Júri. Mas que merecido, porque o longa-metragem corrobora a maestria de seu diretor Karim Aïnouz (de “Praia do Futuro”, “Céu de Suely”), que é a construção orgânica e suspensa de um tempo descompassado na realidade. Nós espectadores somos conduzidos a uma caseira epifania, soando íntimo e naturalmente disfuncional. É um filme de amor. De humano a humano. Um estudo de caso que reverbera uma crítica comportamental-social. Contra o machismo e a impossibilidade da mulher existir sozinha e autônoma da vontade dos outros. A fotografia granulada à nostalgia, para assim desenhar a sensação imersiva da intimidade. Busca-se a proximidade e a cumplicidade com quem assiste. LEIA A CRÍTICA COMPLETA AQUI

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MELHOR ATOR – PRÊMIO DO PÚBLICO

SILVERO PEREIRA, por BACURAU (Lunga)

“Bacurau” é uma experiência. De tempo e espaço. Nós espectadores remetemos à fábula política-social do escritor português José Saramago, em seu “Ensaio Sobre a Lucidez”, e somos convidados a participar de uma rotina única de inocência passada (ainda que a presença do celular seja não só de diversão, mas principalmente de artifício tecnológico de sobrevivência nesta “terra sem lei” e ou pela trilha sonora que conserva uma atemporalidade existencial) de uma comunidade interiorana e fictícia chamada “Bacurau” no Oeste de Pernambuco, alguns dias depois. LEIA A CRÍTICA COMPLETA AQUI

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MELHOR FOTOGRAFIA – PRÊMIO DA CRÍTICA

HÉLÈNE LOUVART, por A VIDA INVISÍVEL

Detalha-se aqui pistas-lembranças, de passado e presente. De épocas e geografias deslocadas. De uma irmã que “dá corda”. Que toca piano e “não consegue fazer os dedos pararem”. É também um filme sobre o desejo à flor da pele e histórias sexuais contadas (a “mangueira dura”). “A Vida Invisível” é sobre a família, suas memórias e seus casos. A condução quer tanto a liberdade da cena que permite a improvisação (que incomoda pela sistemática de se seguir os diálogos do roteiro e ou de inserir artifícios do “lança perfume na hora do ato sexual”, do “fazer por trás”, do laquê, e do ris quase infantil do pênis reto e explícito). A fotografia é um espetáculo à parte. É estilizada e uma estética a luz neon que cria outra imagem, como um ar de VHS para potencializar nossa experiência. “Ama tanto quanto o oceano que me rodeia”, diz-se e para o tempo. LEIA A CRÍTICA COMPLETA AQUI

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MELHOR FOTOGRAFIA – PRÊMIO DO PÚBLICO

PEDRO SOTERO, por BACURAU

“Bacurau”, iniciado com imagens do Espaço Sideral (porque lá em cima todos o seres  parecem iguais e calmos), que pelas palavras de Kléber disse que o melhor “protesto contra os acontecimentos atuais no Brasil é o próprio filme”, imprime um amadorismo caseiro proposital. É cinema urgente, direto e que permite improvisações, até porque a sensação despertada é mais importante que sua forma. É conceito crítico, metafórico e político sobre a padronização do poder (a lei do mais forte) e da necessidade de erradicar lugarejos em prol do progresso. LEIA A CRÍTICA COMPLETA AQUI

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MELHOR FILME, DIREÇÃO, ROTEIRO

BACURAU, de KLEBER MENDONÇA FILHO e JULIANO DORNELLES

Kleber: “Isso parece uma reunião do zoom”.

“Bacurau” também é o simbolismo de um peculiar pássaro “que só aparece à noite, porque é bravo”. Uma ave caprimulgiforme da família caprimulgidae, conhecido também como curiango, curiango-comum, ju-jau, carimbamba, amanhã-eu-vou (em Minas Gerais), ibijau, mede-léguas, acurana e a-ku-kú (nomes indígenas – Mato Grosso). O seu nome é onomatopaico e deriva de sua vocalização. Essa digressão caí como uma luva. Seus moradores, uma alusão aos indígenas, estão confortáveis e felizes onde moram, apesar dos descasos do prefeito do local que não resolve a questão da água. Assim como em “Aquarius”, aqui há também dois antagonismos: intimidação e revolta. De um lado, a falsa simpatia pressionada versus a necessidade de se revidar, em uma versão mais hardcore de Grace em “Dogville”. LEIA A CRÍTICA COMPLETA AQUI

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Bacurau

MELHOR FILME E DIREÇÃO ESTRANGEIRO – PRÊMIO PÚBLICO E CRÍTICA

PARASITA, de BONG JOON-HO

Exibido na mostra competitiva do Festival de Cannes 2019“Parasita”, do diretor de quarenta e nove anos de idade, Bong Joon-ho,  de “Okja” (que também foi exibido aqui, mas com a polêmica por causa de ser da Netflix), venceu a Palma de Ouro, sendo o primeiro filme sul-coreano a ganhar o prêmio máximo. O longa-metragem logo de início encantou e cativou por unanimidade seu público pelo simples fato conjugar um leve e espirituoso humor com o aprofundamento crítico social, traçando um estudo de caso sobre o comportamento do ser humano perante a comunidade em que vive e sente o engessamento de um sistema político que conduz todos à margem. À invisibilidade. À necessidade da sobrevivência a qualquer custo. Assim, o sentido de moralidade é ressignificado pela mitigação total da ideia maniqueísta, e a ética transformada em trambiques e a perspicácia do viver. “Parasita” não é um filme fácil para traçar linhas analíticas. Não pela dificuldade do tema, até porque a trama é direta e sem subterfúgios, outra maestria, que é a união do entretenimento popular com o cult existencialista. O que complica é ter que pisar em ovos para não contar nenhum detalhe da história e estragar a surpresa. LEIA A CRÍTICA COMPLETA AQUI

Os Vencedores do 46º Festival Sesc Melhores Filmes

Parasite

MELHOR ATRIZ ESTRANGEIRA – PRÊMIO PÚBLICO E CRÍTICA

LUPITA NYONG’O, por NÓS

No confronto texto x imagem, há sempre uma violenta refrega que deve ser sabiamente contornada pela verve do autor que a ampara, pois criar interdependência é de uma limitação fúnebre. Jordan Peele não é necessariamente o mestre dessa concepção que agrega os dois âmbitos do processo cinematográfico, longe disso, ele sempre deixa uma fresta para que uma das estâncias se sobressaia, permitindo que algum elemento atropele o outro. E por isso Peele, é do caral…. O brilhantismo de suas soluções estéticas e narrativas, é adicionar à equação um elemento a mais, a realidade, ou o espelho que a transmite, aliás, o conceito de real é bastante vago. Porém, acima de qualquer realidade, seja da clássica dramatização norte-americana (que ele tira sarro constantemente) ou da desconstrução narrativa com um didatismo sonífero (Nolan), a realidade negra. LEIA A CRÍTICA COMPLETA AQUI

MELHOR ATOR ESTRANGEIRO – PRÊMIO PÚBLICO E CRÍTICA

JOAQUIN PHOENIX, por CORINGA

Não há nada mais democrático na sociedade da capitalista do que uma greve de lixeiros. Ela afeta a dignidade de toda a população, que precisa conviver com ruas nojentas em qualquer área da cidade. É assim que “Coringa” obra aclamada no Festival de Veneza com o Leão de Ouro de melhor filme de 2019 inicia sua jornada. Tal qual Berlim, que em 2008 premiou “Tropa de Elite” com o Urso de Ouro, o júri não quis saber de fugir da raia dos críticos que apontavam uma dose de representação extremista na obra. O hoje revisitado filme de José Padilha sem dúvida consta em uma lista de produções que ilustram uma sociedade falida, servem de combustível para debates, mas nunca, em nenhuma hipótese, devem ser passíveis de censura. Porém, a preocupação com as fragilidades dessas representações existe – como se partisse do princípio de que há, na imensidão de gente que fará “Coringa” arrecadar centenas de milhões de dólares, protofascistas em potencial. O fato é que o roteiro de Todd Phillips Scott Silver para essa nova versão de um dos mais famosos vilões de Gotham City, ao tentar afastar supostas interpretações, emburrece a obra. LEIA A CRÍTICA COMPLETA AQUI

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