Os Tradutores

Todos os caminhos levam a Agatha Christie

Por Ciro Araujo

A máquina do mistério é para aqueles poucos aventureiros que sabem tecer o mais fino grau narrativo. Não que isso limite realmente o número daqueles que buscam manufaturar dos artifícios do gênero, afinal, “Os Tradutores” é um clássico exemplo do quanto Agatha Christie é influente para a linguagem. Não é de se duvidar, tem a checagem completa: reviravoltas, um elenco caricato, um mistério em seu miolo. Arquétipos tão típicos que chegam a fazer a pergunta… Existe finesse – palavrinha do francês, ideal para o filme – o suficiente para manter essa máquina cinematográfica rodando?

É muito engraçado assistir esses filmes e encontrar a constância de que, pelo menos dentro da cabeça seja lá do produtor, do roteirista ou do diretor, que é necessário personagens internacionais para existir algum carisma. Diretamente dos romances de Agatha, com certeza, o que explica a orgia cultural europeia com leves toques de interesse pelo “oriente”. Bem, apesar das motivações de trazerem diferentes nacionalidades seja um tanto artificial, a comunicação agradece bastante. São nove línguas proclamadas, recheadas de um suntuoso francês, o idioma do filme. Entre esteriótipos e gestos explícitos, “Os Tradutores” se admite à energia de comédia e de que brincar com os protagonistas faz total parte da delicadeza que é construir um mundo investigativo do naipe. “Entre Facas e Segredos”, do americano Rian Johnson é um exemplo fácil do qual soube se render, apresentou um Daniel Craig com sotaque sulista que se auto-caçoava. Talvez como metalinguagem aqui trazida, o próprio livro bestseller apresentado na narrativa reflete na própria estrutura do texto do longa-metragem. O diretor Régis Roinsard tem tato para selecionar carisma. Não por muito tempo, infelizmente.

Para isso, é um longa-metragem estilizado como uma montanha russa; personagens tão caricatos que são simplesmente bacanas de se assistirem, mas que logo caem no ritmo para planos de revelações. Afinal, o mistério tem que continuar, pelo menos é o que acaba virando seu roteiro. Um show de reviravoltas como (mais um) artifício para capturar público. É quase como se já soubessem que sua estrutura não fosse suficiente, então a solução foi colar rejuntes e inserir contextualização no meio da linha temporal. Um jeito nem um pouco sutil de explicitar um grande esquema, um grande roubo, que não faz jus aos grandes filmes americanos do gênero. O filme perde totalmente o comprometimento de si próprio, como se estivesse cansado da própria existência e arrastar para a cota objetiva de tempo fosse uma necessidade.

Esta crítica em si se rende aos próprios artifícios empregados em “Os Tradutores”, inclusive. Como analisar um filme cujo enredo particular não sai de sua caixinha de ferramentas? Se o subtexto nato do próprio depende de si, cai por terra automaticamente. Um trabalho obcecado nas principais atuações da literatura contemporânea, estrelando o ghost-writing, leis de copyright, indústria editorial, autoria e tudo por consequência ao capitalismo. A profundidade inexiste, mas sobra ainda um interesse que não é afetado pela falta de esforço para se moverem dentro da fluidez que um gênero desses investigativos necessita. A diversidade linguística que o filme provoca simplesmente não perfura através das primeiras camadas de diálogos tão industrialmente feitos. Régis Roinsard não parece ter interesse ou comprometimento de seu próprio filme, quando nem em seu momento climático a única coisa que se rende é à violência, a entrada de um ódio tão profundo ao tipicismo da obra que é além do subversivo: um pedido desesperado para que, como já escrito aqui, o suspense continue.

Um trabalho desses é como procurar dentro de cacos quebrados um diamante. Quem se aventura para realizar a máquina do mistério necessita paciência. Não é de hoje que são feitos filmes assim, de forma alguma. Esse aparato é mestrado por cineastas desde que se começaram a adaptar ou ao menos se inspirar nos primeiros romances. De nada adianta se por um momento o “amor à literatura” tão citado no longa e seus personagens regidos não saem do próprio corpus. Seu descomprometimento o torna como puramente um trabalho à serviço do gênero, sua forma se perde dentro do meio giratório e enquanto isso, seu tão interessante subtexto passa mais próximo do livro “2666”, a novela póstuma do chileno Roberto Bolaño. Seu primeiro capítulo (A parte dos críticos) com certeza possui muito mais personalidade…

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