Os Pequenos Vestígios

O pastiche de Fincher

Por Vitor Velloso

“Os Pequenos Vestígios” dirigido por John Lee Hancock é mais uma obra do cineasta que estará no pódio do esquecimento e figura nas premiações norte-americanas remetendo os piores momentos da indústria, provando que os conluios e articulações são de uma profícua relação econômica, apenas.

O longa é uma exploração do gênero de investigação e suspense policial, onde algumas figuras decadentes de Hollywood dividem espaço com Denzel WashingtonRami Malek e Jared Leto seguem como uma das piadas mais sem graça dos últimos anos, ambos atores seguem criando uma manutenção dos estereótipos que conseguem interpretar. As limitações são tantas, que a transa limitada entre David Fincher e um “True Detective” pouco funcional, formaliza um dos projetos mais bagunçados e desinteressantes do ano. Cada personagem é detestável, sem carisma e surge de um amontoado de clichês que apenas reforça a decadência da indústria em superar a própria fórmula. Hollywood precisa de um cinema estrangeiro que ultrapasse suas limitações intelectuais, para que possa roubar o projeto e replicar em solo ufanista.

Quando a equação entre as referências não fecha e a falta de consciência formal se faz presente, “Os Pequenos Vestígios” parece um desfecho intelectual precoce para uma ideia mal concebida. O barato não consegue ser funcional nem no eixo que une os três personagens em uma perseguição “fria”. Jared Leto provoca alguns bocejos por sempre interpretar o mais inócuo dos inexpressivos. Rami Malek se mantém na zona de conforto de sua obsessão. E até Denzel se entrega ao tacanho, materializando o clichê de sua idade para representar o mesmo personagem pela 15ª vez.

A obra está repleta de tempos mortos, cada plano parece ter o tempo errado, a montagem se apressa a fim de criar um dinamismo maior na narrativa, mas acaba perdendo o controle em cada cena. A fotografia quer criar impacto diante da articulação narrativa com o potencial do gênero e a relação dramática dos personagens com os acontecimentos, findando uma imitação mal concebida de um Fincher que não encontra o próprio espaço e sua direção. Passa a divagar diante do próprio esteticismo de quinta categoria e tenta uma fotogenia pragmática.

Está claro que John Lee Hancock não anima, com uma carreira de desastres constantes entre eles: “Estrada sem lei” (2019), “Fome de Poder” (2016) e “Um Sonho Possível” (2009). O diretor se limitou à um filme racista que chegou ao Oscar, um projeto de sonho neoliberal para fomentar o sonho da sociedade capitalista utópica e uma obra que investe na representação da violência em cima de um passado histórico fetichista. Ou seja, do que Hancock nos apresentou, até o momento, temos o melhor filme do diretor. Ao menos este não agride os olhos do espectador desavisado, talvez sua paciência. “Os Pequenos Vestígios” está à altura da nomeação em um prêmio de qualidade similar. O Globo de Ouro, na maioria das vezes, dá holofote aos piores do ano (a engrenagem funciona em mão dupla) e complementa os não homenageados, no Oscar. E Hancock parece ter algum conluio no laço dos reacionários do alto patamar dos tapetes vermelhos.

Caso o espectador decida se aventurar no universo criado pelo diretor, estará diante de proximidades com as obras de Tom Ford e seus fashion filmes de gênero. Ambos diretores disputam o rank dos piores realizadores renomados no suspense “Os Pequenos Vestígios” dialoga em diversos níveis com “Animais Noturnos” que carrega interpretações igualmente bagunçadas. Os cineastas dialogam em estilo e limitação. Quem gostar de alguma obra dos dois, pode investir tempo sem problema algum, aos contrários, recomendo distância.

A “premiação-termômetro” mostra sua utilidade mais uma vez e reforça que os diversos protótipos de Finchers que por aí se amontoam conseguem no máximo uns bocejos e umas risadas a partir dos “plot twists” mais previsíveis possíveis e um punhado de cenas escabrosas, como a da pá aqui. Rami Malek e Jared Leto são os avisos necessários para o espectador. Tal como o lugar não nomeado, os capitalistas nos perguntam “Vai comprar ou não vai comprar?”.

Trailer

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