Onde Quer que Você Esteja

Incongruências Fatais

Por Jorge Cruz

Assistir a uma obra cinematográfica não é um comportamento padronizado, não só entre os membros de um grupo, mas até mesmo em nossas múltiplas existências. É possível que “Onde Quer que Você Esteja” atinja com eficiência seu objetivo de sensibilização do espectador, eis que há uma construção de história aceitável defesas seus personagens exemplares do elenco. Porém, a experiência de assisti-lo em uma tela de cinema (modo tradicional, porém quase quase extinto), nos permite identificar aquilo que podemos chamar de elementos desconectores.

A dupla Bel Bechara e Sandro Serpa, de forma guerrilheira, assina inúmeras funções na produção. Eles produzem, dirigem, roteirizam, fotografam e montam a obra, uma parceira que já ocorreu no curta “Dalmar e Rosália” e nos documentários “Música Serve para Isso” e “Histórias de Marabaixo”, todos eles com fortes questões sociais abordadas. Na primeira ficção em longa-metragem eles universalizam o debate, tratando sobre o desaparecimento de pessoas – uma fenômeno social a qual todos os membros de um grupo estão sujeitos. Não apenas antecipam uma provável aproximação da plateia, como ampliam o leque de representações possíveis.

O prólogo da obra é irretocável. Em narrativa melodramática, a primeira história que nos é apresentada é de Lucas, um menino sumido há algumas semanas que completa sete anos de idade no dia da edição do programa de rádio que dá nome ao filme. Seus pais e sua avó leem uma carta e cantam parabéns ao menino para, logo depois, fazer uma festa de aniversário, como se o garoto estivesse presente. Ali duas construções psicológicas são fundamentais não apenas para a imersão na obra como para atestar a qualidade de roteiristas da dupla. Na primeira, Afonso (Rafael Maia), o pai de Lucas, desconstrói sua insensibilidade em uma cena logo após a saída do estúdio de rádio. Ele para com o carro no sinal e o rapaz vem limpar o pára-brisa do veículo. Por um momento ele toma a atitude mais comum nessa situação: tenta afastar aquele homem. Logo depois, alertado pela sua esposa, ele percebe o quanto estava eivado de desumanidade mesmo em um momento tão delicado quanto o sumiço do filho. Em todo esse tempo, a câmera nos deixa próximo dos rostos dessas pessoas. Na segunda passagem, já na festa de aniversário, a irmã do personagem serve como contraponto àquele clima de desorientação de uma família celebrando a vida de um ausente. Aqui, a câmera se torna quase tão pragmática quanto aquela que está em cena, se tornando um observador a média distância para permitir do espectador o julgamento que lhe convier, seja abraçando aquela família ou a condenando da mesma maneira que aquela interlocutora faz.

Algumas escolhas estéticas de “Onde Quer que Você Esteja”, ao mesmo tempo que entrelaçam uma série de histórias (mas não como um filme-mosaico nos moldes de Robert Altman e Paul Thomas Anderson), utilizam muito a solidão daquelas pessoas como ferramenta para construir certa piedade do espectador. Quase todos são introduzidos conversando ao telefone (sem mostrar o outro lado), discursando unilateralmente nos microfones da rádio ou até mesmo falando sozinhos. Nesse ponto, o grande destaque do filme é Débora Duboc, que vive Lucia, uma mulher à procura de seu marido. Uma personagem cheia de nuances, vivendo um turbilhão de emoções, principalmente com a amizade de Valdir (Leonardo Medeiros), que está em busca da esposa. Os atores repetem a parceria de “Cabra-Cega” (Toni Venturi, 2005) e valorizam o longa-metragem como excelentes trabalhos, seguido de perto por outros nomes do elenco. Só que Débora consegue entregar uma atuação um degrau acima.

No que se permite ser estilisticamente representativo, “Onde Quer que Você Esteja” se mostra propositivo de forma positiva. Uma vez introduzidos os personagens, ele muda o foco de seus enquadramentos, para deixar sempre objetos em primeiro plano, ao invés de pessoas. Como se as lembranças fossem mais valorizadas do que o que aqueles amigos e familiares vivem no momento presente. Com surpresa observamos que o filme avança para outras questões, como a dicotomia desaparecimento x fuga e a sensação de algumas pessoas de serem, no final das contas, as verdadeiras sofredoras. Na metade da projeção, a cena que parece ter sido o grande motivo da obra, com todos os personagens conversando na sala de espera do estúdio em uma espécie de terapia de grupo. Essa alimentação da tristeza dos outros para suprir a sua, quase como relação de dependência, é uma característica da sociedade moderna que extrapola esse ambiente de pessoas desaparecidas, mas encontra nele um dos seus exemplos mais incisivos.

Quando o longa-metragem parece ter atingido seu auge, ele perde todo esse sustentáculo bravamente criado. São inúmeros momentos de “Onde Quer que Você Esteja” que nos desconectam da ação e por mais de um motivo, denotando certas dificuldades enfrentadas pela equipe por trás das câmeras. Inconvenientes que se revelam quase irremediáveis, potencializados pela experiência de assistir no cinema. Podemos citar a cena em que Roberto (Samuel de Assis), à procura de sua esposa que supostamente o abandonou com seu bebê, é levado pelos amigos a um bar – na tentativa de “seguir a vida”. A construção do ambiente é constrangedoramente falsa. Como que para aproveitar o som direto, hermetizaram de maneira incipiente essa locação. O som, aliás, apresenta falha grave em outro momento. Quando Zelia (Sabrina Greve) recebe em sua casa o radialista Adroaldo Lopes (Dagoberto Feliz) e sua esposa, o microfone único traz uma grande diferença no áudio de casa personagem. Enquanto a fala de Zelia é limpa, a de Adroaldo é “grutural” (neologismo que parafraseia o som gutural), como se estivéssemos ouvindo alguém falar no telefone do banheiro.

Para mencionar fotografia e montagem, outros dois elementos desconectores são identificados no filme. O primeiro acontece em uma cena onde Lucia passa pela portaria de seu prédio para se dirigir à rádio. O público já foi informado pelo apresentador que o programa tem início às 6 da manhã e na interação entre personagens foi dito que é preciso chegar com antecedência. Eis que Lucia, ao sair de sua casa bem antes das 6, encontra um dia claro, como se já tivesse amanhecido há muito tempo. Já a questão da montagem é ainda mais grave. Uma vez que o ritmo do filme é construído a partir de passagens da vida privada daquelas pessoas com transmissões do programa, essa dinâmica “cena do programa x outros momentos” ocorre algumas vezes. Não há nenhum indicativo de abordagem do tempo sem ser o marcado pela linearidade. Já mencionamos que no prólogo a família de Lucas vai ao Onde Quer que Você Esteja no dia do aniversário do menino. Tempos depois, outra cena do dia da gravação é mostrada sem essa família. Já em uma terceira sequência o apresentador chama eles dizendo que foram lá na semana passada, o que é uma mentira – já que o programa é semanal.

São pequeno tropeços, muitos marcados pelo descuido de algum elemento de produção, que para espectadores mais atentos, que buscam a verossimilhança total, se revelam o agora denominado “elementos desconectores”. Sem contar que toda a preocupação estética da primeira metade é descartada por um foco total na abordagem psicológica dos personagens – mesmo que essa abordagem seja bem delineada. Ao abandonar suas propostas despudoradamente, “Onde Quer que Você Esteja” se mostra uma produção muito bem pensada, de ideias fortes e bem construídas – que, a despeito do brilhantismo de seu elenco, peca de maneira reiterada em sua execução. 

 

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