Ambiente Familiar

Cada Frame Importa

Por Jorge Cruz

Cinemark Projeta ás 7

Em “Ambiente Familiar” o cineasta Torquato Joel flutua entre a narrativa tradicional (mesmo que a partir de uma montagem alternativa) e o experimentalismo soft, que abandona as convenções de forma pontual e sempre a favor da história dos personagens e da experiência do espectador. Em algumas cenas, por exemplo, estamos longe de identificar uma preocupação em traduzir em palavras, em fomentar diálogos, para que se alcance a plenitude do momento, se baseando apenas no imagético e em seus desdobramentos para atingir o efeito desejado. Por mais de uma vez o roteiro pinça uma palavra (como trabalho ou até mesmo Fagner, o nome de um dos protagonistas) para que seja ela repetida em looping, permitindo uma construção a partir do que é visto, muito mais do que a mera contemplação – apesar dessa também ser possível.

Este é o primeiro trabalho de Torquato como diretor e roteirista. Inserido na cena da Paraíba, o projeto foi contemplado por edital da Prefeitura de João Pessoa, fomento que já possibilitou a produção de 45 filmes (entre curtas e longas) no município. O orçamento limitado e a pouca experiência da equipe passam completamente despercebidos nesse longa-metragem marcado pelo deslumbramento. “Ambiente Familiar” pode ser considerada uma boa porta de entrada para o que alguns têm chamado de A Primavera do Cinema Paraibano. 

O filme conta história de três homens, Fagner, Alex e Diógenes. Eles moram juntos em um apartamento e possuem nas suas lembranças de infância algumas questões não resolvidas que os persegue na vida adulta. Em primeiro plano, há o debate cada vez mais urgente da ressignificação do conceito de família e dos laços afetivos que superam as simples relações de sangue ou de casal. Em uma camada imediatamente posterior, observamos um processo de materialização dos sentimentos de cada um dos protagonistas, apresentados a partir de flashbacks e intervenções do inconsciente sempre muito pungentes. Para mencionar o exemplo que surge logo no prólogo, um dos personagens, ainda menino, fica na cabeça com a seguinte expressão: “amor incondicional”. Em seguida, o roteiro parte para uma lembrança que nos mostra o quão ignorado ele era pelo pai e pela mãe, algo determinante para gerar um sentimento de ausência (de amor). Será que a incondicionalidade do afeto reservado aos nossos pais merecem ser um conceito tão rígido a ponto de ignorarmos essa sensação de ausência ao longo de toda a nossa vida?

O poder das imagens de “Ambiente Familiar” pode ser, em parte, creditado às belezas dos enquadramentos e ao jogo de luz e sombra com a fotografia muito bem composta por Beto Martins. Partindo dessa proposta de lembranças e construções mentais, quase todo o portfólio que desfila sob o ecrã nos remete diretamente à própria arte da fotografia. Martins e Joel se permitem transitar por filtros que esfumaçam a imagem, amplificam a luminosidade solar, chegam perto do sépia, dentre outros – usando, sempre que pertinente, efeitos de sombra muito bem compostos. Deixam por vezes o espectador se imaginar entrando em uma foto antiga, para cortar quase de imediato para o ultra realismo, o dourado ou o fosco que lembram imagens do Instagram. Aliás, em várias ocasiões o plano zenital se coloca como se estivéssemos, de fato, enquadrando os objetos ali mostrados, quase que construindo uma postagem. Dentro dessa Primavera do Cinema Paraibano, Beto Martins também exerceu a função de diretor de fotografia do inédito “Curral”, que também se passa no Estado.

Como já foi dito, a narrativa não se sujeita ao padrão comumente observado pelos espectadores. Todavia, “Ambiente Familiar” não mergulha tão a fundo no experimentalismo. Há, ainda, muito espaço para se costurar uma história tradicional. O que não se observa é uma inconveniente urgência por transformar a obra em uma sequência de cenas, com montagem e ritmo pautados na regularidade. Para mencionar um exemplo, em certo momento é mostrado o trio interagindo na casa onde moram. Dois deles assistem e discutem o que acontece no capítulo da novela, enquanto o outro parece estar e não estar ali ao mesmo tempo – já que mais preocupado em conversar com outras pessoas pelo WhatsApp. Essa sequência dura o tempo que os realizadores da obra julgaram necessário. Sendo longa ou curta, não se observa em nenhuma das cenas um deslocamento causado pela impertinência. Tudo em “Ambiente Familiar” é uma composição bem fundamentada. Os três personagens, tanto na fase da infância quanto na adulta, são muito bem defendidos. O elenco ainda conta com o reforço de Marcélia Cartaxo, que retornou merecidamente triunfante à produção nacional em 2019 com “Pacarrete”.

Para evitar informações sobre o enredo, vale mencionar por alto que há no filme momentos fundamentais de abordagem sobre as consequências da não aceitação da identidade de gênero manifestada pelo indivíduo no seio daquela tida como família original antes da vida adulta. A opção por não renegar a religião é outra maneira de se abordar esses resgates que desnudam a complexidade das personalidades e das ações dos três. Com isso, o longa-metragem vai se transformando em um mosaico, onde o espectador irá construir suas impressões a partir de um trabalho formidável de construções de imagens espetaculares.

Essa coletânea que desfila pela tela ao longo de uma hora e meia serve como mediação entre o olhar e o sentir de quem o aprecia. O receptor dificilmente sentirá falta de um diálogo direto ou uma demonstração de sentimento mais telegrafado pelo elenco. Mesmo que em seu ato final a obra caia em parte na armadilha de uma abordagem mais tradicionalista, seu roteiro se encerra de maneira coerentemente marcante, em consonância com todo o primor estilístico que antecede seu clímax. “Ambiente Familiar” é um filme que merece mais do que ser apenas visto. Ele merece ser revisto inúmeras vezes, para que as imagens tão pragmaticamente pensadas e formidavelmente realizadas possam servir de objeto de estudo de como uma percepção pode ser trabalhada à luz de uma cena, um ato ou toda uma obra cinematográfica.

 

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