Crítica: Estamos Juntos

Por Fabricio Duque

Ficha Técnica

Diretor: Toni Venturi
Roteiro: Hilton Lacerda
Elenco: Leandra Leal, Cauã Reymond, Dira Paes, Lee Taylor, Nazareno Casero, Débora Dubboc, Sidney Santiago
Fotografia: Lula Carvalho
Música: BiD
Direção de arte: Renata Pinheiro
Edição: Márcio Hashimoto
Produção: Rui Pires, André Montenegro, Leandra Leal (co-produtora)
Distribuidora: Imagem Filmes
Estúdio: Olhar Imaginário, Aurora Filmes, Americine
Duração: 111 minutos
País: Brasil, Argentina
Ano: 2010
COTAÇÃO: EXCELENTE


A opinião

 

O indivíduo encontra dificuldade em suas relações inter-pessoais. Precisa-se conviver com as manias e quereres alheios. Cada ser humano possui singularidades, características próprias que o define. A pessoa necessita ser o que é, entender o seu estágio atual, relacionar-se com outros, os compreendendo e aceitando essas idiossincrasias, que ao passar do tempo ficam mais intensas e enraizadas. Há a necessidade de despertar a confiança em si a fim de suportar o mundo lá fora. Cada um segue por um caminho e escolhe uma forma de proteção. Alguns protejam-se para fora, sendo otimistas e felizes com as reviravoltas que a vida inventa. Outros participam mais e mais do próprio universo interno. Essa opção proteção é infinita, englobando inúmeras possibilidades. “Estamos juntos” aborda a obrigação de se estar com alguém, mesmo que as diferenças próximas sejam tão perturbadoras e mesmo escolhendo a imaginação como realidade. É inerente a esse ser humano o julgamento sobre pessoas e coisas.

Talvez com isso seja mais cômodo e tranquilo aguentar a pressão diária. O estado de perda é sentido e vivenciado plenamente, como um vazio que nunca é preenchido. Pensa-se nas hipóteses de rechear o espaço oco com livros, informações, bebidas alcoólicas, drogas sintéticas, sexo, trabalho. Mas o sentimento de que falta algo ainda permanece com mais força.O longa-metragem de Toni Venturi (de “Rita Cadillac – A Lady do Povo” e “Cabra Cega”) insere o espectador neste mundo depressivo da alma humana. Quem assiste ao filme mergulha, de forma sinérgica, em um mundo perdido, letárgico de novidades e irritado pela rotina. É a metáfora de uma existência, que transfere as dores internas em doenças físicas. A médica Carmem (Leandra Leal) enfrenta a descoberta de uma doença grave que instiga sua vontade de viver intensamente. Uma das primeiras mudanças é a relação simultânea com um homem misterioso (Lee Taylor) e o músico Juan (Nazareno Casero).

Mas o novo comportamento de Carmem conflita drasticamente com a vida que levava, o que pode resultar em destruição.A superficialidade sentimental do inicio, com cameras aéreas, músicas melodramáticas de efeito – com violino e orquestra – pode afastar a imersão à trama, mas aos poucos o espectador se dá conta que é uma forma de suavizar o tema complexo e pesado que será apresentado. “Você acredita que o medo deixa as pessoas egoístas?”, inicia-se com a pergunta que permeará toda a história, servindo como uma sinopse do contexto. O material bruto do filme é o próprio ser humano, que é humanizado em suas características intrínsecas. Ações cotidianas como cortar unhas são registradas em detalhes. O homem misterioso (quase o seu guia espiritual) que convive com Carmem é parte do jogo de sua proteção. Ele a salva dela mesma. Em uma cena, a personagem principal pede a esse amigo que faça um massagem “geral por dentro”, nós percebemos que nos dias de hoje o físico está mais importante.

O seu cabelo mal cortado gera críticas de outras pessoas a sua volta. Quando ela se machuca, o outro metafórico é a causa. É incrível como o outro (o próximo) possui tanta influência para nós. Vivemos o outro a todo instante. Sentimos o outro em nossas escolhas. O filosofo Jean Paul Sartre já dizia que “o inferno são os outros”. Carmem é uma futura cirurgiã, bonita e culta. Ela vive entre seu trabalho e as saídas com seu amigo gay e DJ, vivido por Cauã Reymond (que por curiosidade fez laboratório para seu personagem em clubes gays, como a The Week, localizado no Rio de Janeiro, conversou com diversos DJs). “Ele é antigo. É hetero”, diz-se. A fotografia – granulada, saturada, escurecida e cosmopolita de São Paulo, privilegiando focos iluminados incidentais, complementa a atmosfera transmitida. Outra metáfora é apresentada quando Carmem vai a uma balada (boate).

Ela encontra um homem, um argentino, um estrangeiro, que tentará adentrar em sua vida. “Ser mulher ou gay em Penedo, não sei o que é pior”, ela diz. Em certo momento, o filme torna-se institucional, como a serie de palestras sobre a prevenção de doenças sexuais numa comunidade carente e sobre a “ocupação” por um lugar físico (de moradia). Eles precisam encontrar a base, proteger-se da chuva, do frio, da chuva. Ter dignidade. Cada um busca o seu lugar. Tanto faz se for concreto ou abstrato. O roteiro trata dos dois. Os simbolismos pululam. O ovo que é cozido é um deles. “Com 23 anos, tudo tem graça, na idade deles se apaixonar ou não tem a mesma facilidade”, diz-se em ângulos próximos e detalhistas. É passional, visceral e existencial com silêncios. “Já pensou na glória do anonimato?”, divaga-se demonstrando uma vertente da loucura social e atual. É inevitável a catarse. A agressividade é quase um requisito à salvação. “Cada um sabe o peso que carrega”, diz-se. O final libertador soa como um filme de auto-ajuda, porém necessário e extremamente indispensável à trama.

“Passei muito tempo chata. Resolvi fazer as pazes com tudo”, diz enquanto olha para o espelho e pergunta “Onde estão as pessoas?”. Concluindo, um filme excelente, com interpretações naturais, realistas, gerando convencimento. Confesso que saí da exibição do filme totalmente introspectivo e precisei de muitas horas a fim de retornar a minha existência atual. Se só por isso, já vale o ingresso, o que dizer dos outros elementos impactantes? Vale muito a pena assistir. Recomendo. Inicialmente o título original seria “Antes da Noite”. Este é o 3º filme em que o diretor Toni Venturi e a atriz Débora Duboc trabalham juntos. Os anteriores foram “Latitude Zero” (2001) e “Cabra Cega” (2004). Ganhou o CINE PE – FESTIVAL DO AUDIOVISUAL 2011 nas categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor – Toni Venturi, Melhor Atriz – Leandra Leal, Melhor Roteiro, Melhor Fotografia, Melhor Edição e Prêmio da Crítica.

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O Diretor

Toni Venturi é um cineasta paulista, nascido em 21 de novembro de 1955. Morou no Canadá de 1976 até 1984, onde se graduou Bacharel em Artes Fotográficas – Cinema, pela University Of Ryerson, em 1984. Também formou-se em Comunicação Social – Cinema pela Universidade São Paulo, em 1987. No Brasil, fez o curso secundário no Ginásio Estadual Vocacional Oswaldo Aranha, em São Paulo, que compunha uma rede de escolas experimentais mantida pela pedagoga Maria Nilde Mascelani e extinta pela ditadura militar. Depois da passagem pelo Canadá, viveu no Rio de Janeiro até 1989 e desde 1990 reside em São Paulo. Toni Venturi é casado com a Atriz Débora Duboc com quem tem 1 filho.

Seu trabalho inclui os seguintes títulos, muitos deles premiados: Diretor e Produtor do longa metragem de ficção Cabra-cega. Prêmios de produção: “Filmes de Baixo Orçamento do MINC”, “Finalização da ANCINE” e “Finalização Prefeitura de São Paulo”, lançado em 2005.

Diretor e Produtor do documentário para TV No Olho Do Furacão. Prêmios de produção: “Itaú Rumos” e “Documentários Inéditos do MINC”. Em 2003, recebeu o Prêmio Especial do Júri na 30ª Jornada da Bahia. Diretor e Produtor do longa metragem de ficção Latitude Zero. Em 2001, o filme participou da 51ª Festival de Berlim, Seção Panorama. Ganhou 15 prêmios em festivais nacionais e internacionais nas categorias de melhor direção, ator, atriz e arte. Foi lançado comercialmente em março de 2002 e está disponível em DVD e VHS.

Diretor e Produtor de O Velho, A História De Luís Carlos Prestes. Documentário longa metragem e série de 04 episódios para TV. Ganhou 3 prêmios de melhor filme em festivais de cinema nacionais e foi premiado em Cuba. Diretor da série “Teletubbies” da Rede Globo, em 1988. Diretor do programa “Conexão Roberto D’avila”, de entrevistas, em 1996.

Diretor da série de documentários institucionais “Gente Que Faz”, patrocinado pelo Banco Bamerindus (1995 – 97). Diretor e Produtor dos seguintes curtas metragens: Ficção futurista com Jonas Bloch passada nos últimos dias do milênio; Guerras, Documentário sobre a vida do poeta luso-brasileiro Antonio José, que morreu queimado nas fogueiras da Inquisição no século XVIII; e Under The Table sobre o drama dos imigrantes ilegais latino-americanos que vivem em Toronto, Canadá. Atualmente é dono da produtora audiovisual Olhar Imaginário. (Fonte: Wikipedia)

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