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O Telefone Preto

A era do terror pós-moderno

Por Bernardo Castro

O Telefone Preto

Em um esforço de voltar à glória dos tempos áureos do cinema de terror, as grandes produtoras têm elaborado novas abordagens ao gênero. Deste empenho, originaram-se diversos filmes imbuídos de críticas sociais e abordagens estéticas ímpares, a exemplo de Corra! (2017), de Jordan Peele, e Midsommar (2019), de Ari Aster. Seguindo essa linha, a Blumhouse, uma das grandes produtoras supracitadas, trouxe aos cinemas o filme “O Telefone Preto”, do já consolidado diretor estadunidense Scott Derrickson. No enredo, acompanhamos o jovem Finney, que é raptado por um assassino em série. Para sua sorte, um misterioso telefone preso à parede faz a ponte entre o protagonista e as vítimas anteriores, que o ajudam a sobreviver.

Mais do que nunca, é imprescindível elucidar o caráter principal do filme: a inversão. A grande sacada do realizador e dos roteiristas foi mostrar uma nova faceta do sobrenatural. Na trama, o real perigo não advém de fontes extramundanas, mas sim de reles mortais – as intenções deste ditam o impacto negativo que causam. É sábia a decisão de seguir na direção contrária à adotada na maioria das obras do gênero, uma vez que tal feito exime o sobrenatural de sua carga negativa e questiona a visão maniqueísta imputada a ele. Mesmo os jump scares presentes causam um efeito adverso no espectador. A priori, eles causam um leve susto, mas despertam uma sensação de confusão quando não são percebidos como uma real ameaça. Assim, obtém-se êxito na tentativa insólita de moldar as emoções do público.

Com exceção do ganhador de Oscar e muitas vezes premiado ator Ethan Hawke (“Antes do Amanhecer”, “Gattaca”, “Sociedade dos Poetas Mortos”), o elenco de “O Telefone Preto” é majoritariamente composto por nomes desconhecidos. Exemplo disto é o ator Mason Thames, que dá vida a personagem principal em seu primeiro grande papel. Ele não se abala pela responsabilidade e entrega uma atuação convincente. O destaque, no entanto, vai para o já citado Ethan Hawke. Com o rosto hermético, encoberto pela máscara, ele revela um tom funesto e nuances sutis de psicopatia e insanidade através de gestos e da entonação de sua voz. Isso ilustra a necessidade de se ter um ator experiente em uma história de teor disruptivo e inovador.

A intrincada narrativa é outro ponto a tecer comentários acerca. O desenvolvimento da relação entre sequestrador e sequestrado em um espaço limitado é digno de menção. Porém, o que realmente acentua-se em comparação aos demais elementos é a profundidade das personagens e suas imperfeições, outra vez se desvencilhando da perspectiva positivista comum às películas de terror. As interações entre os irmãos Shaw e o seu companheirismo é comovente. O pai alcoólatra de Finney não o estigmatiza como vilão, tendo em vista que ele é apresentado como uma pessoa decente, explorando a dualidade do ser humano e o caráter abstrato e imprevisível de suas motivações.

A ambientação nos anos 70, consequência da retroativa busca por inspiração nas décadas de 70 e 80, movimento cada vez mais recorrente nas mais diversas manifestações artísticas desta década. É interessante a mescla da fotografia original com imagens filmadas em analógico – um artifício interessante no contexto da trama. Existem, é claro, alguns furos de narrativa e problemas que devem ser discutidos. No afã de seguir a fórmula  A24/Blumhouse, alguns detalhes foram negligenciados, atrapalhando a coesão da obra. A clarividência de Gwen, vivida por Madeleine McGraw, não é tão bem explicada – coisas que, inclusive, deveriam ser explicadas para a melhor compreensão do que o diretor procurou exprimir. Em um primeiro momento, até me causou um certo estranhamento. É um elemento que, mesmo contribuindo com o desenrolar do enredo, parece ser levemente desnecessário, transformando a história em uma miscelânea de elementos sobrenaturais e arquétipos advindos do gênero. Há também uma leve pretensão de se equiparar a outras obras audiovisuais da produtora, mas a adição de peculiaridades não contribui com o produto.

O produto disso é a falta de cenas memoráveis, diálogos marcantes ou estética original. “O Telefone Preto”, com certeza, é um filme que surpreenderá diversas pessoas. Todavia, não concorre ao hall de filmes mais influentes dos últimos tempos e não é digno do cânone desta segmentação da sétima arte. Apesar de ser uma boa experiência, será facilmente esquecido e não será assimilado pela massa osmótica conhecida como cultura pop.

3 Nota do Crítico 5 1

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