O Sequestro de Daniel Rye

Em nome do velho continente

Por Vitor Velloso

“O Sequestro de Daniel Rye” de Niels Arden Oplev é um ode à chatice, ao tédio e ao ronco durante a sessão. É difícil definir de maneira mais sintética e direta um filme que propõe a mesma abordagem por quase duas horas e meia, procurando de maneira épica a compaixão pela situação do protagonista. O problema é que esse barato é tão vicioso e entediante que na segunda terceira cena de tortura seguida, o espectador já está boquiaberto com os braços de Morfeu acariando-o. 

O poema de lentidão ímpar possui a estrutura Ocidental que estamos habituados, uma apresentação prosaica de um conflito político extremamente complexo que não é abordado como situação narrativa. Ou seja, o “pano de fundo” é a questão síria e o primeiro plano é o ex-ginástica fotógrafo aventureiro dinamarquês e a imensa “injustiça” que ocorre ali. O longe se empenha tanto em tornar a imagem do homem branco uma deidade que sofre com as mazelas islâmicas, que em determinado momento a fotografia passa a emular os atravessamentos luminosos de uma catedral europeia. São padrões utilizados pelo mercado internacional que visa um público que trabalha com a moral cristã ao seu lado, enquanto prega a redenção como frente máxima do processo civilizatório. 

Se essa trama enclausurada e claustrofóbica tivesse uma dinâmica menos industrial, é possível que algumas formalizações ocidentais funcionassem a favor dessa padronagem cíclica, contudo, “O Sequestro de Daniel Rye” não consegue explorar o próprio drama e sua virulência institucional é a linguagem didática que os festivais internacionais conservadores estão procurando para uma janela de representação de um “problema tão atual”. Esse interesse turvo mostra a peçonha de um projeto que circula sua forma nessa violência do estrangeiro, onde o primeiro plano é majoritariamente reservado ao protagonista e as violências ocorrem na distância que a indústria permite. Por essa razão, o espectador pode se sentir deslocado constantemente por uma obra que é incapaz de trabalhar seus afetos e desafetos, apenas a superficialidade do conservadorismo. Tomemos de exemplo a cena que é construída na captura de Daniel. O jogo se inicia no surgimento de um carro, onde terroristas saltam e iniciam um diálogo aos berros. A montagem prioriza os movimentos do protagonista e de sua “guia”, tratando o comportamento dos “estrangeiros” como essa virulência quase primitiva, irracional, a duração dos planos é desigual. Não porque ele é o eixo central, mas porque o centrismo europeu não permite que haja essa multifacetação de um tempo e espaço. 

Em sua “grandiosidade” moral, “O Sequestro de Daniel Rye” se permite a mise-en-scène religiosa entre as vítimas, o travelling no retorno e as expressões daqueles que sofrem. O barato não é cristão por tabela, revela-se devoto dos dogmas, porém o faz de maneira reacionária. Formalizando que as atitudes dos terroristas são imorais, capilariza a noção da falta de sentido geral para a situação política. Sua intenção é clara: retirar qualquer interpretação que não esteja vinculada aos grilhões do antigo texto. A burocracia que se instala até para demonstrar o fetiche pela violência vilã, expõe que o filme objetifica os algozes, que são projetados para torturarem e destruírem a compostura. Os detalhes fúnebres, de sofrimento, se assemelham à arquitetura dos templos que verticalizam a dor para que todos lembrem dos atos, como uma vibração histórica. 

“O Sequestro de Daniel Rye” é a celebração da “vida contra o mal” a partir de uma ideologia que já conhecemos e que não faria nada diferente se utilizasse os latino-americanos como oposição dessa centralização. O maior poema do tédio contemporâneo chega ao mercado cinematográfico brasileiro para tentar movimentar algumas cifras por aí. Infelizmente o espectador brasileiro terá de conseguir arrancar uma soneca de mais de duas horas para tentar chegar nos créditos finais de maneira sã. A duração é quase toda preenchida por torturas, lágrimas, desespero, de maneira cíclica, sem grande propósito, exceto que a redenção do retorno ao lar, traz consigo um travelling de paisagem e residências engomadas, que possui o desfecho em orações e batinas.

Trailer

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