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O Rei Nu

Paralelismos e "inconclusões"

Por Vitor Velloso

Durante o Festival É Tudo Verdade 2020

Mais um documentário na Competição Internacional de Longas e Médias-Metragens, “O Rei Nu” de Andreas Hoessli, é mais uma obra que se debruça sobre questões políticas no Irã, agora traçando as principais verve que norteiam o passado recente e a contemporaneidade do país. É um filme que busca estilizar parte do trato histórico, recorrendo a alguns maneirismos em sua construção, retomando parte daquela fotografia de contraste na cor, buscando uma formalização do suspense em torno da materialidade de seu objeto.

O longa não cria grandes esforços para a compreensão do cenário interna anterior ao seu ponto de partida, dessa maneira, não vai à fundo nos desdobramentos históricos que busca debater, tornando o exercício mais expositivo que almeja. De forma explícita, as coisas vão sendo dadas em torno das particularidades de determinados eventos, onde as imagens de arquivo e depoimentos vão se somando em traçar essa congruência do espaço e do tempo ao mundo contemporâneo. Assim, não é difícil compreender que as verdadeiras intenções da obra perpassa por estruturar algumas características de serviços de inteligência, formulações golpistas, deturpação da imagem do Irã etc. A queda do Xá, vira interseção para os supostos paralelismos políticos que vão se dando no cenário internacional.

Aqui, o foco está em torno da comunicação e dessa produção midiática em torno da geopolítica ali inerente. Os maneirismos são contundentes, o longa não cria determinações muito claras de suas pautas e acaba não centralizando as narrativas que vão atravessando a História. Com isso, a perda de interesse na falta de debate que é crescente em “O Rei Nu”, se torna uma questão de tempo. Porém, a diversidade na condução dessas imagens e as ordens de discurso, acabam capilarizando o assunto em um mosaico de temáticas. Em tomo objetivo, o concreto vai se diluindo nessas subsequências. E por isto, a obra passa a ganhar o corpo mais didático, ainda que através de uma superficialidade na compreensão crítica dessa realidade, sendo mais efetiva nas beiradas de sua narrativa protagonista que propriamente no campo ideológico. O conhecimento sistêmico de todo o cenário que rodeia o Irã, vira um luxo que nunca é entregue aqui. 

Dessa maneira, a recomendação é sempre a pesquisa anterior ou posterior à obra, para que o espectador consiga acompanhar as razões que categorizam o país como esse retorno constante à não-democracia. Aqui, claro, há uma literalidade em torno de concepções ideológicas, que chegam ao contra-revolucionário, por enaltecer essa cortina de fumaça proclamada pela burguesia como movimento último do desenvolvimento humano. Argumento tacanho, que europeus e colonizados sintonizam a fim de determinar a utopia através da razão sintética de como se deve articular a política e o povo. É sempre bom lembrar que a constituição possui um axioma (des)funcional em si e torna problema a ordem máxima de sua concepção. Existe aqui, segundo Marx, uma proclamação de ordens e leis, direitos e deveres, que possui raízes uníssonas com a classe dominante e apenas a projeção se consolida. Uma farsa. 

Logicamente, antes isso que a mambembe violência do poder monárquico, representado já no título, em caricatura e brio de desmoralização, o Xá, “O Rei Nu”. Mas sem duvida, “Golpe 53” cria um olhar mais crítico em torno dessa realidade, consciente de um problema de raízes mais profundas, com a influência estrangeira no destino interno do país, democrático ou não. Já no filme de Andreas Hoessli, existe alguns paralelismos em torno dessa visão do Irã, já que no balaio geral, cultural e político, Polônia, EUA, Alemanha e Suécia, influenciam na forma de representar tais desdobramentos. 

Há méritos, como dito anteriormente, na forma que se contorna um vácuo histórico e atinge uma versátil onda dos tempos históricos diferentes. Mas para isso, torna a discussão da comunicação e o processo político no Irã algo mais subjetivo, que está sempre retornando ao centro de suas relações imediatas com a História, o protagonista aqui não são os desdobramentos, nem o país, mas sim o diretor e sua idealização do cenário. E esse esforço criado para reforçar o desvio na condução da montagem, acaba fazendo de “O Rei Nu” uma obra que não consegue completar em si, seus debates, nem mesmo o interesse do espectador que está mais alheio às pautas ali apresentadas. Ao menos, a relação Polônia e Irã, parece fazer algum sentido na perspectiva que é dada aqui. 

Trailer

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