Golpe 53

A CIA, Bond e suas presas

Por Vitor Velloso

Durante o É tudo Verdade 2020

As veias abertas das políticas imperialistas das potências capitalistas. Grande surpresa, a CIA e o MI6 articularam um golpe de Estado no Irã, Brasil, Iraque, Vietnã do Sul etc. E qualquer um que venha argumentar que o imperialismo e o capitalismo não andam de mãos dadas, deverá recorrer à História e explicar a base de como ambos surgem como força uníssona e com recursos irmãos. Ao refutar a demência, cegueira auto imposta ou mau caratismo reacionário assassino, “Golpe 53” é exibido durante o É Tudo Verdade 2020, em sua edição online, com memórias próximas que o Brasil pode compartilhar. Não à toa é citado em determinado momento do filme. 

O golpe de 64, com influências e articulações da CIA, pode ser equiparado ao acontecido no Irã, tema principal do filme. A grande diferença aqui, está na construção da base ideológica que é sobreposta à verdade. Aqui, a cúpula de reacionários ditadores traidores, que vilipendiaram a política brasileira, assassinaram milhares, torturaram, desapareciam com pessoas, abandonaram os Soldados da Borracha etc, formaram uma base sólida do pensamento anti-revolucionário, tacanho, mesquinho, corrupto. Ao que aparenta, no Irã, a construção se deu em torno de sucessivos golpes na região e o retorno do Xá ao poder. A monarquia e toda sua verve peçonhenta, assume o poder com o luxo de quem era conhecido por sua falta de inteligência, covardia e interesses particulares. É a única lição possível que a monarquia pode nos dar, eles são covardes, ardilosos, violentos e apoiam tudo por sua manutenção do poder. A do Brasil não é diferente. Vale lembrar que a família imperial segue rica, com forte influência política, tentando abocanhar o poder sempre que pode, apoiando o golpe e os piores elementos da política brasileira, pois não diferem dos mesmos. 

“Golpe 53” consegue, através da montagem de Murch, um feito curioso. Articula um material próprio, com um rigor que compreende anos e anos de história, diversos documentos e reconstituições, sem perder o foco de sua discussão. E isso, ele faz com a maestria particular de Murch, que consegue organizar o caos construído por Taghi Amirani. O filme em si, é uma bagunça absoluta, são planos dramáticos, onde o diretor faz poses curiosas, caminhadas ensaiadas, remonta um simbolismo caricato (como reorganizar os papéis que faltavam em um documento), transforma tudo em “processo”. Não à toa, os 120 minutos do longa, soam algumas décadas, pois o excesso de informação e desorganização do “processo” cinematográfico é tão latente em sua estrutura, que em trinta minutos estamos atordoados. E é necessário que haja um maestro por trás desse coro infernal, tentando cadenciar o máximo que pode essa experiência. 

Dentro das limitações que atravessam vulgaridades em diversos momentos, o trabalho feito aqui é digno de nota. Pois essa reordenação na estrutura, conseguiu construir um documentário absolutamente importante para compreender os desdobramentos do golpe arquitetado pela CIA e pelo MI6, além de desmentir diversas versões dadas pelas duas instituições com histórico absolutamente criminoso. Nesse trabalho de investigação, é inegável que Taghi Amirani faz um esforço descomunal para detalhar essa história até camadas mais profundas, fugindo da superficialidade dos documentos públicos e relatórios das instituições. Assim, parte do crédito deste monumento informacional, deve ser dado a ele, boa parte inclusive. Mas nesse emaranhado de coisas que ele vai somando ao seu projeto, há muitos pontos frágeis. A interpretação do espião, por Ralph Fiennes, que acaba gerando uma dramatização mambembe, com fades do texto surgindo para reforçar um tom investigativo. O uso de algumas animações que são desnecessárias para a compreensão da história em si, apenas estão ali como exposição imagética-didática das resoluções do golpe. 

Por fim, “Golpe 53” é um projeto interessante, que dá espaço para parte dos inimigos da história, seus protagonistas e as vítimas. Mas acaba investindo pesado demais em algumas mirabolâncias técnicas, drones e umas “simulações” que pouco acrescentam à experiência e acabam deturpando o ritmo da obra. Porém, Murch salva o dia e entrega um projeto que gera alguma experiência positiva no fim, não apenas a vertigem e o caos da pesquisa do diretor, que apesar de profunda, deixa um cansaço latente desde seus primeiros minutos. Temos aqui o “O Caso Hammarskjöld” do ano. 

Trailer

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *