O Poder da Voz

Piedade e confissão

Por Vitor Velloso

Cinema Virtual

“O Poder da Voz” de Gregory Kirchhoff chega ao streaming brasileiro com pouco marketing e alguns rostos conhecidos do grande público. O longa trabalha em um esquema de flashbacks, onde existe uma espécie de balança dramática que nos entrega pouco da personalidade aparentemente excêntrica do protagonista de outrora, para mostrar sua mudança por uma questão de possibilidade de encarar a realidade. Dessa maneira, não se distancia muito dos demais filmes de “superação” que chegam à toda no circuito da moral. Só que aqui o jogo de vaidades é mais uma necessidade particular que um julgamento geral. Por essa razão, o espectador passa a compreender que os problemas de Baumbacher (Tobias Moretti) não são fisiológicos e sim de culpa.

Mas o negócio tem um tom de auto-piedade que incomoda um bocado. É como se devêssemos sentir pena do milionário que ficou com a voz do Ralph Ineson como em um passe de mágica. “O Poder da Voz” é direto em sua abordagem de julgamento imediato das escolhas que o colocaram no pódio que feriu as pessoas ao seu redor. A descrição feita próximo ao fim da projeção, pelo próprio protagonista, é um resumo biográfico que parece encantar uma abordagem dramática. Aqui existe algo engraçado, estamos vendo uma representação de sua vida após um determinado fato, enquanto ele julga um cineasta por querer fazer uma biografia de sua vida. É claro que a brincadeira das transcrições faz parte, mas no todo, é como se julgasse o fetichismo do “vencedor da Palma de Ouro” enquanto se curva ao mesmo.

Como mea culpa, até que funciona, porque assume a falcatrua da própria forma e vira uma espécie de paródia de si, a cena pseudo-dramática dele se jogando na piscina, gera mais um riso desconcertado que uma reflexão de sua tristeza. E essa é a tônica geral de um filme que é incapaz de fazer o público sentir algo por um personagem unilateral e desinteressante do início ao fim. A própria confissão feita à sétima arte não parece honesta a ponto de sair de um jogo de egos sem fim. E nesse ciclos de repetições, “O Poder da Voz” até começa a projeção conseguindo algum tipo de curiosidade, mas perde rapidamente o ritmo e se torna mais um subproduto engessado de auto-piedade e superação, onde a moral está acima da “prosperidade” virtual de seu personagem. Ou seja, é o conservadorismo dogmático acima do liberalismo midiático, seis por meia dúzia.

Ainda que a culpa que carrega consigo seja plausível para desencantar as representações ao arquétipo psicológico de “colocar para fora”, as coisas não funcionam por uma hora e vinte, os últimos minutos não salvam o resto. Se essa sessão de terapia funcionasse na íntegra, a lentidão seria ainda mais agoniante.

Essa estrutura de flashbacks constantes e de uma câmera que apenas objetifica os espaços para centralizar seus personagens diante da representação, é uma esquemática mecânica que se assemelha às cosméticas mais recorrentes do grande mercado. Não por acaso, apesar da nacionalidade alemã, grande parte dos diálogos são em inglês, como uma curvatura maior para uma distribuição mais ampla. A relação pai-filho tenta ser mais universal em sua abordagem, ampliando os campos de atuação, mas também não consegue ser desenvolvida até a segunda página. As confissões do filho não perduram e permanece como uma chaga que o personagem carrega sem grandes desdobramentos.

O maior problema de “O Poder da Voz” é acreditar na compaixão do espectador diante de uma situação que seu absurdo não é o suficiente para sustentar um longa que implora a atenção para essa superação. Acaba sendo um esforço pueril para cadenciar uma espécie de “road movie” com história real que não se justifica na construção ficcional. Infelizmente é só mais uma resposta dogmática que chega ao streaming brasileiro que mantém o segmento em profunda secção com as janelas, tentando “pluralizar” o que chega, sem se diferenciar tanto das sessões da tarde dos Estações zonasulescos.

Trailer

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