O Buscador

Cinefilia no campo do ensaio

Por Fabricio Duque

O ator Bernardo Barreto, conhecido por seus papéis na televisão, em “Malhação”, e no cinema, em ”Paraísos Artificiais”, de Marcos Prado, e no mais recente trabalho “Invisible”, que também assina o roteiro e tem direção de Heitor Dhalia. Agora, com o filme “O Buscador”, faz sua estreia como realizador em um longa-metragem de ficção. Se acessarmos seu site oficial, leremos que Bernardo é “cinéfilo desde a adolescência” e que tem a “paixão pelo cinema e o desejo de levar narrativas autorais para as telas”. Essa informação ajuda muito a nortear o espectador sobre as referências cinematográficas. Assim, conseguimos traduzir “O Buscador” como uma experiência-recorte, que se baseia em “Festa de Família”, de Thomas Vinterberg, com sugestões-inferências a “O Discreto Charme da Burguesia”, de Luis Buñuel, e a “O Banquete”, de Daniela Thomas. O filme pode até ser uma homenagem ao própria cinema, mas com o jeitinho brasileiro de produção e pensamento.

“O Buscador” é um daqueles filmes que não só surpreendem inicialmente o espectador, como o retira da zona de conforto. A primeira cena é uma encenação em teatro vivo filmado sobre batalhas de uma peça, entre trocas de personagens, em uma comunidade no estilo hippie (uma comuna – estrutura semelhante de “A Comunidade”, de Thomas Vinterberg). De ser livre e conectado com a natureza. O tom amador capta a atenção e “expressa o tesão”, mas sua continuidade gera fragilidades estruturais da construção, de “colocar surpresas nas coisas” e de naturalizar a espontaneidade do instante real. Este é um filme que se deixa acontecer. A narrativa soa mais improvisada. E o roteiro, apenas uma diretriz, com diálogos didáticos, forçados, tendendo ao anti-naturalismo e mais artificial, e com ações afobadas demais. Urgentes demais. Exagerado demais. Que quer enervar uma crítica à hipocrisia pela intimidade de uma corrupta família burguesa (decadente, disfuncional, alienada, em ruínas); aos “jovens e idiotas”; à segregação de classes a la “Casa Grande e Senzala” (empregados considerados “família” – mesma lembrança que temos em “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert e “Três Verões”, de Sandra Kogut.

Tudo aqui parece descontinuar o tom, sempre acima e dessincronizado. O protesto na entrada da casa do pai “ladrão”. O almoço do Dia dos Pais. O reencontro. Cada vez a referência ao movimento Dogma 95 fica mais evidente e explícita. Câmera na mão, luz do ambiente, ângulos próximos, em longos plano-sequência, sem estúdio, sem iluminação especial, sem deslocamentos temporais, mas a ação “superficial (armas,  algemas, prisão) “quebra” a forma dinamarquesa, resultando em uma facilitadora obra tupiniquim, um cinema atual que quer abordar todas as questões sociais e todos os problemas do Brasil. “O Buscador” talvez sofra o mesmo mal que julga: o de tornar simplista a obra artística. Uma construção sem apuro técnico e interpretativo e feita na “pressa” de quem quer acabar logo um “Job”. Que Brasil é esse que assistimos? Inquestionavelmente, é um filme de atores-conhecidos, do mesmo núcleo-meio, que se condicionou crer cinema é para ser feito “para ontem” como um ensaio-pedido iFood. Que para acontecer é necessário optar pelo caminho mais palatável, mais mastigado, menos nivelado ao intelecto e mais na ideia-conceito da embalagem, que “inventa” na hora, no calor da emoção e da vontade.

Sim. É incrível como as palavras do cineasta soviético Sergei Eisenstein, em “O Sentido do Filme”, são categoricamente afiadas quando define por “autenticidade da esfera da técnica interior do ator”. “É o estado, a sensação, a experiência sentida, em consequência direta em grau máximo de expressividade”. Sim, um ator deve naturalizar seu personagem a ponto dissociá-lo da própria construção. Aqui é exatamente o contrário, o ator expõe tanto a interpretação que ofusca a própria encenação. Esse próprio estágio-esfera de dissociação. Sim, muito vem do enquadramento massificado da urgência da televisão. Há em “O Buscador” um olhar condutor caricato. Uma cartilha de ações-reações estereotipadas. A mágica de “sumir com o dinheiro”, que “aprendeu em Brasília”. As falas de efeito (“Quem ama dinheiro fica com o coração duro”, “fingir que é uma pessoa normal”). E/ou as gags: “gentalhas no muro” (nossa mente imediatamente lembra o Kiko do “Chaves”). E/ou a perda total de tato-noção (a oração na mesa e os risos preconceituosos). “Não sou um seguidor (olha para a Youtuber fútil), mas um buscador”, grita-se, entre discursos com inúmeros temas-críticas. E até nós ganhamos uma estética de quebra da quarta-parede. Concluindo, é expressivo em “O Buscador” a pulsação do coração cinéfilo de seu diretor, mas faltou lapidar, ensaiar, dosar a mão e entender (e aceitar) que menos sempre é mais.

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