Nomadland

Replicante do independente

Por Vitor Velloso

O favorito da crítica, a “surpresa”, o “grande filme do ano”, é uma espécie de longa-síntese do cinema norte-americano independente dos últimos quinze anos, utilizando de cada método de sucesso para premiações nacionais (EUA) e internacionais, desde sua estrutura narrativa, até o plano com tons azulados e uma vela ou faísca que projeta um tom quente no rosto da(o) protagonista. “Nomadland” (2020) de Chloé Zhao até busca ser sincero em cada construção dramática que promove, mas sua linguagem formulaica que busca em cada canto da cinematografia independente estadunidense um referencial de sucesso para alavancar prêmios e (quem sabe?) um Oscar, fragiliza o projeto e o transforma em um previsível drama onde a moral imperialista é derrotada pelo discurso neoliberal, que por sua vez se vê fragilizado pela individualização da objetiva.

Para cada minuto de tela, um novo ufanismo. É uma barbaridade de como a moral cristã dos norte-americanos acaba salvando os que “possuem a sorte de nascer nos EUA” e que por estarem na “terra da liberdade” podem lutar contra o sistema opressor. É uma direta contra o descaso público e um abraço às instituições privadas (as “que não oprimem”). A formulação de um imaginário neo-liberal, mas humano. Um institucional estadunidense, sobre como é bom morar em uma terra repleta de liberdades, mas oprimida pelo Estado e as grandes empresas. É um arquétipo de slogan funcional que tenta aliciar o espectador para o centrão.

“Nomadland” busca os aplausos da burguesia cinematográfica ao redor do mundo, ao desvirtuar os problemas da própria sociedade que diz estar representando a partir de sua classe oprimida, quando em verdade, apenas fomenta um ufanismo mais radical, dialogando particularmente com algo mais próximo de uma “tradição”. É uma representação feita nas bordas de um conservadorismo que se assume aos poucos. Boa parte do cinema independente nos EUA é feito nestes moldes, sempre reconhecendo um conservadorismo latente na sociedade, mas com o ímpeto quase heróico de se assumir representante do “verdadeiro EUA”.

O sistema de representações da indústria cultural, trabalha sempre com o consenso, não à toa é um jogo espelhado de outras obras que foram reproduzidas em ideais diversas dentro do próprio sistema econômico da capital do capitalismo. A fórmula do cinema independente encontrou a engrenagem perfeita para a manutenção e retroalimentação das frentes, empresas “outsiders” que se concentram na produção dos trabalhos que conseguem transitar entre as vontades de representação da burguesia cinematográfica, em especial os críticos, e o público que vai gerar sua rentabilidade, para novos “The Rider”, “Nomadland”, “Florida Project” etc, existirem.

Ainda que algumas dessas obras consigam uma sobrevida longe do platô ufanista e dos agrados burgueses, a grande maioria apenas brinda em homenagem às cifras que estará constando nas contas das produtoras independentes que não estão a ser suportadas pelos grandes estúdios, mas seguem mantendo a permanência da cauda longa.

Chloé Zhao acaba criando uma grande manutenção dessa estética de como capturar o público da burguesia nacional dos países que criam amplas redes de distribuição, mas não consegue se diferenciar dos demais projetos que dominaram a indústria do cinema independente norte-americano, criando apenas uma projeção mimética dessa constância que angaria prêmios e louros.

“Nomadland” é uma obra que é alçada ao status de “grande filme do ano”, mas apenas demonstra a fragilidade de uma indústria que se mantém à margem da grande engrenagem capitalista, querendo manter-se relevante perante esse mercado. Assume todas as características, como quem quer reproduzir uma estética particular para os diversos tapetes vermelhos que enfrentará durante sua longa trajetória de aplausos da burguesia. É a comunhão de “Florida Project” com “Você Nunca Esteve Realmente Aqui” para fazer da “arthouse” um verdadeiro projeto do grande capital.

Não se trata de uma grande decepção, mas da demonstração de como parte da crítica está familiarizada com uma fórmula que não reconhecem mais por estar assiduamente fomentando, a estética da arte progressista liberal, ou burguesa. É um barato que vem contaminando os mais vulgares representantes da bandeira e reverberando aos quatro cantos dos dólares, desse país que entende tão bem de cinema independente e ganha prêmios e faz cifras na mesma medida.

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