Noites de Alface

A solidão em dois gêneros

Por Vitor Velloso

“Noites de Alface” de Zeca Ferreira conquista facilmente seu público a partir do drama cotidiano do casal protagonista. Ada (Marieta Severo) e Otto (Everaldo Pontes), um casal de idosos, atravessam os dias debatendo o futuro dos romances policiais, fazendo chá e discutindo trivial. A dinâmica começa muito bem e as duas interpretações centrais mantém o interesse do espectador, até uma virada narrativa que procura diálogos com os romances policiais. 

A construção é feita a partir de uma montagem que tenta situar o espectador de toda a vizinhança: o rapaz da farmácia que fala ininterruptamente, o carteiro que faz terapia, o carteiro reservado, a vizinha que está sempre de portas abertas e por aí vai. Essa “cidade do interior” que Otto tanto observa da janela de sua casa, enxergando grandes atos em qualquer mudança da pacata rua. Uma coisa divertida do projeto, é notar que a locação está há alguns minutos de distância do centro do Rio. Paquetá possui aspecto de interior e sem dúvida “todos se conhecem”, como declara um personagem. Mas essa trama de suspense não funciona e o projeto parece acreditar em uma ideia paródica de seu funcionamento, sem mergulhar de cabeça no fajuto ou na seriedade. Assim, as coisas ficam meio enfadonhas e fica claro que a proposta se perdeu por completo. 

Se em um momento “Noites de Alface” funcionava pelo interesse na relação do casal protagonista com as fofocas da vizinhança e cada uma das personalidades distintas, é da metade pro fim que as coisas desandam e o gênero assume as rédeas. E alguns bons atores possuem um espaço mínimo nessa trama que não sabe no que se concentrar, pois o excesso de personagens está ali para criar uma maior complexidade na narrativa. Eduardo Moreira, Teuda Bara, Inês Peixoto e Romeu Evaristo (citando apenas alguns) são desperdiçados por completo. E o pessoal envolvido no Grupo Galpão sempre pode adicionar às obras.

Miguel Vassy (Sertânia e Breve Miragem do Sol), diretor de fotografia, faz um pelo trabalho novamente, conseguindo uma simplicidade direta para reduzir os espaços, transformando as locações em enclausuramento dramáticos, achando formas econômicas de gerar suspense e tensão nas marcações da luz. Porém, apesar da montagem procurar um ritmo que salta da inércia ao dinamismo em cortes acelerados, close e vinhetas (em momentos é possível lembrar de “Trabalhar Cansa”, com a edição de Caetano Gotardo), a falta de foco faz com que os momentos iniciais que fisgam o espectador se deixe levar por um exercício de gênero que não compreende o corpo cênico nessa dramaturgia. Se em um momento a silhueta de seus personagens se aproximavam de verdadeiras esculturas do prosaico, se tornam parte integrante de um romance policial das bancas de jornal. E se a ideia parece interessantíssima, é pouco convincente em sua forma. Para que essa transição funcionasse, era necessário transar com o barato dessas histórias, não apenas flertar. 

“Noites de Alface” possui grandezas ao mostrar o cotidiano da idade, do ócio e a despreocupação, a fofoca originada na falta do que fazer, mas o encerramento dessa proposta é abrupto e descoordenado. O deslocamento até abre as múltiplas possibilidades nos paralelismos de sua dramaturgia, tratando de perspectivas particulares em um espaço que parece tão assimilado por essas vidas. É um longa de fantasmas marcados pela memória, o tempo é o assombro histórico que pesa na idade. De um lado a solidão viúva, do outro os traumas de uma guerra que cria uma absurdez generalizada. É interessante que a virada do filme seja um encontro de guarda-chuvas diante de uma pintura que traz o exército brasileiro estampado em uma parede. Inclusive, quem já foi a Paquetá sabe que a praça é uma âncora daquele lado da ilha, situada entre duas pontas da ilha. 

O retrato dessas relações acaba sendo manchado pela memória, mas a costura é frágil e nos últimos minutos o projeto entrega mais sobre a morte que sobre aquelas vidas ali representadas. Sem uma nota fatalista, apenas um recorte policial de um deslize monumental.

Trailer

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