Nangong Cheng
Questão de promessa
Por Vitor Velloso
Assistido online no Festival de Roterdã 2026
É possível elogiar a curadoria da Mostra Competitiva do Festival de Roterdã 2026 como um todo, já que uma parte da seleção é particularmente corajosa, exibindo filmes que teriam dificuldade em outros tipos de janela, especialmente o conjunto de projetos que transita entre o documentário e a ficção. O último filme visto na competição deste ano, “Nangong Cheng” revela um certo interesse da curadoria por um tipo de produção que aparece marginalizada, de gênero e de baixo orçamento. Contudo, o longa de Shao Pan, que assina produção, trilha sonora, montagem, som e direção, é um estranho e falho experimento, que aborrece o espectador e fragiliza uma competição que marcava a falta de tantos desníveis entre seus filmes. O fato do realizador assinar tantas funções diferentes no filme, explica uma série de problemas que estão presentes na obra.
Em nenhum momento se entende o que “Nangong Cheng” quer ser exatamente. Em alguns momentos, parece que estamos diante de um filme de luta, em outros uma arrastada experiência pessoal do protagonista, por vezes um comentário político, quando não… um drama genérico. O problema aqui é que nada parece fazer muito sentido em sequência, por mais que algumas ideias isoladas possam garantir o interesse do espectador até uma boa parte da projeção. Se em um primeiro recorte, parece que estamos de um desenvolvimento bastante clichê e programático de um filme de luta, com uma apresentação moral, possibilidade de vingança etc, passamos para um arrastado “policial-investigativo”, que é capaz de provocar bocejos no espectador mais dedicado. Ainda que haja algum tipo de identidade estética aqui, a estrutura é uma verdadeira confusão, se distanciando de qualquer debate presente no filme, assumindo um suposto distanciamento a todo custo, desde seu início com o texto “sudeste asiático”. Aliás, há uma série de debates na internet acerca dos dialetos falados no filme, das questões culturais ali envolvidas e toda uma postura do diretor que estaria indo de encontro à uma certa ideologia externa, mas como não sou especialista em nada acerca desse assunto, me limito a mencionar.
De toda forma, o projeto tem algo particularmente incômodo na forma como “Nangong Cheng” articula e desenvolve suas imagens, pois há uma relativa discrepância entre imagens. De um lado, temos alguns belos planos e boas composições, por outro, esse mesmo “modelo” parece esvaziar o universo na sequência seguinte, por dois motivos. A base das composições é apresentar o cenário da cena, centralizar os personagens, deixar toda a cena saturada de diálogos, ir para a próxima sequência e seguir esse padrão até o fim do longa. Se essa ideia pode ter algum mérito inicial, deixando o espectador curioso com os rumos dessa construção estética, como na cena do hospital, rapidamente o filme se torna enfadonho, ao colocar o roteiro em um looping de acontecimentos, onde um grupo tenta investigar um suposto assassinato, e outro grupo tenta impedir a investigação. Esse núcleo da narrativa, beira o insuportável, pois além de uma repetição formal e de situações que torna-se exaustiva, há uma necessidade de recorrer a piadas com frágil tempo cômico, uma estranha ideia de como explicitar o patético da situação e uma lógica interna de funcionamento dramático que não consegue sair do lugar, que somado as mais de três horas do filme, desafia o público a se manter até o fim diante da tela, para se entregar de vez a sua vocação inicial, anunciada desde os primeiros minutos da obra, ser um filme de luta, com algum nível de identidade, mas que não tem vergonha de se entregar aos clichês e maniqueísmos de um gênero que assume sua frontalidade. Porém, é essa estranheza que permanece até o fim da projeção, pois se o longa parece querer se soltar e abraçar tudo que constrói inicialmente, ele parece estar o tempo todo tentando manter um diálogo que parece impossível. Em algum momento, esse diálogo funciona e cria uma estranheza que funciona a seu favor, permitindo um respiro entre as sequências, deixando perguntas e curiosidades. O problema é que quando o espectador tem suas respostas parciais, com o avançar da narrativa, a frustração é tão grande, que quando temos acesso ao prometido filme de luta, não temos mais vontade alguma de estarmos diante desse arrastado aglomerado de ideias.


