Nada a Fazer
A arte é mulher
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente na Mostra CineBH 2026; Festival do Rio 2025; Mostra de SP 2025
“Nada a Fazer” é um filme. Não, é uma proposta cênica. Não, é um exercício estilístico. Não, é um ensaio sobre a Covid-19. Não, é um encontro entre duas atrizes, que por um acaso também são mãe e filha. Ou seria isso tudo, e ainda outras camadas mais? Leandra Leal assina a direção de seu novo projeto cinematográfico e carrega para a tela um peso de décadas: filha de Ângela Leal, uma das maiores e mais injustamente mal tratadas atrizes do país, esse é um filme portfólio de afeto. Um daqueles casos onde ficará registrado como o Brasil não sabe lidar com a luz que emana de algumas estrelas. Leandra cresceu assistindo essa mulher extraordinária e provavelmente tendo a mesma certeza de quem já a assistiu: porque minha mãe não é maior? Ao invés de chorar sobre isso, a estrela de “O Lobo Atrás da Porta” refaz sua relação com a mesma, e provoca quem a escanteou com uma provocação deliciosa.
Leandra, Ângela e Julia (filha de uma e neta da outra) estão presas na mesma casa durante a pandemia. Inicialmente como uma maneira de passar o tempo, surge a ideia de montar particularmente uma versão de ‘Esperando Godot’, clássico teatral de Samuel Beckett. Mas nada é tão simples quanto pode parecer, porque “Nada a Fazer” não tem intenção única; não estamos diante de um documentário sobre o debruçamento em uma obra, ou uma leitura sobre os medos entre mulheres, mas uma narrativa que não cansa de desembocar em novas saídas de discussão, com o rumo das coisas sendo alterado por dentro da dinâmica. Ao contrário do que em tese seria, não estamos diante de um caos ininterrupto, mas de uma obra cheia de frescor e uma metalinguagem que não cansa de revirar seus códigos.
A partir dos desejos conflitantes de mãe e filha, “Nada a Fazer” desenvolve esse amor que precisa ter medidas pré-estabelecidas sendo observado por estranhos, quando temos consciência de que essa obrigatoriedade com que a crise pandêmica nos colocou, liberou verdades. O espectador está em zona de realidade, invadindo os espaços de uma casa, de uma história e de uma relação cujo amor não esconde as rusgas. Existe o compromisso de afeto ininterrupto entre Leandra e Ângela, mas isso não impede que o conflito mostre a superproteção da primeira e as teimosias da segunda. O resultado evoca muitas delicadezas, incluindo na exaltação de uma arte gigantesca (o novo teatro) quando se encontra com um outro motor artístico (o novo cinema).
Imagens de arquivo vão além de nos contextualizar a relação entre duas mulheres que carregam vaidades, amores e trabalho. Elas revelam ao país parte substancial de um ofício injusto e limitante, que julga os atores e atrizes pela continuidade da própria visibilidade. Ângela é uma estrela que teimou em não ser apagada por uma classe que não absorveu suas ideias, e “Nada a Fazer” revela, através do olhar que sua filha lança, uma atriz ainda mais devotada, em sua intimidade. Os debates com a mãe que Leandra mostra, revelam uma Ângela cansada da desvalorização mecânica que sofreu. Assim sendo, o filme não está disposto apenas ao resgate, mas de descortinar a melancolia do apagamento, e as amplas tentativas de reaver uma artista ímpar.
Como mantenedoras do Teatro Rival, no Rio de Janeiro, e encenando um clássico dos palcos, “Nada a Fazer” também não precisa se esforçar para nos entregar essa devoção com a qual a profissão de atriz e o teatro são tratados com justificada adoração pelas protagonistas. A arte de encenar acaba revelando também novas configurações da metalinguagem já citada: afinal, o que está sendo visto corrobora para que situação? Mãe e filha, antes de qualquer laço, igualmente atrizes, aptas a transformar um documentário em material de estudo de sua profissão. Jogo de cena, como diria Eduardo Coutinho, ou não, mas estamos diante de um filme que vislumbra mais do que uma resposta, mas diversas configurações de perguntas.
A última camada visível de “Nada a Fazer” é a do corpo feminino sendo preenchido de maternidade a cada novo momento. Temos três gerações em cena, que não se esforçam em mostrar essa ternura que escapa das lentes. Nenhuma das ações, no entanto, são possíveis se esse trio de personagens únicos não fossem devotos ao ser materno. É como se fosse uma celebração litúrgica dessa grande jornada do indivíduo – todos nós viemos de uma. O filme realça essas características de um lugar de fala restrito, mas sem deixar de tocar em toda a gama de temas citados acima. Um projeto admirável.




