Morte e Vida Madalena

A Noite Cearense, não Americana

Por Fabricio Duque

Assistido presencialmente durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2025

Morte e Vida Madalena

O realizador brasileiro Guto Parente parece querer mesmo, acima de tudo, desconstruir cada nova obra de seu cinema pela transição resignada do gênero (que pela etimologia primária da palavra se traduz como nascimento), tanto esteticamente artístico, quanto genuinamente comportamental, que inclusive existe incondicionalmente na essência do ser. Assim, esse cearense mais independente projeta sua procura no que está escondido na  superfície e o que está naturalizado nas camadas da margem, metamorfoseando o não-binário à própria “normalidade” utópica da existência humana. Sim. Cada filme pergunta: e se não existisse mais distinção alguma de gênero? Apenas pessoas com suas vidas e seus consequentes problemas universais. E assim tudo isso é levantado quando apresenta seu mais recente longa-metragem “Morte e Vida Madalena”, uma fábula com propósito popular de realismo fantástico e que não busca nenhuma referência com a obra quase homônima de João Cabral de Melo Neto, ainda que faça todo o sentido.

“Morte e Vida Madalena”, exibido no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2025, tem um argumento genial: uma protagonista grávida, interpretada por uma atriz travesti, e o mais sensacional é que não há problematização dramatizada alguma com esse comportamento indivíduo-social, tampouco se busca despertar o tema da transfobia. Não. Madalena, encarnada pela atriz Noá Bonoba, o nome da personagem, é uma mulher. Grávida. De oito meses e meio (referência a “8 1/2”, de Federico Fellini). Cineasta que está fazendo um filme B de ficção científica. E ponto. Com suas decorrentes questões, escolhas, dilemas, sonhos e sobrevivências. Há algo de universo mágico e fantasioso de “Minha Vida Cor-de-Rosa” (1997), de Alain Berliner. Só que aqui, a narrativa de Guto prefere existir na metafísica orgânica do cotidiano, incluindo até o próprio processo de criação do filme que se desenvolve na desconstrução da forma, na metalinguagem poética, entre bastidores, lembranças conceituais (memórias alteradas), tretas, zoom diretos (estilo Nouvelle Vague) e sonhos (pesadelos) acordados (um que de Marco Bellocchio com David Lynch em “Twin Peaks”), na liberdade naturalista dos diálogos (com um que de Kleber Mendonça Filho, mais tendencioso à estética da Alumbramento) e na simulação da fotografia em película 35mm. Sim, este não só um filme de arte, mas acima de tudo um filme cinéfilo.

“Morte e Vida Madalena” começa com a atmosfera sensorial,  como uma presença espreitada, de um surreal e concreto teatro etéreo (mais encenado por uma máquina de fumaça que também desconstrói o limite da própria metalinguagem), num velório, musicado por órgãos de igreja. Isso traz um informação extra-fílmica sobre o pai de Guto que faleceu recentemente. É por isso que esta obra ganha mais o tom de um projeto pessoal. De homenagem, luto e aceitação pela sinestesia mágica do cinema e pela vontade técnica de fazer o filme. Tudo aqui acontece por um absurdo, no limite preciso entre realista e percepção ficcional, cujo humor (de falar verdades diretas sem filtros) evoca o ridículo idiossincrático  para estudar o próprio ser humano enquanto massa social, com suas preocupações de pagar contas, de conseguir mais verba para o filme, de “um produtor que fugiu”, com consequentes protestos sindicais e “batatas quentes”. Sim, tudo aqui vive na crítica mais escrachada. No deboche awkward mais libertador. Podemos até brincar que este é “A Noite Cearense”, em alusão a “A Noite Americana”, de François Truffaut.

Uma das maestrias do longa-metragem é a de sustentar seu caos (proposital) até o final, não tentando mudar no meio do processo para agradar a audiência. Ao fazer isso, Guto ganha a liberdade incondicional para fazer o que quiser e ir para onde quiser, como para um faroeste moderno. Aqui há algo de semelhante com “Corte Final” (2022), de Michel Hazanavicius, pela despretensão que se conduz, referenciando e zoando, ao mesmo tempo, Stanley Kubrick, Quentin Tarantino e  a filmes japoneses, como por exemplo. “Morte e Vida Madalena” entra ainda em mais metáforas. O parto como renascimento. Como reinício esperançoso, entre o tempo do cigarro e do violão. Como uma cena de “Limite” (1931), de Mário Peixoto. Mas o ponto mais alto é mesmo o tom cômico empregado: cúmplice, perspicaz, espirituoso e de ingenuidade passivo-agressiva. É, “Morte e Vida Madalena” quer evocar o passado para equilibrar o presente e salvar o futuro, pelo psicodelismo e por outros ângulos. Como disse, este é um filme de cinéfilo para cinéfilo, que bebe de Michel Gondry, mas que encontra um cinema único e particular que ainda não se consegue definir. E é essa não-definição que faz com que esta obra seja tão interessante, porque não há limitações à criação. Não há hesitações. Não há podas para talvez ser mais palatável ao público. Não. O filme de Guto e Noa já nasce cult. Que começa na morte (presente) para construir a vida (futuro).

4Nota do Crítico51

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