Morte às Seis da Tarde

Ajude-me a ser Seven!

Por Fabricio Duque

Netflix

O cinema da Polônia já foi consagrado por diretores como Jerzy Skolimowski, Krzysztof Kieślowski, Roman Polanski, Andrzej Wajda e a diretora da Breslávia Agnieszka Smoczyńska. E recentemente Paweł Pawlikowski, que venceu o Oscar 2015 de Melhor Filme Estrangeiro por “Ida”. Sim, mas o realizador Patryk Vega prefere ação e suspense policial, tendo máfia e a vingança contra a política como temas (“Mulheres na Máfia” e “Bad Boy”, além de “Pitbull”, série documental que mostrava os efeitos do Botox).

Nada contra. Só que para esse gênero se desenvolver é preciso seguir a cartilha-fórmula com suas típicas características. E se ainda por cima a obra ter que se moldar ao palatável para ser exibido mundialmente na Netflix como uma produção original, então o “buraco é bem mais em baixo”. Este é o caso de seu mais recente filme “Morte às Seis da Tarde” (2018), sobre as “Pragas de Breslau”, tradução literal a título original.

O longa-metragem consegue atestar uma carência de apuros narrativos no cinema contemporâneo que é feito. Patryk, que também escreveu o roteiro, aceitou permanecer na zona de conforto, repetindo clichês e buscando os gatilhos comuns de filmes de sucesso, essencialmente “Seven – Os Sete Pecados Capitais”, de David Fincher, por semelhança de gênero e história.

Aqui, o assassino é um justiceiro, que mata repetindo a História da Semana das Pragas, que se embasa em Frederico, O Grande, que conquistou a Baixa Silésia em 1741 e para “manter a cidade limpa de suas piores pragas: degeneração, roubo, suborno, calúnia, opressão e mentira” criou a semana e todos os dias, às 18 horas, o “carrasco da Breslávia torturava publicamente e matava uma pessoa considerada culpada de um desses crimes”. Pois é, também há algo de “O Código Da Vinci”. Vamos lá à explicação!

“Morte às Seis da Tarde” conduz o espectador à simplificação, mastigando a trama para que a satisfação do entendimento nunca desvie o caminho da atenção. O público sente a facilidade de embarcar sem complicações. É um algoritmo novelesco com estrutura de seriado adaptada ao cinema, que por sua vez é assistida na televisão de casa. Assim, a experiência, que possibilita pausar, é pensada para a família. De sentar, comer pipoca e conversar. Antes, durante e depois. A narrativa constrói-se como entretenimento (mascarada de cult e alternativo por ser da Polônia e não do eixo hollywoodiano. 

Não há nada de errado quando Patryk Vega deseja entrar no mercado americano. O sueco ”Homens Que Não Amavam as Mulheres” conseguiu enveredar-se, ainda que a refilmagem americana de David Fincher (o mesmo de “Seven”) seja melhor. Quem sabe “Morte às Seis da Tarde” também não tenha salvação?

O longa-metragem, como foi dito, é pura diversão de gênero, inserindo o espectador em uma criação fora de tom. Suas personagens são trabalhadas e apresentadas como fragmentos pontuais de causas-consequências em seus passados, e categoricamente não obtêm uma forma definida. O que assistimos é uma miscelânea confusa e gratuita de ações e reações, entre silêncios deslocados, aproximações mal colocadas, câmeras subjetivas, histerias e urgências no limite (o tempo corre e tudo necessita ser resolvido em dez minutos). 

“Morte às Seis da Tarde” também dispara outras questões- metalinguagem. O que é basicamente cinema? Uma sensação? Atenção? O que nos prende a um filme? Afinidade? Complacência pelas obras que ganham menos dinheiro? O que podemos dizer? Toda e qualquer resposta é sobre a motivação. É uma importação ultra individualizada. Vou dar um exemplo. Há outro filme estreando na Netflix, “Legado nos Ossos”. Eu achei tenebroso. Um melodrama preguiçoso e piegas. Mas Daniel Guimarães gostou, escreveu e cotou com quatro câmeras. E aí? Para mim não bateu. Para ele sim. Exatamente isso aconteceu aqui. As críticas estão positivas. Só que achei um exemplar de fragilidade ingênua, que se comporta pela não preocupação da invenção.

Sim, entendo que os filmes não precisam ser todos obras de arte. Contudo, também não podem ser obras que nivelam pela mediocridade intelectual, suplicando por amadora cumplicidade e apelando por caridade com seus momentos de forçada interpretação, pululante de efeitos nos olhos. E/ou por suas óbvias e desesperadas reviravoltas. Pelo menos “Maria do Bairro” e a “Usurpadora” são mais verdadeiras. Não. Desculpa. Nós não podemos ser passivos nesse caso com “Morte às Seis da Tarde”. Precisamos sempre lutar pela melhora da qualidade cinematográfica. Dinheiro e profissionais técnicos, além de atores, são desperdiçados para manter a ordem do mesmo e a continuação do ordinário como via de regra.

Trailer

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