Minhas Férias com Patrick

O asno e a moral

Por Vitor Velloso

Mais um produto industrial europeu encontra espaço para distribuição no Brasil, “Minhas Férias com Patrick” de Caroline Vignal é uma obra que pouco anima o espectador brasileiro com as novidades do mercado. É uma reprodução dos projetos que miram uma comédia tipicamente francesa, de planos longos, diálogos velozes e tensões dramáticas em torno da própria moral. 

Presente na Seleção Oficial do Festival de Cannes de 2020, o filme explicita a decadência do tradicional festival (que mantém história entre o conservadorismo e o posicionamento mambembe) e uma mais-valia cultural nos países ditos periféricos. Com a concentração das comédias românticas que louvam o jogo psicológico e emocional, “Minhas Férias com Patrick” segue uma fórmula já conhecida e desgastada nos moldes de produção internacional. Trilhando as veias da preguiça dramática absoluta, o barato se inicia de forma tediosa e se encerra com Morfeu precisando nos acordar da sessão. A liberdade individual encontra um forte representante na cultura francesa entre a sexualidade exposta, com o reconhecimento dos relacionamentos como ponto basilar na estrutura dramática dos projetos. 

A protagonista e sua relação com Patrick, um asno, é uma muleta narrativa para dialogar com as ideias de um crescimento pessoal e amadurecimento a partir de uma questão “traumática” da personagem. A busca por seu “amado” é uma frente mimética com seu percurso interno, um descobrimento que vai atravessando suas dificuldades em um caminho onde sua dependência emocional fica evidente. Mas nada funciona sem uma esquemática pronta que é projetada a partir de uma linguagem que reproduz anos de clichê formal. Sequências de discussão com diálogos rápidos, personagens interferindo e indagando em uma mesa de café da manhã, enquanto as verdades devem ser ditas em voz alta e a moral na cultura francesa é desvelada para seu conservadorismo latente. A suposta liberdade individual é a expressão máxima de uma sociedade construída em torno da culpabilidade por um projeto imperialista que corrói o próprio lema norteador. 

Com esse engessamento absoluto diante de “Minhas Férias com Patrick” o espectador fica refém de um jogo clichê e estereotipado de comédia romântica, onde a discussão central está entre a psique de sua protagonista e a necessidade de superação diante de uma outra figura. Aqui, o longa tenta abrir caminho em outra direção, onde a esposa de Vladimir expõe a instituição do casamento como uma complexa frente de “necessidades”. Contudo, até os escapes que cria para não seguir os norte-americanos em seus fajutos desenhos narrativos se aproximam das permanências mercadológicas francesas. O produto industrial vai atrás da beleza natural das paisagens de Cevenas e não consegue romper os grilhões de uma representação centrista, pouco criativa e conservadora em uma forma que há décadas vêm sendo replicada à esmo no cinema francês. 

A trilha sonora acompanha a “canastrice” do barato todo, assumindo o controle em momentos ocasionais, suspendendo suas relações internas, por vezes é interrompida para tentar criar humor entre os frenéticos diálogos de discussão. Mas se a contemplação é uma chave explorada de maneira paulatina, a tensão entre o desejo e a possibilidade de conseguir seu “amado” é sempre interrompida por personagens que atravessam seu caminho. Tal como a vida, essa recorrência passageira de determinados aprendizados é transposta para a estrutura dramática de “Minhas Férias com Patrick”

O espectador pode se aventurar no programa caseiro, mas será pouco recompensado pela síntese da produção comercial francesa que bebe de todos os clichês e se articula nas beiras de um conservadorismo formal. As cenas mais assumidamente humorísticas estão fortemente amparadas por essa resolução pragmática e esquemática da comédia romântica, para isso, será necessário uma dose de boa vontade com um filme que pouco alcança em seus 97 minutos e que desenha um desfecho previsível na esperança de ao menos arrancar um sorriso do sonolento desenrolo. 

Fora de uma pandemia, a Zona Sul carioca poderia vir a lotar algumas sessões da tarde para praticar seu francês. Não dá para imaginar o mesmo hoje. Até a emancipação tá nos grilhões industriais. 

Trailer

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