Memory: As Origens de Alien, o 8º Passageiro

Década de 1970 e seus Passageiros da Agonia

Por Jorge Cruz

Durante o Festival do Rio 2019

Para qualquer consumidor voraz de cinema, um documentário como “Memory: As Origens de Alien, o 8º Passageiro” é a garantia de uma prazerosa experiência. Não há como se deleitar com noventa minutos de análise de uma obra clássica do cinema hollywoodianoque completou quarenta anos de seu lançamento em 2019. A franquia, produzida pela nanica Brandywine Productions e distribuída pela 20th Century Fox, possui altos e baixos. Porém, reuniu em seus três primeiros longas-metragem linguagens distintas ao ser dirigido por renomados cineastas como Ridley ScottJames CameronDavid Fincher.

Até o documentário dirigido por Alexandre O. Philippe chegar à união do cineasta britânico no projeto, diversos pontos de pré-produção e estrutura do mercado cinematográfico dos Estados Unidos se desenvolvem na tela. Phillipe tem feito importantes contribuições à historiografia do cinema, com obras sobre George Lucas, “Psicose” e “O Exorcista“. Dessa vez ele demora a dar ritmo ao documentário. Inclusive, seus primeiros minutos – após um prólogo ficcional meramente fan fic – parece até um bom vídeo sobre análise fílmica do You Tube. Com depoimentos de podcaster e pesquisadores da área, passa a impressão de que a montagem do filme sentiu a necessidade de contextualizar de certa forma “Alien, o 8º Passageiro“, uma obra audiovisual que parte do entendimento do roteirista e escritor Dan O’Bannon de que, mesmo há quarenta anos, o mundo já se encontrava à beira de um colapso.

Trata-se de uma abertura pouco eficiente para “Memory: As Origens de Alien, o 8º Passageiro“, já que o passo seguinte é ambientar o espectador na estrutura de Hollywood do final da década de 1970. Essa parte, tipicamente retrospetiva, deixa clara a demanda mercadológica que surge com o sucesso de “Star Wars” dois anos antes. Aliás, é possível que do arsenal de referências que o documentário atira a esmo durante a primeira metade, possa se destacar o início da saga de Luke Skywalker e a fundamental obra de H.P. Lovecraft. Por sinal, é difícil que uma boa obra ficcional realizada no território do Tio Sam não tenha esses cânones norteadores. Portanto, também não surpreende que a clássica transmissão de “Guerra dos Mundos” no rádio em outubro de 1938 – roteirizada por Orson Welles não deixe de surgir em determinado momento.

Esse enquadramento do primeiro longa-metragem da saga Alien no panteão de Hollywood é bem costurado. Não perde tempo em repetições infindáveis de cenas de produções das décadas de 1940 e 1950, por exemplo – um artifício preguiçoso ao qual muitos filmes do gênero se submetem. O diálogo com as duas versões de “O Enigma do Outro Mundo” (1951 por Christian Nyby e 1982 por John Carpenter) e a menção à versão não lançada de “Duna” de Alejandro Jodorowsky são as cerejas do bolo da fase mais inspirada do documentário. Ela permite que possamos chegar ao trabalho do genial artista plástico suíço Hans Ruedi Giger, que passou o restante de seus dias sendo chamado de “o criado de Alien”. Há ainda o desenvolvimento da história sempre mencionada nas notas de produção sobre a possibilidade de Roger Corman desenvolver o projeto quando seu orçamento era de apenas dois milhões de dólares. A partir daí, com essa injeção de dinheiro, que o filme como Ridley Scott concebeu começa a ganhar corpo.

A presença de Corman (com mais de noventa anos) entre os depoentes contrasta com a ausência do próprio Scott. Phillipe se vale de imagens de arquivos para ter a voz do cineasta em um documentário que se apresenta como a mais completa análise dos aspectos de um longa-metragem possível. Serão agraciados com momentos de seus interesses os fãs de cultura pop, os cinéfilos, os amantes de storyboards, os historiadores que buscam referências em obras futuristas, dentre outros. Nesses dois últimos grupos há riqueza de detalhes e apresentação de conteúdo valioso. É curioso como partir de uma espécie de vespa para criação do Alien se transformou em uma mitologia própria – com a influência da estética egípcia, quase prioritária no primeiro momento, ganhando a adição de referências da Idade Média e Renascença. Tudo isso ilustrado de forma eficiente e dinâmica.

Para quem procura no audiovisual um forte diálogo com as artes visuais, “Memory: As Origens de Alien, o 8º Passageiro” nos entrega Francis Bacon (o pintor modernista, por óbvio). Quando retoma a análise de cenas e aplica o contexto da sociedade norte-americana do final da década de 1970, o documentário retoma a linguagem de vídeo-ensaio, se afastando do que muitos podem entender como algo diferente de uma grande reportagem. Há espaço para a problematização do sexismo, apesar de Ripley, personagem tão representativa na cultura geek, não ter o espaço merecido. Quem sabe quando completarmos quarenta anos do lançamento de “Aliens, o Resgate“, Alexandre O. Philippe produza um novo documentário onde ela se faça mais presente, na esteira da contribuição de James Cameron para a saga. Mesmo se valendo de uma nerdice incontrolável, que se preocupa única e exclusivamente em divulgar e enaltecer a nossa diva Alien, quem ama cinema não vai se decepcionar com o documentário que traz uma Hollywood mais artesanal, menos digitalizada e com muito mais alma.

 

 

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