Diego Maradona

O Insustentável Peso do Mito

Por Jorge Cruz

O amante de futebol com pouco mais de 20 anos de idade sem dúvida viveu alguma fase da inconstante e imprevisível carreira de “Diego Maradona“. Já os cinéfilos que investem seu tempo em pesquisar os documentários mais badalados devem ter se deparado com alguma das obras anteriores do diretor Asif Kapadia. Vencedor do Oscar em 2016 por “Amy“, o britânico é conhecido dos brasileiros por fazer um dos mais impressionantes relatos biográficos do tricampeão de Fórmula 1, Ayrton Senna, em Senna“, de 2010. Ele retorna ao esporte e à pesquisa por imagens raras e ainda inéditas para falar do maior atleta argentino de todos os tempos.

O roteiro não faz concessões ao recorte proposto. Kapadia se dispõe a usar os sete anos da passagem de Maradona por Nápoles para entender como o promissor jogador se tornou um mito e como essas atribuições lhe deram um peso insustentável. Fica registrada a boa aceitação do biografado, já que boa parte das passagens que pedem uma narração ou comentário são feitas pelo próprio. Todavia, há o entendimento de que a carreira de Dieguito se encerrou assim que ele completou o ciclo napolitano, que é injusto de certa maneira.

A produção de “Diego Maradona” aposta no interesse do espectador pela figura ali exposta. Há certo engessamento narrativo e uma linguagem já envelhecida para filmes do gênero. Parecia que Asif ousaria um pouco mais dessa vez, já que os primeiros vinte minutos consistem apenas nas imagens de arquivo, deixando ao espectador a fruição da montagem de Chris King (que também exerce a mesma função nos outros longa-metragens já citados). Com o auxílio apenas de datas e menções ao que ocorria no dia, a viagem do longa-metragem tem início em 5 de julho de 1984, quando Maradona chega à Itália como contratado do Napoli após duas temporadas decepcionantes no Barcelona.

O astro argentino, que ao lado de Zico inciaria a transição geográfica dos grandes jogadores sul-americanos, tornando quase imediata a exportação de talentos para a Europa, se integra a cidade como ninguém imaginava. Nesse aspecto, o tradicionalismo estético da obra conta de maneira positiva para o entendimento daqueles que não acompanham o futebol de perto. O fato da região onde Nápoles se encontra ser de certa forma discriminada por áreas mais ricas da Itália, que constantemente sofre com manifestação de xenofobia, se apresenta de forma e direta. Até hoje se testemunha e se discute o racismo no calcio, portanto, na década de 1980 não seria diferente.

Com essa situação exposta, o documentário passa por seu momento mais interessante, posto que resgata imagens dificilmente vistas, principalmente de Villa Fiorito, região pobre da província de Buenos Aires em que ele passou a infância; além da chegada ao Argentino Jrs. Depois que essa abordagem se revela eficiente, contextualizando a identificação de Maradona com os torcedores do Napoli, o documentário se permite usar o deslumbre do ofício do atleta. Se já não fornece muitas informações novas para plateia, ganha pela beleza do material. No auge de sua forma, o astro fazia da bola uma parte de seu corpo, sendo quase impossível afastá-lo de sua posse. Desta forma, “Diego Maradona” destaca por um longo período a Copa do Mundo de 1986 pela Argentina e os troféus conquistados pelo time italiano na mesma época.

Tirando uma paternidade não assumida e a obscura relação com a máfia local, todas as abordagens extracampo antes do ato final são consequências do talento de Maradona. Um profissional que, enquanto líder de seu time e da seleção de seu país, tentou distribuir a justiça social que fora das arquibancadas os torcedores jamais encontrariam. Foi assim que os fãs do Napoli se sentiram ao serem campeões nacionais em cima dos ricos times de Milão e Turin. Também foi esse o sentimento dos argentinos quando o Inglaterra foi eliminada da Copa com um gol de mão, quatro anos depois da Guerra das Malvinas. Com isso, segue a máxima de que “não é apenas futebol”. Se tentasse seguir essa linha, “Diego Maradona” seria um documentário acima da média. Todavia, opta por pegar um retorno e seguir o mesmo caminho protocolar de um filme feito para não-iniciados no assunto central. Se nega a abordar o racismo sofrido pelo próprio jogador, visto que em duas oportunidades depoentes se referem a ele com a clássica expressão discriminatória argentina (“negrito de mierda“) apenas para ilustrar o quão grande foi o feito dele se tornar ídolo no país – quando poderia minimamente problematizar e trazer a voz de Dieguito ao centro das ações em tais momentos.

Vale mencionar ainda que, quando o campo vai perdendo espaço para os bastidores e o inescapável vício em cocaína vira o objeto principal de “Diego Maradona“, tanto a trilha sonora quanto a montagem tentam imputar um sentimentalismo na parte final deveras incoerente. Talvez Asif Kapadia não entregue uma obra à altura do que representou Maradona para o esporte pela resistência em flertar com a linguagem televisiva, um jogralismo que, mesmo aprimorado com a diminuição das inserções narrativas, ainda são o suficiente para cansar o espectador modernamente dinâmico.

 

 

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