Amazing Grace

Pretérito Perfeito

Por Jorge Cruz

Amazing Grace“, se assistido no comunitário espaço de uma sala de cinema, é mais um número de mágica de Aretha Franklin do que propriamente um filme. O documentário resgata as gravações do diretor Sydney Pollack, que em janeiro de 1972 registrou por duas noites as apresentações que se transformariam no álbum gospel mais vendido de todos os tempos até então. Esse material emergir quase cinco décadas depois nos permite testemunhar um notório registro histórico com o mesmo ar de novidade de um lançamento.

Os créditos iniciais, acertadamente, se preocupa em contextualizar o momento da cantora do que do cineasta. Se existe um auge na carreira, esse foi vivido por Aretha ao longo de 1971. Boa parte de suas mais famosas canções, hoje clássicos absolutos do soul e do R&B, foram gestadas naquele período. Já o diretor completava uma transição bem sucedida da televisão para o cinema. Depois de adaptar o sempre polêmico Tennessee Williams em 1966 com “Esta Mulher é Proibida“, Pollack conseguiria sua primeira indicação ao Oscar de melhor diretor em 1970, com “A Noite dos Desesperados“, filme que totalizou nove nomeações e deu a estatueta de atriz coadjuvante para Gig Young. Ele seria lembrado por outros quatro filmes (como diretor e/ou produtor) entre 1983 e 2009, um ano após sua morte. Sua consagração seria em 1986 com “Entre Dois Amores“, adaptação do livro de Karen Blixen.

Aretha Franklin também permaneceria cercada de holofotes até seu falecimento em 2018. Depois de um período fenomenal no final dos anos 1960 e ao longo de toda a década de 1970, ela se transformaria em uma espécie de decana do soul. Sempre se reinventando, atualizando sua linguagem e receptiva a parcerias musicais, deixou um legado incontestável para a música dos Estados Unidos.

Observa-se a falta de experiência do diretor em vários momentos de “Amazing Grace“. A limitação espacial, eis que o filme se passa integralmente dentro da igreja, permitiu a captação das imagens em vários ângulos. A Warner Brothers tinha certeza do êxito comercial do álbum de Franklin e apostava no lançamento do filme como carona. Só que Pollack não conseguiu produzir um material aproveitável. Das vinte horas de gravações apenas duas e meia possuíam som sincronizado no prazo final da entrega do filme. Sem o uso de claquetes, em uma rolagem ao vivo e dentro de um evento, não foi possível unificar o trabalho da equipe. Quem observa acuradamente a obra que chega aos cinemas em 2019 se incomoda um pouco com as dificuldades na obtenção do foco. É nítida a inserção da faixa de áudio a posteriori. No Brasil, podemos citar uma obra de resgate muito parecida, com foco na análise de conteúdos pré-existentes. Quando as imagens de arquivo despontavam como subgênero dos documentários, Ricardo Calil Renato Terra entregaram u o inesquecível “Uma Noite em 67“.

Só que o poder do canto de Aretha Franklin ultrapassa qualquer questão técnica. Desde a primeira música apresentada, “Wholy Holy” (composta por Marvin Gaye) até os momentos derradeiros, ela é a responsável pelo louvor dos presentes. Quase como uma divindade, a artista pouco verbaliza, intervindo quase sempre com o seu ofício. As transições são realizadas pelo Reverendo James Cleveland, que parece não acreditar o privilégio de ser o emissor daquele momento. “Amazing Grace” vai além da música gospel e da religião que ali se estabelece. Nos coloca dentro de uma das mais encantadoras manifestações artísticas da cultura popular dos Estados Unidos. Nesse reencontro de Aretha, já como estrela da música estabelecida, as imagens mais inspiradoras são aquelas que enquadram um ou dois membros da plateia e suas reações. Uma mistura de orgulho, emoção e incredulidade.

São as mesmas leituras que podem ser feitas no sorriso contagiante de C.L. Franklin, pai de Aretha. Ao ser chamado no palco e falar sobre a infância da filha quase como um testemunho, o filme ultrapassa a mera exposição ou simples registro da apresentação. Ele se aproxima um pouco do recorte biográfico da cantora. A crítica já escolheu os principais momento do longa-metragem. Quase todos deixam de fora a releitura de “You’ve Got a Friend”, que Carole King havia lançado em 1971. Todavia, há nesse número uma mistura de cooptação religiosa pelo Reverendo e ampliação de possibilidades da cantora. Ao lado da interação com o pai, é o ponto alto da obra.

Talvez por não se conformar com o cancelamento e arquivamento de “Amazing Grace“, Sydney Pollack trabalhou nos originais em 16mm até o fim da vida (há mais de uma década). Deixou aos cuidados de Alan Elliott todo o material em seu poder, que manteve o mesmo ímpeto do cineasta. É a prova de que o cinema, mais do que um ofício que exige uma coletividade, quase sempre demanda persistência – de, no mínimo, cinquenta anos.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *