A Juíza

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Fazendo da Lei uma Luta

Por Michel Araújo

Uma tomada de consciência sobre as instâncias da luta social é extremamente pertinente. É importante ocupar as ruas, intervir no status quo de dentro, dialogar, combater as injustiças no cotidiano, mas há também uma esfera mais ampla que afere a toda essa gama de resistência sua legitimidade ante o sistema, que é a Lei. E nesse sentido, o estudo, interpretação e defesa das igualdades constitucionalmente garantidas, assim como o próprio poder legislativo – que efetivamente altera ou complementa a lei – são o verdadeiro solo onde irá se estabelecer o campo de batalha jurídico. É necessário que se conteste a lei, e haja a devida averiguação de sua interpretação para os contextos atuais, especialmente no caso de um país como os Estados Unidos onde a constituição permanece essencialmente a mesma desde a época de sua declaração de independência. Nesse sentido a juíza da Suprema Corte dos Estados Unidos, Ruth Bader Ginsburg, realizou um árduo trabalho de não apenas se inserir no sistema num contexto em que era praticamente inadmissível que uma mulher o fizesse, como também se posicionou ativa e abertamente a favor de uma política de igualdade de gênero.

O documentário “A Juíza” (2018), dirigido por Betsy West e Julie Cohen, irá recapitular com um estilo rápido, coeso e dinâmico a trajetória de vida de Ruth desde sua juventude como estudante de direito até sua ascensão ao cargo de Juíza da Suprema Corte dos Estados Unidos – segunda mulher a ocupar o cargo na história do país – e a aquisição de uma iconicidade pop por sua luta pela igualdade de gênero na sociedade estadunidense. Indicado ao Oscar de Melhor Documentário em 2018, este longa-metragem trata de não apenas compreender como divulgar o fato de uma juíza da Suprema Corte vir a adquirir uma notoriedade entre grupos mais jovens, e vir a ser iconicizada como símbolo da ala liberal – liberal aqui no sentido de defensora de liberdades civis, que é entendido como a “esquerda” na política dos Estados Unidos. Nesse sentido, a própria forma do documentário irá abraçar uma velocidade estilizada, e mesmo razoavelmente humorística em partes, para ampliar essa aura pop de Ruth Ginsburg. Aqui há uma tentativa clara de, numa estilística palatável, divertida e ágil agregar ainda mais idólatras para essa figura tão estimada.

Primeiro tratando de seus anos como estudante, o filme irá mostrar a relação de Ruth com seu então namorado, que viria a se tornar seu marido por diversos anos, Martin Ginsburg. Ambos eram estudantes de direito, e Ruth ressalta como foi importante para ela o fato de que, diferentemente da maioria dos rapazes da época, Martin não se intimidava por sua inteligência, mas a valorizava e a motivava a perseguir suas obstinações, mesmo num cenário profissional tão repelente à presença feminina. Ao caminhar do filme, outras questões aquém da política de Ginsburg são agregadas à narrativa, seus gostos pessoais como o fascínio por óperas ou o fato de estar malhando em plenos 86 anos. Se por um lado o filme entende suas constantes dissidências na Suprema Corte como razão de sua popularidade, por outro ele embarca numa individuação mais pessoal, acumulando uma ganga mítica a Ruth – como muitos documentários e filmes de ficção o fazem em relação a seus protagonistas -, que desmaterializa a razão sua grandeza na história da política do país. Mais do que uma feroz defensora da igualdade de gênero, mais do que a única juíza feminina na Corte Suprema por diversos anos, Ruth é grande por seu todo, que está para além de sua vida pública.

Parece aqui que mais do que uma tentativa de racionalizar o pop da “Notorious R.B.G.” – apelido cômico em alusão ao rapper Notorious B.I.G. – o filme o abraça, e o potencializa. O que mais vale na admiração a uma figura política, seus efetivos embates ou seu gosto musical? “A Juíza” (2018) não caminha sozinho nesta empreitada “protagonizatória”, há de fato uma certa demanda dramática para os documentários de personalidade que envolvem inseri-los no cotidiano. Ruth Bader Ginsburg é uma figura de inspiração – para o contexto de um público norte-americano – e é importante que não se perca o norte do porquê, e que não se eleve uma figura dessas acima de uma potência comum a todas as outras mulheres. Existem, é claro, certos privilégios que entram em jogo na trajetória de sua vida, o próprio fato de ter tido a infraestrutura para cursar uma universidade privada de direito, e ter tido os contatos para sua ascensão no mercado. Esses de fato seriam os diferenciais a serem apontados. Não existem super-humanos na história que se sobressaem por um mero dom ou talento nato inerente à sua condição de vida. Ruth Bader teve dedicação, teve obstinação e teve coragem, mas também teve condições, e oportunidade. Não se deve perder isso de vista e desmotivar outras figuras “notórias” de surgirem. 

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