Uma nova categoria de filme

Por Fabricio Duque


O último filme de Orson Welles, “O Outro Lado do Vento”, busca o aforismo de subverter a padronização da massa. De se estar do outro lado que não venta, que desmascara hipocrisias de moralistas blasés que acham que estão do lado certo. Finalizado pela Netflix, o longa-metragem corrobora as características facetas construtivas desse realizador que inovou a linguagem do cinema, experimentando ângulos de câmera, técnicas, narrativas, fotografias e tudo mais que a sétima arte pode proporcionar.

Sim, o espectador é assaltado por primitivos questionamentos da verdadeira essência do cinema. “A realidade é um reflexo da câmera ou a câmera é um reflexo da realidade?”, pergunta-se, fazendo com o que o público perca-se nos limites da ilusão, principalmente pela onipresença da metalinguagem e suas camadas de filmes dentro de filmes sobre o universo dos filmes.

“O Outro Lado do Vento” é mais uma subversão do “Hemingway do Cinema”, no alter-ego J.J. Jake Hannaford (encarnado por John Huston), o Sr. Welles, “o destruidor, que mastiga os outros e deixa os críticos no prato”, liberta o próprio criar ao nos retirar totalmente de nossas zonas de conforto, e, ainda, ao nos afundar no caos da produção hollywoodiana, que enxerga mais o lucro que a criatividade. Que não aceita a quebra das fórmulas de sucesso.

O filme é uma experiência ácida, que destila venenos em jogos psicológicos analíticos. Que objetiva a superexposição do medo à sociedade, que reflete a hostilidade nua e crua, e tudo pelas lentes da câmera que estão sempre ligadas com suas luzes vermelhas de gravação. Pois é, ninguém, não há exceção, fica imune quando está sendo filmado. A naturalidade ganha o posto de projeção, de se encenar o tempo todo, afastando nós mesmos e assumindo novos papéis. O que assistimos é um estudo antropológico e antropofágico do ser humano enquanto povo-comunidade.

J.J. Jake Hannaford (John Huston) é um consagrado diretor de cinema que enfrenta problemas para concluir seu último filme, “O Outro Lado do Vento”, devido ao abandono repentino do protagonista, John Dale (Robert Random, em um misto aparência de Denis Hopper em “Sem Destino” com a transgressão “meio mulher” de Jim Morrison, dos The Doors). Com o orçamento estourado e a pressão de executivos de Hollywood, Hannaford comemora seu aniversário em meio a amigos e inimigos, exibindo aos presentes o que já filmou até o momento.

Não há alma que se salve. Hitchcock, Antonioni, Peter Bogdanovich (de “A Última Sessão de Cinema”, que interpreta uma versão “quero ser o novo Orson Welles” meio “Jerry Lewis”), Claude Chabrol (também no elenco), entre tantos outros, e muito menos o próprio realizador, que se desmistifica com “arrogância”, provando que para existir no mercado dos grandes estúdios americanos, o diretor precisa ter atitude e ser um enigma polêmico e incompreendido. Vamos tentar entender então a história desse filme!

Aos 55 anos, após duas décadas de exílio, Orson Welles voltou a Hollywood para trabalhar no filme “O Outro Lado do Vento”. A produção começou em 1970 e foi até o início de 1976, com a edição entrando nos anos oitenta. Cheio de caos financeiro e político, e um que grande de existencial, o diretor não concluiu o filme. Morreu em 1985 e deixou mais de cem horas de filmagens.

Para honrar e concluir a visão dele, a Netflix assume a finalização e assim, positiva ou negativamente, visto que um filme acontece na edição e nas ideias subjetivas de seu diretor, oferece ao espectador um deleite de viajar pelas loucuras criativas de Orson Welles em seu derradeiro filme póstumo.

É também uma obra de cooperação entre amigos cinéfilos em uma campanha Crowdfunding que teve financiamento dos cineastas Wes Anderson, Noah Baumbach, Brett Ratner, J. J. Abrams, Sofia Coppola, entre outros. Mas será que era exatamente esse resultado que o homenageado procurava encontrar? Nunca saberemos. A dúvida sempre será uma questão, assim como “A.I. – Inteligência Artificial”, em que Steven Spielberg “terminou” o último de Stanley Kubrick.

O longa-metragem é uma crítica ao cinema industrial, que não permite a margem, tampouco a experimentação artística. É uma revolução à moda de “Sem Destino”, de Denis Hopper (que também aparece no filme) com a estética conceitual noir de abstração existencial. São entrelinhas agressivas em rebater com picardias as limitações morais de um politicamente correto crescente e errante, este que quer “abjurar” e reverter o American Way Hippie de ser. Quer enjaular a liberdade com o “vício consumista”. Quer engessar o independente com o status de mainstream Hipster “Sundance”.

Quando Orson Welles, no auge de sua hegemonia criativa e descentralizada, imprime a vanguarda “Nouvelle Vague Hollywood” como possibilidade de estilo, um produtor que assiste uma das camadas do filme sente-se desconfortável com a forma descontínua “sem sentido”, de se buscar uma ilusão imposta e não um reflexo das próprias vidas.

“O Outro Lado do Vento” é um filme propositalmente caos. De câmera próxima, quase agressiva, para assim criar ao máximo a intimidade com a loucura excêntrica. Somos enclausurados no processo esquisofrênico de realização de um filme, em que egos competem com outros egos, em que a humildade obrigatoriamente necessita se transmutar em altivez. É a defesa sem ressalvas e sem suavizações para respeitar e honrar até o fim as ideias que até então só o diretor possui. Neste caso, no roteiro de  Orson Welles com Oja Kodar.

Concluindo, um epitáfio que faz jus a Orson Welles em verborragia, estilizada confusão imagética e tradução adjetivada de uma época. Uma obra que liberta o cinema dele mesmo. Que prova sua inerência: que é a imagem acima de todas as coisas. De um diretor que revolucionou a arte com “Cidadão Kane” (considerado o melhor filme da História do Cinema), que amedrontou as pessoas com “Guerra dos Mundos” e deixou em “polvorosa” todos os magnatas das produtoras americanas. É uma pena que apenas o Festival de Veneza, este ano, tenha tido a chance de assistí-lo em tela grande e que o grande público contente-se em degustá-lo na televisão. Mas há uma extra no catálogo da Netflix deveras interessante: o documentário “Serei Amado Quando Morrer”, apresentado por Alan Cumming e com direção de Morgan Neville, sobre os bastidores dessa produção, “uma nova categoria de filme”,  com atores, equipe e pessoas que participaram e seus “acontecimentos divinos”. Vale muito à pena a dobradinha!

Anuncie no Vertentes do Cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *