Medo de Amar

Oração e conduta

Por Vitor Velloso

Cinema Virtual

Existem obras que são previsíveis e já provocam reações negativas em seus primeiros minutos de projeção. “Medo de Amar” de Guy Davies, vai além. O filme busca expulsar cada espectador da experiência, torna-se repetitivo, previsível, clichê, tacanho e tenta dialogar com os filmes de ensino médio norte-americanos, se aproximando gravemente da ideologia conservadora e religiosa que permeia essas obras.

Não poderíamos esperar muito, o mês de descarte chega na plataforma da obsolescência dogmática e cristã, com todas as características que compõem o imaginário pitoresco dessas relações entre a fé, o pecado e a redenção cinematográfica nas obras que se debruçam a representar uma população, através de arquétipos fundamentados em tentações e elevação do ser. Não há grandes distanciamentos de um grande coaching de como ser um bom cidadão e “Medo de Amar”, existe toda uma parábola de corruptibilidade que acaba desvirtuando o grande caminho a ser seguido pelo nosso protagonista. Qual? A prosperidade. Simbolizada por duas questões primordiais: O êxodo para o polo do capital na Inglaterra, Londres, e uma paixão, que “guiará cada passo de nossas vidas às realizações de sonhos”.

O barato é tão frouxo, que são utilizados clichês dos mais baratos da indústria norte-americana, como o valentão, forte, “bonito”, que coloca a prova tudo aquilo que nosso destemido protagonista acredita: O poder da palavra. Onde ele fica revirando páginas e páginas procurando palavras que o direciona para o caminho que tanto almeja. É uma verdadeira aula de como aliciar novos adoradores da fé e da moral cristã. Contudo, o longa não possui a diretriz de se assumir um projeto de congregação, para tanto, deveria louvar seus simbolismos da moralidade e da boa cidadania, abraçar suas instituições como referentes ao divino e segurar na mão de Deus. Mas Guy Davies realiza um projeto distinto. “Medo de Amar” se travesti de drama adolescente para cozinhar suas verves mais primordiais, pois crê, como todo bom dono de capital, que o melhor caminho está sempre pela forma.

O acontecimento aqui não é de grande desvio, há uma reflexão de como essas palavras são basilares para que a caminhada de Kai possa ser compreendida sempre através do pensamento e de se aproximar dos grandes sonhos capitais. Aliás, um de seus amigos faz tal previsão para ele “Em dez anos ele será milionário”. O desenho de meritocracia encontra um perigoso aliado na construção do panfleto universitário dogmático, a religião como alicerce que nos acompanha de maneira quase paradoxal ao ensino acadêmico. Aqui existe uma digressão do pensamento que formaliza o tom reacionário da coisa, não são frentes distintas, pois caminham em comunhão absoluta na procura de uma sociedade que funciona aos padrões internacionais da engrenagem. Porém, a última verve utilizada pela propaganda, se refere ao ato de seccionar parte dessa discussão, para que possamos excluir desta equação as instituições que não dizem respeito direto à palavra do divino. Contudo, temos a família.

Em “Medo de Amar” a ordem burguesa congestiona o pensamento, consequentemente a linguagem, ao fazer cinematográfico de esquemáticas colegiais e religiosas, às tendências da elite cinematográfica, para angariar cifras e quem sabe, uns fieis. É o mesmo processo dos “outsiders”, estar fora do sistema, utilizando-se dele, a partir de uma retórica que diferencie os pilares de uma sociedade à formalização do que há de mais comum entre a mesma e o que almejam. Não à toa, o filme recorre aos closes e primeiro planos, utiliza a trilha sonora com uma constância exacerbada, na tentativa de suspender a experiência do espectador para a viagem lírica das crenças.

“Medo de Amar” nos relembra outros textos onde divagamos sobre como algumas plataformas de streaming seguem uma cartilha empregada por emissoras de TV e livros clássicos. Somando isso ao mês de descarte, é difícil imaginar que grandes mudanças possam surgir do antigo ano pandêmico, 2020, para o atual ano da vacinação, 2021. Existe toda uma proposta que necessita de novos participantes do antigo convento da moralidade norte-americana, aqui, disfarçada de britânica. Aparentemente o jogo das esferas políticas da indústria cultural entre o antigo colonizador e a antiga colônia mudaram. Aguardem o próximo episódio. Prosperem.

Trailer

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