Matthias e Maxime

Pretensão, ingenuidade e nostalgia estilizada

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2019

O prodígio realizador do lado francês do Canadá, Xavier Dolan (confira aqui o Especial sobre o diretor), surpreendia os espectadores do Festival do Rio 2009 com seu filme de estreia “Eu Matei Minha Mãe”, dotado do frescor de vitalidade passional que respirava a essência da sétima arte ao saltar no vazio sem medo do retorno, alimentando a condução narrativa com uma pretensão quase obrigatória na arte de se fazer cinema (um inevitável e requisitado requisito nas obras francesas – que o diretor busca inspiração e abrigo), com seus surtos familiares, principalmente em relação com a figura da mãe.

E agora, dez anos depois, com oito longas-metragens na carreira, Xavier Dolan apresenta, aqui na mostra competitiva do Festival de Cannes 2019, seu mais recente filme “Matthias e Maxime”, que corrobora sua estética imagética do criar, potencializando características típicas e universais dos jovens: a vazio existencial e a ansiedade defensiva em se projetar ser o que se é a todo instante. A impaciência impulsiva tenta ser madura em uma idade de transição, assim, o público é recebido com uma atmosfera mais artificial da própria vida, de encenação literária, que permanece no campo do ensaio. É uma obra entre tempos: quer conservar ações genuínas com ingenuidade quase infantilizada.

Sim, ser pré-adulto em ”Matthias e Maxime” é experimentar uma fantasiosa e envolvente mise-en-scène com sua elegância hipster dos planos sistematicamente arquitetados, desenvolvendo pela fotografia uma nostalgia de suspensão pop do tempo. É um filme que espera uma cumplicidade intimista, com sua câmera caseira que filma amigos bebendo, fumando, sendo implicantes uns com os outros (insultos e picardias cúmplices) e com um particular detalhe-mancha, que transforma a realidade em uma natural e inocente ficção, quase superficial em seus dramas não convincentes (“você está pronto para o close-up?”) e bem mais americanizados (com um que de “quero ser o novo cult de Sundance” e/ou um que do seriado “Looking” versão tela grande).

O roteiro busca a tradução espontânea do viver, com suas amenidades-verborrágicas-constrangedoras de instantes-esquetes-núcleos (como as provas em um colchão d’água), e a possibilidade personificada de um histérico surrealismo, algo como Denys Arcand e suas “Invasões Bárbaras”. A história acontece a partir da notícia da despedida de um amigo. É impressionista e expressionista ao mesmo tempo, porque desperta desejos e segredos guardados que ganham urgências urgentíssimas para não deixar a oportunidade passar.

”Matthias e Maxime” é um filme transporte-epifania. Que nos estimula sensações com suas cenas estendidas. Mas ainda que estejamos presentes à trama (corroborando brigas e gritos com a mãe – uma “mãe-criança”, que fuma e bebe de manhã, quase uma “Bette Davis”), suas reviravoltas são facilitadas demais, criando a percepção de fragilidade observacional (como o diretor que está ator que se sente feio, mas que ainda assim é paquerado em um ônibus). Falta direção e sobra soltura (principalmente em suas pausas cênicas), ficando sem decisão e à deriva entre o estilo francês e o americano. Há um estranho e hesitado timing de momentos interrompidos e desconstruídos durante o próprio pensar e antes do agir final. Com ou sem seus discursos não eloquentes e de efeito. Com ou sem suas incompatíveis tensões fora de tom. Com ou sem suas obviedades nas decisões mimadas e “esquentadinhas” e com seus conflitos resolvidos rápidos demais (Talvez um “O Segredo de Brokeback Mountain”, de Ang Lee?)

É inevitável também não perceber a cinefilia de Xavier Dolan. Seus planos são referências homenagens a seus filmes favoritos, que enaltecem o tom blasé dos novos ricos e o mood sem papas na língua do tempo de um cigarro. Aqui é para tudo ser não binário e potencializar as infinitas possibilidades do ser, mitigando ao máximo as limites comportamentais contra a heteronormatividade. É também um processo introspectivo de se descobrir gay (de desconstrução para não sofrer), com suas músicas francesas, do Pet Shop Boys (“Always On My Mind“) e seu artifício do slow motion, à moda de “Canções de Amor”, de Christophe Honoré.

”Matthias e Maxime” é sobre a vida fluída dos jovens. De ir com a corrente. De resolver questões em horas e no limite de um dia. É sobre a nostalgia da infância em seres ainda não crescidos. Uma fazenda. Um piano. Como se fosse uma ilha sentimental. Sofrimentos exagerados por todos os lados. Sim, há duas maneiras de embarcar nos filmes de Xavier Dolan: aceitando a individualista pretensão ingênua ou comprovar que suas obras são mais dos mesmos. É entender que o vemos é o retrato do que estes jovens se tornam a cada dia com suas influências diárias e imediatas de não mais provocar situações. Não mais questionar. Apenas esquecer e partir a novos “desafios” mais práticos.

Trailer

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