Madeira e Água

Na vastidão da procura

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de SP 2021

“Madeira e Água”, de Jonas Bak, é um ciclo de melancolia e atravessamentos urbanos que só possuem fim no fatalismo. A obra exibida na seção Perspectivas do Cinema Alemão do Festival de Berlim, funciona como um retrato de uma palavra não tão presente em diversos idiomas pelo mundo, a saudade. Está certo que aqui a representação ganha uma tristeza íntima que vai dominando a personagem até o esgotamento de sua energia, normalmente representado pela fixação dos planos na grandiosidade de Hong Kong e os tons azuis que atravessam algumas sequências.

O maior problema de “Madeira e Água” é encontrar forças para seguir na narrativa desinteressante de Jonas Bak. Apesar da trama possuir algumas camadas interessantes para desenvolvimento, poucas coisas funcionam durante a projeção e a atenção aos espaços, “ressignificações” e constantes procuras é o que marca essa internacionalização formal que se encerra na idealização das manifestações, culturais e políticas. Nessa profunda melancolia, a transa cultural da procura familiar e da espera, parece se concretizar na realidade dos guarda-chuvas de Hong Kong. A manifestação não possui exatamente um sentido particular na obra, fica entre o obstáculo para a protagonista e a imposição de uma temática política internacional na necessidade de criar camadas complexas para além da subjetividade extrema. Acaba funcionando como elemento estranho, sem propósito, inócuo.

Diferentemente de “A Mulher que se foi” (2016), de Lav Diaz, que retrata os ciclos a partir dos espaços em meio à paisagem política constante, o filme de Bak faz uma enorme concessão ao estoicismo e retirada de sentido das próprias imagens. Se fechando cada vez mais nesta suntuosa jornada de encontrar-se em meio ao desconhecido, as coisas ficam desinteressantes a ponto de repetir as representações de uma melancolia à exaustão e promovendo ciclos de inércia. “O Homem das Multidões” (2014), de Cao Guimarães e Marcelo Gomes, era menos previsível na abordagem dessa relação dos descobrimentos e da falta de uma perspectiva clara diante do fluxo de carros e pessoas. A grande questão é que “Madeira e Água” aposta no reconhecimento de suas analogias e simbolismos com tamanha incerteza que se assemelha à perdição sentimental de cada esquina que se desdobra diante de Anke. Torna-se um olhar constante sobre a vontade e a diluição da personalidade diante do “perene” do cotidiano. A prosa vira maniqueísmo e nada mais é concreto, material.

Esse vício pela suspensão é a grande chaga insuperável aqui, a impermanência no cinema europeu é quase a antítese do latino-americano. Difícil de compreender essa fixação por uma paisagem transeunte, em decomposição progressiva em favor do subjetivo, que é o grande fetiche nessa relação entre a vastidão e o particular, o objetivo e o subjetivo, o real e o sensível. Mas como essas provocações nunca chegam ao entrelace por definitivo, fica no terreno da alusão, da categorização quase metafísica dos espaços. Por essa razão, é uma obra que chega a tempo de determinados debates acadêmicos que procuram na imagem suas teorias entre os espaços e a descentralização da representação em favor da dramaticidade que vai se perdendo. Não por acaso a linguagem investe seu rigor na plasticidade das sequências e em diálogos que são tão sintéticos ao ponto de exporem os próprios acontecimentos com precisão quase imediata.

Quanto mais avançamos em “Madeira e Água” menos interessante a narrativa fica, diluindo até onde pode qualquer contextualização que possa provocar alguma fricção entre o drama de Anke e as manifestações ocorridas na cidade. Se torna um mero retrato do esvaziamento dos sentidos da cidade para servir de paisagem política externa para recorrências particulares do azul melancólico do fatalismo contemporâneo. A linguagem é a síntese desse recorte espacial que mira apenas uma figura entre as vidraças de sua memória.

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