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Luz nos Trópicos

A oca nossa de cada dia

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2020

Talvez a maior questão do cinema esteja mesmo no discurso  de sua importância imagética. O que é uma imagem e o que significa? A complexidade, de retórica filosófica, galga o próprio existencialismo dos seres humanos, pautados pelo tempo e condicionados a ser indivíduos domados em sociedade, com moralidades transitórias à bem de cada geração. A diretora, roteirista e montadora Paula Gaitán (de “É Rocha e Rio, Negro Leo“, “Noite“, “Exilados no Vulcão“)  conhece as engrenagens do olhar, mas prefere transgredir a própria realidade, permitindo que o tempo lá de cima se transmute em uma experiência do sentir, afetada pelo fisicalismo do estar. Assim, em seu mais recente filme, “Luz nos Trópicos”, exibido na mostra Forum do Festival de Berlim 2020, nós espectadores somos convidados a adentrar na epifania metafísica de um universo próprio, como se fosse um portal tridimensional em um mundo paralelo de trópicos, limites, fronteiras, extremos, solidões, fugas, esperas, impulsos, urgências, carências, tudo em busca da linha tênue entre invisibilidade e exposição por meio de liberdades orgânicas (intrínsecas) e conquistadas.

“Luz nos Trópicos”, em seus duzentos e sessenta minutos, permite a viagem e atravessamentos de revisitar e reconquistar memórias, de Nova Iorque ao Pantanal, inspirando-se em uma expedição europeia para construir uma narrativa de estético coloquialismo temporal, que, na verdade, é desligado do agora a fim de gerar a sensação de uma atemporalidade presente e perceptível, principalmente quando emprenha no conceito a quebra da linearidade. Nós estamos à deriva, respiramos o mesmo tédio e sofremos as mesmas consequências de seus “colonizadores bonzinhos”, à moda de uma experiência cinematográfica do espanhol Albert Serra, por exemplo, em “Liberté”.

O longa-metragem, considerado um “river movie”, por suas cenas no rio e, pela metáfora à condução de sua ambiência mais existencialista, etérea e real, ao mesmo tempo, como um sonho e/ou um efeito psicotrópico, apresenta-se como um exercício de linguagem-cinema de contemplação. De observar o que não se tem mais tempo para olhar (e perceber), com o apuro técnico da estética, que mescla arthouse com imagens caseiras; descontinuidade da edição (som dessincronizado encontra novas paisagens, evocando assim o cineasta Jean-Luc Godard) “Luz nos Trópicos” é, acima de tudo, um documento pessoal à natureza, a base e essência (“a herança da História do Mundo”) de todo e qualquer ser, humano ou não. De “fechar os olhos e ouvir os ancestrais”. De sentir a neve do Central Park. O filme cria uma sensorial mise-en-scène, que nos transporta a uma ficção científica de estágio pós-apocalíptico, deixando nosso olhar livre para captar com tempo o que precisamos ver, mas sem estender a duração da experiência. E corta. Da frieza do rio de gelo ao calor que nunca cessa, entre câmeras estáticas e subjetivas, personificando “sonhos em fragmentos” (que, inclusive, tremem). “Minha sombra e sua sombra”, diz-se.

“Luz nos Trópicos” é uma primitiva e naturalista jornada retórica de achar respostas sem perguntas, que nos imerge na sinestesia de encontrar a energia própria do lugar. Em especial a da aldeia indígena (“não adestrada e não civilizada” de “auto-sustentamento e auto-sobrevivência social”). Nossa olhar transforma-se em poesia. Nua, crua e transcendental. Nosso personagem principal (o ator manauense-manauara Begê Muniz) se entrega a viver essa experiência em plenitude, abdicar do que é por um período (um descanso do próprio eu opressor – com os outros, mas principalmente com ele mesmo) para se reconectar com o novo-antigo. Tudo é natural demais. Livre demais. Nós espectadores até reaprendemos a respirar e a consumir essa nova vida traspassada. Há um tempo único. De vida acontecendo. E de rituais que geram transes. Nós esquecemos que há realidade fora do cinema (neste caso atual, de nossas casas), talvez pela câmera “mosca”, talvez por se “misturar” ao meio filmado.

Aqui, passado e presente estão juntos em uma estranheza importada do cinema de Miguel Gomes com seus ruídos a la “2001 – Uma Odisseia no Espaço” e/ou “Apocalypse Now”, como pesadelos confusos e “privilegiados”, que até mesmo “filmam pensamentos”, entre línguas francesas, portuguesas, americanas e gozos sensuais. “O filosófico nunca acaba. Pensa uma coisa e diz outra”, sobre a filosofia Hippolyte. O novo grupo da Realeza, fantasmas do espaço (que se transmutam na própria natureza), comporta-se como “desalentados” explorando o lugar e assistindo o “exotismo” do inóspito, reflexos, pinturas e grutas (“artifícios da civilização”). “Luz nos Trópicos” é uma aventura-fetichista. Uma odisseia instintiva pela pré-história de lugares “intocáveis”. É cozinhar o tempo. Em dois mundos, épocas dissipadas e em múltiplas possibilidades (perdendo a noção deles mesmos). É um filme que nos passa a mensagem do ir sempre. Nunca ficar (“não se fixa, porque não cabe”). “Para o Homem, a memória é uma volúpia-luxúria”, diz-se com potência glauberiana. Ao longo do filme, construímos nosso olhar para no final descobrir o sentido da viagem: “lutas sinistras nas almas”. Cada um daqui representa um espectador. São viajantes do tempo. Nós, meros receptores ainda imaturos, porque nos privamos da liberdade para atender uma domesticação imposta e dessa forma esquecemos que nós estamos em todos os lugares, inclusive em uma oca no Central Park, em Nova Iorque.

Trailer

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