Leite em Pó
Lanterna para um afogado
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra CineBH 2026
Carlos Segundo é um diretor que tem se notabilizado por uma investigação pela existência vazada por desejos difíceis de traduzir, que culminam em soluções guiadas por uma fábula. Na sua estreia em longa metragens, “Leite em Pó”, o cineasta faz o caminho inverso: ele engatilha uma série de saídas possíveis de fantástico, para perceber um protagonista que nem sabe se quer, mas que já está submerso em uma crise existencial significativa. Vicente é um homem que talvez ainda não tenha ligado os pontos do precipício se aproximando, e talvez seja tarde demais agora. Mas ele não quer mais o sonho, nem a fantasia; sua trajetória no filme é de alguém que, ainda que não seja sua escolha inicial, deseja viver a liberdade de tomar decisões, como um adulto qualquer.
A avó de Vicente acaba de se suicidar, e a partir dessa ausência repentina, o protagonista precisa encontrar os mecanismos necessários para tornar-se o senhor de suas verdades. Ao encontrar uma sub vaga de emprego como vendedor de álbuns de formatura, o músico frustrado quase quarentão percebe que o mundo é maior que o seu umbigo. Com um ponto de partida que poderia ser utilizado dentro de uma comédia tradicional, “Leite em Pó” não precisa forçar a barra para nos convencer do desespero sufocado do personagem. A maneira como ele lida com o impacto da morte, a forma como ele se envolve com uma arquiteta enlutada, e a faísca que ele percebe na dor do olhar de uma cabeleireira são os pontos de salto de um roteiro bem menos claro do que parece, em observação pela primeira vez.
É interessante notar que Segundo revela essa multiplicidade do personagem ao tornar imagético sua imagem refletida de três formas diferentes; ali, vemos um homem que não é necessariamente jovem, mas também está bem longe de ser velho, em conflito com naturezas distintas que podem ou não aflorar. O homem por trás dos bem bonitos “Sideral” e “Big Bang” abre um leque de possíveis pontos de saída para Vicente, e aos poucos vai abandonando as soluções facilitadas pela criatividade, para situar o personagem no que lhe falta: o abraço à maturidade. Com isso, não é mais permitido se deixar levar pelo sonho, e mesmo que se crie novos problemas, eles precisam ter textura de realidade, e solucionados sob o mesmo código.
Para tal, Vinícius de Oliveira também se tornou um ator mais preparado, e melhor. Inclusive com um tom de voz mais aprofundado, o ator descoberto por Walter Salles está em um dos grandes momentos da carreira, com uma interpretação cheia de atalhos. Para “Leite em Pó” funcionar, era imprescindível que Oliveira estivesse pleno de seu poderio, mas sem radicalizar nas agudezas que qualquer ator já utilizou. Sua sobriedade talvez seja o grande choque do filme, e carrega para dentro da produção um senso de responsabilidade e melancolia próprias de um homem adulto. Uma interpretação corajosa pelo seu despudor de tirar todas as camadas conhecidas e deixar no ator apenas as finas linhas de compreensão.
Oliveira conta também com a sensibilidade de Segundo para arrancar dele esse olhar introspectivo, que o assola neste existencialismo que não pede licença, através de um roteiro que permite também a descoberta de uma vida além das fantasias masculinas de estagnação. Apesar da enorme quantidade de alicerces a cada cena, dois ajudam-no a encontrar comunicação direta, vividos pelos geniais Antônio Pitanga e Rejane Farias. A maneira como o roteiro de “Leite em Pó” nunca revela a intimidade de uma mulher que nem está mais em cena, transforma o tipo de PItanga em uma esfinge positiva. Já a doçura de Farias está mais uma vez à disposição dos projetos certos.
Quando, no plano final, Vicente e Segundo ameaçam encarnar nova dose fábula, tanto na maneira como monta a cena quanto no que o roteiro revela, “Leite em Pó” já se permitiu ao risco de novo. O cineasta filma essa tentativa de liberdade com descoberta progressiva da cor, permitindo que uma cena de (provável) assassinato pareça solar, no determinado momento em que aconteceu. Porque naquele ponto, o filme já tenha se desvencilhado de uma diretriz mais tradicionalista de conseguir esse movimento de dentro para fora. Se o naturalismo sequer voltar a encarar Vicente, ele sempre terá a porção mágica, e estar uma vez mais disposto a, como um ninja, desaparecer.




