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Jurassic World: Domínio

O auge da necromancia

Por Ciro Araujo

Jurassic World: Domínio

Para aqueles que revisitam, a franquia de dinossauros mais famosa do mundo parece ter sido lançada logo ontem. A aventura original, no começo daquela estética transicional entre anos oitenta e noventa traduzia o início de um cinema mais fantasioso, onde o que não era possível via fantoches ou brinquedos agora poderia ser em computação. Todavia, mais de de vinte anos se passaram, as circunstâncias mudaram e “Jurassic World: Domínio”, dirigido por Colin Trevorrow, agora possui novos olhares, estes jovens. O fluxo de montagem já é diferente, a fotografia urge por brilho e alta dinâmica de cores, o digital é a predominância. Tudo poderia ser dito para seus dois já medíocres longas nessa chamada nova trilogia (leia a parte 1 “Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros” e a parte 2 “Jurassic World: Reino Ameaçado“), e assim o repete; apenas para, agora, o finalizar.

É então que a Universal Studios parece ter planos indecisos para produzir novos sucessos de verão – no hemisfério norte, claro, onde já se viu alguma companhia produtora se basear em nós? – e fazer lucro, espelhado nos dois primeiros da franquia “Jurassic World”. Nota-se esse interesse tão fulminante quando Colin Trevorrow, cineasta que também deu o pontapé dessa “nova” série, elenca Sam Neill, Laura Dern e o reaparecido Jeff Goldblum dos filmes originais. Como sintoma blockbuster contemporâneo mais tradicional, essa necessidade do rosto familiar aparecer e assim comunicar passivamente ao espectador para seduzi-lo a assistir o novo capítulo do que assim chamam de uma épica conclusão.

Claro, é muito fácil caracterizar como formulaico qualquer procedimento que Hollywood faz, mas impressiona como “Jurassic World: Domínio” é capaz de surpreender negativamente ao percorrer por seu próprio texto. Personagens que completam arquétipos da mistura de masculinidade e o toque de sarcasmo que todo protagonista carismático requer hoje; a feminilidade que agora é condizente com realidade, porém não passa de apenas a produção imagética de lutas filmadas e cortadas em um padrão previsível; alívios cômicos em atores que possuam alguma feição cartunesca – é o caso de Goldblum; o grande empresário do mal que na verdade apenas recria a ironia existente entre grandes estúdios e uma produção hollywoodiana; e claro, a ciência que perde o controle através de uma relação entre mitologia (Prometeu) e o futuro. Seja o que for, as características de aventuras que são tão famosas nos filmes de Spielberg durante seu período de Guerra Fria, agora parecem não só antiquadas como puramente e exatamente formulaico.

Atores novos na franquia também decepcionam e englobam o espírito necromântico que a Universal Studios apresenta: DeWanda Wise interpreta Kayla Watts, uma aviadora aventureira e com espírito justo. Ou seja, personificação de um espírito Indiana Jones que incorporava Amelia Earhart. Algo que parecia longe mas na realidade está intrínseco na cultura de se fazer filme grande dos Estados Unidos. Assim, se explica essa questão de necromancia: o poder de se comunicar com mortos, mesmo que eles não estejam categoricamente mortos. Sempre nessa infinita perseguição de capturar quem esteve em um estado criogênico. Vale assumir que a quantia oferecida aos atores foi de maior interesse que a potencialidade do projeto apresentado.

“Jurassic World: Domínio” é peça fundamental para compreender essa tentativa de recriações norte-americanas, mas também existe como ele próprio, como se fosse um pequeno animal acanhado, que deseja rugir, mas uma pena, pois, é tão pequeno, insignificante. Seu processo de conversar sobre paralelismos e convivências entre dinossauros e humanos, apresentado em seu predecessor, parece não existir. Mas sim, é possível escutar essa vontade de tratar sobre o assunto, que é dialogado em ecos ao fundo; Sejam eles via as filmagens em “b-roll”, isto é, apresentados em jornais e televisão, ou em partes soltas que servem como aproveitador situacional. E bem, essa palavra, “situação”, parece ser a mina de ouro de roteiristas à lá Hollywood. Tão sedutora ela, como uma fórmula mágica de alcançar a necessária marca de cento e vinte minutos (ou mais!), enquanto produz contratos milionários para marcas, quer dizer, atores, estamparem o sorriso amarelo na tela. Essa felicidade apenas traz sono, enquanto naquela época do primeiro filme da primeira franquia tudo que havia era um sentimento – falso – neoliberal de sonhos possíveis de um futuro vindouro. Agora? Agora é apenas necromancia, a arte de se comunicar com os mortos. E sob a luz de um pôr do sol que mira para o além, o filme de Colin Trevorrow acredita que é possível continuação da franquia. Agora será o quê? Uma “necronecromancia”?

1 Nota do Crítico 5 1

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