Judy: Muito Além do Arco-Íris

Não, Porque nem Sempre

Por Jorge Cruz

Durante o Festival do Rio 2019

Ao final do terceiro dia do Festival do Rio 2019 já era difícil imaginar uma decepção maior do que “Judy: Muito Além do Arco-Íris“. Longe de ser o pior filme assistido até mesmo no dia (a mesma data foi marcada pela traumática experiência de ver John Cena se reerguer como um novo ídolo bombado na cabine de “Brincando com Fogo“), o lamento se deu não apenas pela carga de expectativa criada com a cinebiografia de Judy Garland (Renée Zellweger), uma atriz fundamental para compreender e se apaixonar pela Era de Ouro de Hollywood. Há algo no trajetória do filme dirigido por Tom Edge que tenta fugir das cansativas representações de figuras históricas no cinema norte-americano que não se confirma. Uma ousadia na proposta que, ao se revelar inócua, amplia a impressão de ser apenas um longa-metragem pensado para a temporada de prêmios, como “Ray” (2004), “A Dama de Ferro” (2011), “Jackie” (2016), dentre outros.

“Judy: Muito Além do Arco-Íris” de baseia na peça “End of the Rainbow”, escrita por Peter Quilter, montada em Londres em 2005 e que conseguiu espaço na Broadway seis anos depois. A adaptação do texto é de Tom Edge, que contribui com o serviço de streaming Netflix em duas séries, “Lovesick” e “The Crown“. A transposição para os cinemas, de fato, é bem costurada. Não há aquela incômoda sensação de que estamos diante de uma peça de teatro filmado.

O recorte utilizado é promissor. Uma vez que o material original focava na temporada de shows que Judy Garland fez na Inglaterra meses antes de morrer, em 1968, o flashback é utilizado com parcimônia. A vida da estrela é revisitada mais em diálogos e referências entre os personagens no tempo presente da obra ao invés de se pautar em uma cronologia tradicionalmente cansativa. No pouco que viaja para a adolescência da atriz (quando ela é vivida por Darci Shaw), Edge tenta trazer um pouco da atmosfera do cinema da época. É bonito ver em cenas de “Judy: Muito Além do Arco-Íris” os travellings sobre o set de gravação de “O Mágico de Oz” (1939) e o uso da grua, algo que se repete algumas vezes. A canção “(Somewhere) Over the Rainbow”  (a “Anna Julia” – não, porque nem sempre – da artista) é onipresente, seja na trilha incidental, em falas referenciais ou no assovio de algum figurante que passa em cena, como não poderia deixar de ser.

Porém, esse afastamento da linguagem engessada das biografias não rende frutos muito diferentes do que as outras produções do gênero. O texto não bate de frente com boa parte das questões que se oferecem de bandeja para ele. Quinze anos antes de Garland tentar se reerguer com as apresentações de Londres, Frank Sinatra dava a volta por cima ao vencer o Oscar de melhor ator coadjuvante por “A Um Passo da Eternidade” (1953), por exemplo. Após passar problemas financeiros e de saúde, o cantor foi recebido de portas abertas por uma sociedade muito mais condescendente com suas figuras masculinas. A condição pela qual se encontrava a atriz não é, portanto, explorada. Quase como uma ironia, Sinatra é citado em uma das cenas.

Há algo em “Judy: Muito Além do Arco-Íris“, muito na maneira como Zellweger performa a protagonista, que nos remete à saga da decadência da Norma Desmond vivida por Gloria Swanson em “Crepúsculo dos Deuses” (1950). Principalmente essa não-aceitação da condição delicada na qual se encontra, mantendo em alta seu entendimento como grande estrela de cinema. Nesse aspecto o ritmo do longa-metragem ajuda muito na sensação de ótimo trabalho de Renée Zelwegger. São longas sequências em que a personagem pode ser dissecada por quem a interpreta.

Quem está pela casa dos trinta anos vai lembrar de dois episódios bem representativos de como nada mudou em relação ao trato com os artistas. A Judy dessa obra encontra os mesmos problemas relacionados à retirada de poder familiar sofrido por Britney Spears provocado por seu pai e à espetacularização vivenciada por Amy Winehouse quando subia ao palco sem condições físicas de trabalho. Até hoje a indústria do entretenimento dos Estados Unidos segue fazendo suas vítimas. Nesse ponto, o filme é até bem representativo da adolescência da biografada. São raros e vazios os momentos resgatados e sempre com Judy reclamando que os remédios inibidores de apetite que lhe dão dopam ela horas a fio. É como se o roteiro de Edge dissesse que aquelas são as únicas passagens processadas e ainda existentes na memória da estrela.

Por fim, outro ponto que está pedindo para ser explorado, mas que a produção ignora, é a relação dos admiradores de Garland. Devia ser constrangedor vê-la com quase cinquenta anos de idade cantando “The Trolley Song“, música da trilha do musical “Agora Seremos Felizes” (1944). Essa exploração do saudosismo é outra forma que a indústria encontrou de vender experiências. Sandy e Jr. daqui a poucos anos terão a mesma idade de Judy quando se sujeitou a essa situação. É bem provável que lotem casas de show e transformem “Vamo Pulá!” em um momento de inexplicável catarse coletiva – algo que se baseia muito as carências vivenciadas por fãs.

Todas essas intenções, essas problematizações, não rompem a bolha do notável trabalho técnico de um filme como esse. São minutos sem fim em que fotografia, direção de arte e figurino se digladiam para ver qual chama mais a atenção do público. Quando Zelwegger sobe novamente ao palco para uma nova apresentação, estamos bem perto de uma edição do “Show dos Famosos” do “Domingão do Faustão“, mesmo que em outras sequências ela se mostre muito mais entregue à personalidade a qual está ajudando a reviver.

Essa aposta meramente no referencial, fugindo dos aprofundamentos sobre tantas questões, faz falta em um filme que ousa não ser mais do mesmo – mas acaba de certa forma sendo. Doído é ver que “Judy: Muito Além do Arco-Íris” se entrega de vez aos gatilhos emocionais de um clímax formatado da mesma maneira que “Bohemian Rhapsody” (2018). Se o longa-metragem pavorasamente dirigido por Bryan Singer, mesmo com suas perucas, dentaduras e montagem mambembes levou a plateia na maciota, não foi surpresa ter sido esse o único longa-metragem aplaudido ao final de uma sessão do festival.

 

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