Infiltrado
John Wick é P2
Por Vitor Velloso
Guy Ritchie conseguiu um punhado de fãs por “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (1998) e “Snatch – Porcos e Diamantes” (2000), onde criou um esquema de vinheta para as sequências absurdas de ação e violência gratuita. Bebeu diretamente da onda de “Trainspotting”, de Danny Boyle, (1996) e nunca conseguiu grandes méritos para além desse jogo televisivo de uma dinâmica de pub, que viu Edgar Wright desenvolver isso para outro caminho. Os últimos filmes de Ritchie mostraram as novas investidas do cineasta: a dinâmica dos espaços ampliada para o tom épico em ““Rei Arthur: A Lenda da Espada”” (2017), o blockbuster genérico e duvidoso de cifras exorbitantes em “Aladdin” (2019) e um retorno quase totalizante às origens em “Magnatas do Crime” (2019). Agora, em “Infiltrado”, existe uma transa de ideias que dá um barato, no mínimo, curioso.
Uma assimilação de John Wick (que já está saturando a indústria) com a pompa britânica que marcou o diretor, faz com que Jason Statham seja o anjo da morte, da vingança, em uma trama com pouca criatividade, mas um nível de entretenimento relativamente decente. Alguns traços característicos estão de volta, tanto com as tramas paralelas, quanto os personagens de índole duvidosa, algo que “Magnatas…” até faz com mais vigor, porém a falta de uma narração aqui, dinamiza um pouco as coisas e formaliza um longa de ação propriamente dito.
Umas das coisas curiosas da carreira de Ritchie é que apesar de quase sempre retratar máfia, submundo do crime e violência, não é um diretor que prioriza grandes cenas de ação, pelo contrário, normalmente as sequências não se resolvem na base da bala e a malandragem reina. Mas “Infiltrado” foge a regra nesse sentido, não há possibilidade de resolução que não envolva uma troca de tiros brutal. A construção é lenta e por diversos momentos se aproxima mais do drama que de qualquer outro gênero, mas com Statham protagonizando… a gente sabe onde as coisas vão terminar. E é até divertido como essa vibe John Wick funciona como “atmosfera” (a cena em que ele revela seu rosto aos assaltantes faz parte dessa articulação) que vai preparando o espectador para ver o protagonista “H” soltando os bichos.
Contudo, até isso acontecer, há uma série de reviravoltas previsíveis, uma chatice que vai corroendo a paciência com seus clichês e falta de dinâmica em uma narrativa que sabemos que vai explodir em algum momento, mas parece tão distante, que essa expectativa começa a se tornar frustração. Para manter o público diante da tela, Ritchie solta algumas pílulas da frieza e eficiência do protagonista, em cenas breves e violentas, sempre encerrando com os elogios desmedidos do dono da empresa, que quer promover a imagem de “H” como o “exemplo” a ser seguido. Nesses momentos, há uma certa ironia em torno dos detentores do capital e a burocracia exigida pela justiça, sempre encerrada com “mas ele fez seu dever”. A moral da ação industrial é sempre essa compreensão fatalista de um destino, que aqui em “Infiltrado” é uma vingança “justa”, aliás a forma como a situação é revelada, mostra a obviedade de certos clichês, porém possui um mérito: a primeira cena foge à esquemática e se aproxima mais das vigilâncias contemporâneas, onde vemos um assalto na perspectiva de uma câmera interna de um carro forte.
Apesar de Ritchie não se distanciar tanto de suas origens, existe uma certa “ousadia” de um diretor que não é tão flexível quanto sugerem e isso é perceptível no próprio clímax, onde a “misancene” (versão glauberiana-brasileira de mise-en-scène) é mais confusa que outros projetos de ação, ainda que demonstre um certo controle na dinâmica de diferentes espaços da mesma sequência. Aliás, é um recurso que funciona parcialmente bem, onde vemos diferentes perspectivas da mesma troca de tiros, acaba se tornando mais como dispositivo, já que o desenvolvimento dos personagens secundários não é o suficiente para dramatizar as mortes e tensões. Mas como produto de entretenimento direto, até que o homem das vinhetas e narrações em off consegue alguma coisa nessa janela de mercado.