I Comete − A Corsican Summer

Não Corra!

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Roterdã 2021

Há filmes que nos mostram que toda obra deve ser assistida até o final. Desistir no meio pode acabar com o elemento surpresa, semeado e orquestrado ao longo da duração. “I Comete − A Corsican Summer”, exibido na mostra competitiva do Festival de Roterdã 2021, é um deles. Diferente de “Friends and Strangers”, a estranheza superficial daqui tem propósito quando constrói uma crítica social-xenófoba. O tom fabular encontra realidade nos olhos do protagonista, o único negro no interior de cidade francesa, uma aldeia da Córsega no verão. O que pode soar gratuidade nas imagens observadas do início, de moradores traduzidos como tipos arrogantes, raivosos, infantilizados e “esquentadinhos”, entre esquetes em fotografias que buscam uma teatralidade atemporal (caseira) que causa incômodo-constrangimento, ganha um orgânico e integrado discurso-ativismo.

“I Comete − A Corsican Summer”, que é um daqueles típicos filmes comunitários que movimentam todo o lugar, é um retrato de uma geração do passado que enraizou julgamentos e preconceitos na mais nova. O filme, coral, caminha por performances comportamentais (particularidades culturais) e instantes-fragmentos (e elipses) cotidianos (à moda do cinema de Lucrécia Martel e com um que inferência de Frederick Wiseman), e se desenvolve por histórias-conversas de vidas encenadas em câmeras estáticas. Que ouvem pela perspectiva do único morador negro, este que ajuda aos idosos e se utiliza de toda calma-perspicácia para entender (e conhecer) seu lugar ali. E de que está “sobrando”. Uma crítica à artificialidade das relações humanas (todas protocolares e de “educação” automática) em temos atuais (ou será que sempre foi assim?). A impressão que temos é que seu realizador da Córsega Pascal Tagnati, estreante na direção de longas-metragens, construiu uma bolha de análise ao público, algo como “O Show de Truman”, de Peter Weir, transformando todos em cobaias. Mas ainda que com esse vidro invisível, os atores em processo sabem que são observados e reinterpretam uma versão ainda mais ficcional de si mesmos. Sim, é complexo.

O filme, que importa uma atmosfera do povo italiano, também escolhe perder as rédeas. Tudo é possível e se transformará em material final na edição (também de Pascal Tagnati). As cenas explícitas femininas e masculinas de sexo induzido próximo à lagoa e/ou uma masturbação. Potencializa-se a sexualização. O desejo. Contudo, ainda que entendamos o objetivo de ridicularizar esses comportamentos desengonçados e primitivos, “I Comete − A Corsican Summer” precisa apelar para manter o argumento. Ao estender, reverbera a pretensão com inocência e a condescendência impotente, alimentando o embaraçoso e a inconsequência. A “redenção”, com o articulado monólogo sobre liberdade e soberania, fortifica-se pelas palavras do “diferente negro” Franje (o ator Jean-Christophe Folly), que ironiza, por um pessimismo resiliente, as alheias “mentes abertas”. Há uma falsa cordialidade com ele. Um estrutural e moral bullying psicológico, capitaneado como liberdade de expressão das “diferenças individuais”. Mas ali no fundo os “acordados” têm é mesmo medo de perder a felicidade.

Talvez “I Comete − A Corsican Summer” até consiga provar que seres humanos não foram feitos para conviver como indivíduos sociais. O alto grau egocêntrico do eu acima de todos (e ultimamente pregado pela hipócrita sociedade das regras soltas e “possíveis”) é incompatível com o senso comum comunitário. Pascal Tagnati trabalhou com os moradores da aldeia que retrata: cada um contribuiu com os diálogos. “Como corpos celestes, os personagens orbitam um ao redor do outro”, explica o diretor.

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