Friends and Strangers

Contra Hegel e o Mundo

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Roterdã 2021

Exibido na mostra competitiva do Festival de Roterdã 2021, “Friends and Strangers” apresenta-se como uma fábula hipster. Uma performance da artificialidade para embasar seu elemento superficial. De uma geração que compartilha uma atmosfera de egos robóticos. Ainda que a arte cinematográfica, especialmente o festival holandês, pregue a infinita pluralidade de experiências narrativas, ainda assim, toda estranheza, por mais radical que seja, precisa oferecer um mínimo de lógica. Até Jean-Claude Godard usava a descontinuidade e intervenção imagética-sonora com o propósito de uma crítica a própria vanguarda. Aqui, quadros antigos renascentistas querem colaborar para criar um atrito com a modernidade (a arte pop conceitual) do hoje, a fim de ilustrar, complementado com a comtemplação de paisagens, o cotidiano de dois amigos entre estranhos.

Seu realizador estreante na direção de um longa-metragem, o australiano James Vaughan, com 31 anos, que parece ainda viver na Geração Z dos vinte anos, almeja em “Friends and Strangers” o vazio como resposta do tudo e busca na mistura de Xavier Dolan, Woody Allen, David Lynch e Wes Anderson um blasé sonhador que caminha no limiar tênue da pretensão e ingenuidade. Sim, é muita “farinha para pouco pirão”. O filme soa como se todo o roteiro fosse construído no momento do filmar. Por crianças de doze anos, brincando à moda de “Onde Vivem os Monstros”, de Spike Jonze, e lendo livros em uma fantasiosa tenda no meio de parque florestal.  O foco e condução é todo pela estranheza das sinapses não conectadas. Por conversas nonsense, desconexas, perdidas, improvisadas e fora de tom, quase arrogantes monólogos que se transmutam em inocentes e voltam a ser presunçosos.

“Friends and Strangers” tenta se comportar como um noir atemporal. Uma fenda psicológica do tempo. Um mundo paralelo que acessa um portal-transe de loucuras-idiossincrasias, projetadas a serem reais. Uma alteração desconstruída. Uma epifania. Um surreal bad-dream (aqueles que queremos acordar logo). Toda essa mise-en-scène arthouse nos vende “uma abordagem irônica do solipsismo contemporâneo”. Se formos ao dicionário para traduzir a expressão filosófica, teremos que é uma “concepção de que, além de nós, só existem as nossas experiências. O solipsismo é a consequência extrema de se acreditar que o conhecimento deve estar fundado em estados de experiência interiores e pessoais, não se conseguindo estabelecer uma relação direta entre esses estados e o conhecimento objetivo de algo para além deles. O “solipsismo do momento presente” estende este ceticismo aos nossos próprios estados passados, de tal modo que tudo o que resta é o eu presente”. Com isso conseguimos completamente definir a transformação do mundo de hoje.

“Friends and Strangers” é como uma forma de idealismo de um egoísmo pragmático. É Max Stirner contra Hegel e sua acentuação do universal. Concluindo, não concordar-compactuar com o filme é automaticamente entrar em “guerra” com uma geração que ganha o poder do “rei solitário”. De reinos que não abarcam semelhantes. Que os trata como estranhos e sem possibilidades de ganhar vozes, em “situações particularmente embaraçosas, como vinhetas separadas” e “isoladas na hiper-consciência” de si mesmos, algo rascunhado no seriado da HBO “We Are Who We Are”, de Luca Guadagnino (de “Me Chame Pelo Seu Nome”, mas que neste expõe o vazio-tédio de uma geração).

Trailer

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