História de um Olhar

A curiosidade do processo

Por Vitor Velloso

Durante o Festival É Tudo Verdade 2021

“História de um olhar” de Mariana Otero é mais um longa que está concorrendo na competição internacional do É Tudo Verdade deste ano. O filme persegue a trajetória de Gilles Caron, fotojornalista que desapareceu no Camboja, em 1970. O exercício que o documentário propõe é particular em sua forma, pois não busca apenas uma questão investigativa que “encontra verdades” na trajetória do fotógrafo. 

O esforço na investigação está diretamente ligado à uma série de suposições das atitudes tomadas, a partir do que a fotografia expõe e de seus enquadramentos. É algo particularmente interessante que é construído em uma espécie de suspensão geral do objeto cinematográfico para um mergulho na obra fotográfica do artista em si. Vemos diretamente da tela do computador, um mapeamento de cada passo que Caron teria feito, a partir do número do rolo, enquadramento, objetos enquadrados, ângulos etc. É um trabalho que enriquece a obra e fortalece os laços com personagens que foram eternizados. Não à toa, a diretora encontra algumas pessoas que aparecem em retratos e fotos, a fim de compreender a relação com Caron e o próprio contexto no espaço e momento.

Essas breves digressões na linguagem, mantém o longa relevante durante sua projeção, já que não se acomoda em um formato facilmente assimilado por unanimidade. Por questões como essa, “História de um olhar” pode até ser arrastado em sua maior parte, mas detém a atenção do espectador por trabalhar com um conjunto de dispositivos que se modificam conforme a estrutura encontra espaço para novas “transgressões”. As especulações estão em um campo menos delirante que poderíamos acreditar em um primeiro momento, pois trabalha com outras dimensões do conhecimento, chegando a utilizar um mapa para direcionar a perspectiva de uma foto e assim entender os caminhos que Caron teria realizado. A vasta quantidade de fotografias presentes, são utilizadas para criar esse mosaico de um trabalho que encontra na própria prática, uma ambiguidade de cúmplice e denunciante. 

É uma espécie de crise interna na eulogia formalizada pelo documentário, onde esse reconhecimento quase lúdico de uma carreira atravessada por mortes, sorrisos e tristezas, vai tomando um grau de amadurecimento e uma distinção mais ampla da própria estética. 

Entre o filme-processo que abre a obra e as transas com o ensaio que se concretizam, “História de um olhar” consegue transitar bem entre essas diferentes abordagens, sem entrar uma decadência estonteante da reflexão centrista. Ainda que carregue alguns vícios da “fala mansa”, é capaz de se destacar por uma perseguição formal inquieta que sai da inércia para criar provocações, encontrando espaços para uma estrutura que parte da mera admiração por essa postura que encontra respostas e busca decifrar. A segunda metade do filme acaba perdendo parte desse ímpeto de curiosidade fomentado anteriormente, tornando a experiência seccionada e mais arrastada. Porém, os trinta minutos finais guardam algumas experimentações divertidas no campo da imagem e reflete a necessidade que Mariana Otero possui em deter o controle daquilo que vai ser projetado, distante da quietude clássica. Flerta com o academicismo e suas exposições, mas percorre sub gêneros diversos e cria uma multifacetação da própria obra. 

Uma das frentes exploradas pelo filme, é a vasta produção de Caron em um curto período de tempo e como esse olhar era analítico ao criar composições a partir de objetos que estavam em constante mudança. Por essa razão, é possível perceber em “História de um olhar” uma compensação histórica e particular para justificar o próprio interesse de Mariana em realizar um filme sobre o fotógrafo e se debruçar nas especulações para um prazer próprio de aproximar-se desse olhar que tanto admira. 

Essa estrutura possui altos e baixos, perde ritmo em diversos trechos e acaba caindo em pragmatismos da “fala-mansa”, do academicismo e de um suposto ensaio que se constrói a partir do processo reflexivo que essas investigações lhe causam. Mas sem dúvida, é um documentário que fica marcado pelas tentativas de desarticular a linguagem como um processo uníssono na contemporaneidade.

Trailer

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